05 • março • 2018

O que você faz com a roupa velha que não quer mais?


Empreendedora de moda, Adriana Costa, 32 anos, dona da Ágama – marca de bolsas produzidas a partir de resíduos têxteis – se surpreendeu ao encontrar no lixo da cozinha de sua casa uma camiseta de seu pai. “Foi depois de termos feito a faxina, então, o lixo estava limpo. Eu abri para descartar alguma coisa e vi um tecido no fundo. Vi que era uma camiseta dele com o bolso descosturado”, relembra. Seu instinto e envolvimento com a questão dos resíduos a fez questioná-lo. “Expliquei que o bolso estava apenas descosturado e que ainda que não a usasse para sair, poderia usar para ficar em casa. Ele ficou meio perdido. Depois disso, achei que tinha entendido, porque após o episódio quando uma meia rasgou, pediu para eu costurar para usar mais”, comenta.

No entanto, recentemente, o aposentado Ademir Costa, 60 anos, repetiu seu ato. “Cerca de um mês e meio atrás, meu noivo estava em casa, abriu o lixo na mesma situação, e lá estava uma camiseta pijama.” Adriana afirma que diferente da primeira vez, a peça estava puída. E mais uma vez ela o chamou para falar a respeito descarte que precisa ser feito da forma correta também em casos de resíduos têxteis. “Depois da conversa, o ouvi dizendo para a namorada que eu tinha razão e que não dava para jogar no lixo comum a peça porque polui. Acho que foi algo tão automático. Ele não sabia aonde ir. E essa foi a forma que encontrou de descartar a roupa. Mesmo eu trabalhando com isso, é complicado fazer entender”, desabafa.

O descarte de peças de roupas em boas condições pode até ser algo relativamente simples de se pensar. Afinal, quem nunca reuniu peças e doou para alguma instituição ou fez uso de algum outro movimento para tirar do guarda-roupa algo parado. Mas, e quando o assunto são peças em seu último estágio de vida? Certamente Ademir, pai de Adriana, não está só. Saber o que fazer com esse tipo de resíduo é sim uma questão presente em todo o mundo.

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>> A reciclagem de roupas é um negócio extremamente complexo, tecnicamente falando, a mistura das fibras inviabiliza o processo – Foto: Google Imagens

Para se ter uma ideia, de acordo com dados apresentados durante um dos mais importantes eventos dedicados à moda sustentável da atualidade, o Copenhagen Fashion Summit, que acontece na Dinamarca, estima-se que, só em 2015 foram produzidos 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis no mundo. Só no Brasil, estima-se que são geradas 170 mil toneladas por ano. E o destino desses resíduos, quase sempre são lixões e aterros. A decomposição de tecidos é um processo que pode durar meses ou centenas de anos. Outro problema são os gases e as substâncias tóxicas que contaminam o solo e a água. Ainda segundo informações do evento, com o aumento da população mundial – a previsão é que em 2030, o Planeta Terra atinja a marca de 8,5 bilhões de habitantes – a produção de vestuário, hoje na casa, em média, das 62 mil toneladas, chegará a 102 milhões. Portanto, está mais do que na hora de pensar sobre: o que tem sido feito para minimizar os danos causados pelo descarte de todas essas peças que já existem e as que estão por vir e como contribuir de maneira coletiva e individual?

Aqui no Brasil, a Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS), tem a missão – a longo prazo – de mexer com a realidade do descarte – que hoje ainda é assustadora. Um exemplo é o que acontece, num contexto geral, na Capital paulista, onde, de acordo com a Prefeitura de São Paulo, apenas 2,5% do resíduos sólidos coletados na cidade são destinados à reciclagem. Desde 2010, o plano é envolver e responsabilizar legalmente fabricantes e consumidores. E um dos instrumentos da PNRS é a logística reversa. “A PNRS define a logística reversa como um instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada”, conforme explicação no site do Ministério do Meio Ambiente.

Uma luz no fim do túnel na jornada rumo a Nova Era da Moda?

Desde setembro de 2017, a C&A – uma das mais populares varejistas do vestuário no Brasil – coloca em prática o Movimento Reciclo. A iniciativa faz parte da Plataforma Global de Sustentabilidade da marca. E envolve entre outras coisas, um mecanismo de logística reversa. Disponíveis em 31 lojas da rede, espalhadas por 18 cidades brasileiras, caixas de coleta recebem espontaneamente roupas descartadas. Durante a triagem peças em condições de uso e roupas em último estágio de vida são separadas e depois encaminhadas para os projetos Retalhar, na Capital paulista, e Centro Social Carisma, com sede em Osasco (SP).

>>> 31 lojas espalhadas por 18 cidades brasileiras contam com a caixa coletora do Movimento ReCiclo – Foto: Marcela Fonseca

“O Movimento (ReCiclo) é uma das iniciativas da nossa Plataforma Global de Sustentabilidade e existe desde setembro de 2017, quando lançamos o primeiro produto circular da C&A – a camiseta com certificação nível Gold da Cradle to Cradle™, que foi desenhada para ser reciclada – e o seu principal objetivo é oferecer uma alternativa de descarte a roupas usadas, seja por meio da reutilização ou reciclagem. Ao todo, 31 lojas já contam com a caixa. Desse total, em 29 disponibilizamos as camisetas com a certificação Cradle to Cradle™, em setembro de 2017”, explica Rozália Del Gaudio, gerente Sênior de Comunicação & Sustentabilidade.

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>> O Moda Sem Crise esteve em algumas lojas da rede onde a caixa está disponível. Em algumas delas, o projeto aparece de forma mais evidente, como é o casa da unidade do Shopping Center Norte, na zona norte, visitada dia 9 de janeiro. Já durante visita feita na unidade da Rua Augusta (foto), dia 28 de dezembro, a caixa não estava em um local que a favorecesse – Foto: Marcela Fonseca

Segundo Rozália, o projeto ainda é piloto. E a divulgação é feita pontualmente por meio de audiostore – anúncios de áudio durante o expediente das lojas. Informações a respeito do serviço de logística reversa estão no site da empresa, onde é possível também conferir o regulamento (disponível neste link). “Vamos obter os frutos da semente que plantamos até fevereiro deste ano para ajustar o que for necessário e ampliar a campanha para outras lojas. Vamos ampliar o plano piloto e intensificar a divulgação entre os clientes para gerar ainda mais resultados positivos”, diz.

Até agora, das unidades que já enviaram as roupas recolhidas para a triagem, foram arrecadadas mais de 150kg de peças para serem doadas e mais de 45kg para reciclagem, segundo a C&A.

“Estamos recolhendo as peças das lojas para fazer o balanço do volume arrecadado. Algumas praças, como Santos [no Litoral paulista], tem se destacado em relação a alta receptividade e participação do público”, afirma ela que explica ainda que depois de coletadas, as peças são enviadas ao Centro de Distribuição da C&A para triagem e separação de acordo com o estado de conservação. “As peças em bom estado serão encaminhadas para o Centro Social Carisma, que reverterá em ações a favor da comunidade local. Já as peças que não poderão ser reutilizadas, tais como peças rasgadas, com avarias ou retalhos serão encaminhadas para a Retalhar, que cuidará da destinação dessas peças para serem reutilizadas na indústria.”

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Sim! Sua camiseta velha tem muito valor!

Uma peça de roupa em seu último estágio de vida tem todo valor nas mãos dos profissionais envolvidos direta e indiretamente com a Retalhar. A empresa – que desde o início de sua atuação trabalha normalmente com a reciclagem e descaracterização de uniformes corporativos – é um negócio social focado na logística reversa consciente. Com capacidade para receber até dez toneladas de material reciclável por mês em seu galpão, a expectativa da Retalhar em relação a essa parceria é alta devido ao tamanho e consequentemente alcance da C&A. Cofundador e gestor de projetos da Retalhar,  Jonas Lessa diz enxergar uma rara oportunidade para disseminar consciência junto às massas.

Acredito que a grande importância [referindo-se à iniciativa] esteja na disseminação de valores por meio da ação efetiva. Enxergo como uma luz brilhante no fim do túnel, mas que requer continuidade e disposição para romper com o imediatismo que ronda nossa sociedade, sem a intenção de fazer apenas para comunicar que está fazendo. O propósito é sempre o grande diferencial de qualquer projeto que queira se relacionar à pauta da sustentabilidade, neste caso, enxergamos sinergia com a C&A, já que buscam fazer moda com impacto positivo.”

A participação da Retalhar no Movimento Reciclo consiste em dar nova vida a todo resíduo têxtil que a C&A, após triagem interna, classificar como apto para a reciclagem, conforme o regulamento. “Uma vez recebidas as peças, separaremos seus componentes (tecidos e aviamentos) e encaminharemos as peças para o desfibramento, que é atualmente a melhor destinação possível para resíduos têxteis gerados em larga escala, já que após o desfibramento o material volta a ser matéria-prima para a indústria, com aplicações principalmente na indústria automobilística e construção civil”, afirma.

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>> Quer um exemplo do quanto sua peça de roupa pode ser útil? Retalhar transforma resíduos em cobertores entregues à população em situação de rua – Foto: Reprodução Facebook Entrega por SP/Juliana Mansano

Abordando a parte técnica, Lessa explica ainda que na verdade – exceto pela ainda muito custosa reciclagem química – é inviável fechar o ciclo dentro da mesma cadeia. “O que podemos fazer é simplesmente o melhor possível, dentro do que está ao alcance.” A operação da Retalhar incorpora as misturas de fibras ao processo produtivo de feltros diversos, cada um com uma aplicação específica, e que até então eram feitos exclusivamente com matéria-prima virgem. “Sabemos que, sob a ótica da economia circular, não é o ideal e isso nos motiva. Sabemos também que é significativamente melhor do que as falsas soluções antes encontradas para estes resíduos e isso nos orgulha.” Lessa diz também acreditar que a parceria com a varejista abre precedentes para outras marcas e até outros setores da sociedade se engajarem na causa. E completa:

A verdade é que os conceitos se misturam muito quando se trata de empresas que atuam com um propósito maior do que o lucro. O foco maior da Retalhar é o meio ambiente e, nesse sentido, já superamos a marca de 100 mil peças de roupas que ganharam uma vida nova ao invés de apodrecer num aterro sanitário. Estamos falando de 230 metros cúbicos que seriam ocupados em aterro sanitário, mas foram recuperados para seguir com utilidade à sociedade. Temos também, é verdade, um viés social forte, até porque social e ambiental são absolutamente indissociáveis. Apoiamos e somos apoiados por uma rede de cooperativas totalizando 37 mulheres que sustentam suas famílias a partir de um incrível trabalho de revalorização de resíduos têxteis, transformando descarte em novos produtos. Além disso, trabalhamos em parceria com o Pimp My Carroça e o Entrega por SP, ambas organizações que atuam pela visibilidade e valorização de seres humanos muitas vezes ignorados pela sociedade e que destinam algumas peças de roupas e uniformes descaracterizados para que estas pessoas possam usar em seu dia a dia.

Doadas para ONG, peças em bom estado seguem suas histórias

Depositadas nas caixas de coleta do Movimento ReCiclo da C&A, as peças em bom estado são direcionados ao Centro Social Carisma. A ONG atua no fomento, incentivo e disseminação da cultura, esporte, educação, tecnologia e formação para o trabalho. Responsável pela gestão de recursos e projetos, Celina Mendes explica que o entidade promove bazares de roupas para arcar com as despesas de projetos que promovam acessibilidade, integração social e sustentabilidade.

“O Centro Social Carisma realiza bazares de roupas em boas condições de venda para ajudar no orçamento mensal, é uma das formas de mobilização de recursos que utilizamos para manutenção dos projetos e pensar em economia circular e na cadeia de processos, pois é necessário em uma sociedade que cada vez mais valoriza e procura a sustentabilidade. Acreditamos que com a vinda dessas peças , conseguiremos atender um público maior. Todo mundo tem muitas roupas de qualidade que não são mais usadas e quando são repassadas, essas roupas ganham mais ciclos de vida e se tornam menos descartáveis. Quem doa ganha sendo útil , quem compra adquire algo de qualidade por um preço justo e o meio ambiente agradece, afinal, a indústria da moda é das mais poluentes do planeta”, afirma.

A ONG existe há 18 anos e promove atividades socioeducativas dedicadas a crianças e adolescentes entre 8 e 23 anos. Segundo Celina, a entidade já atendeu mais de 40 mil pessoas desde o início dos trabalhos. E essa não é a primeira vez que a C&A e o Centro firmam parceria. Outro projeto em comum visa a formação profissional de costureiras para inseri-las no mercado de trabalho. Implantado em março de 2017, a Oficina do Bem é um curso de seis meses com estágio remunerado.

As caixas de coleta do Movimento ReCiclo estão disponíveis nas seguintes unidades: São Paulo (SP): Shopping Villa Lobos, Shopping Iguatemi, Shopping Morumbi, Shopping Center Norte e Augusta; Campinas (SP): Shopping Parque Dom Pedro e Shopping Iguatemi Campinas; Ribeirão Preto (SP): Shopping Ribeirão Preto ; Votorantim (SP): Esplanada Shopping; Santos (SP): Santos Praia do Gonzaga; Rio de Janeiro(RJ): Centro-Copacabana, Barra Shopping, Centro, Ipanema; Niterói (RJ): Plaza Shopping; Belo Horizonte (MG): BH Shopping e Centro; Balneário Camboriú (SC): Balneário Camboriú Shopping; Porto Alegre (RS): Centro, Shopping Iguatemi e Shopping Park Barigui; Brasília (DF): Park Shopping; Vitória (ES): Shopping Vitória; Goiânia (GO): Flamboyant Shopping; Maceió (AL): Flamboyant Shopping; João Pessoa (PB): Manaíra Shopping; Recife (PE): Shopping Recife e Shopping Rio Mar; Fortaleza (CE): Shopping Iguatemi Fortaleza; Salvador (BA): Salvador Shopping e Shopping Iguatemi Bahia.

O que pode ser depositado nas caixas: roupas em bom estado e higienizadas, como, por exemplo, blusas, camisas, camisetas, coletes, jaquetas, calças, shorts, bermudas, saias, meias, bonés, cachecol, canga, sunga, biquíni e maiô. Acessórios de cama e mesa, como, lençol, fronha, edredom, cobertores, colchas, toalha de mesa, roupas de lã e crochê. E roupas rasgadas e retalhos.

E+ Sugestão da autora: Você pode saber mais a respeito do descarte de roupas assistindo ao documentário Unravel que mostra a realidade de mulheres indianas que descosturam peças descartadas por pessoas de países ocidentais  atendendo assim a indústria de reciclagem de roupas na Índia. Outra sugestão é baixar o guia “O que fazer com o que não quero mais” escrito pela Oficina de Estilo com a contribuição da Mari Pelli do Roupa Livre.

*Atualizado em 19 de março, às 14h15.




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