Ética e transparência no processo de produção: O que o consumidor tem a ver com isso? — Moda Sem Crise
05 • maio • 2017

Ética e transparência no processo de produção: O que o consumidor tem a ver com isso?


NEGÓCIOS DE MODA – Diante do espelho do provador o consumidor só quer saber se a roupa que experimenta lhe cai bem, se o deixa bonito. No entanto, para promover a produção ética e transparente capaz de transformar a indústria da moda, o consumidor não pode se limitar pensar apenas nisso. Usar algo que cai bem é sim importante. Mas questionar as marcas – de grande, médio ou pequeno porte – sobre as condições de trabalho de quem está dentro e fora das oficinas produzindo é fundamental. Para a Gerente de Sustentabilidade do Grupo Malwee, Taise Beduschi mudar essa mentalidade é o grande desafio da indústria que preza por questões socioambientais.

“Sou Engenheira Química por formação. Tenho mestrado na Engenharia Ambiental e hoje faço MBA em Marketing. Tudo isso para trabalhar com sustentabilidade. Para saber como as coisas são fabricadas. E para saber como a gente comunica e engaja pessoas nesses processos sem ser ecochato. Como levar essa mensagem de branding e convencer a pessoa que sempre que vai comprar uma peça de roupa, só quer saber se está bonita, muito mais do que saber se quem fez aquela roupa foi uma criança, foi uma pessoa que está em condições de trabalho inadequado? Isso é um desafio muito grande e a gente tem que separar isso para tentar contribuir com a sociedade. Não conseguimos mudar o modelo econômico de forma utópica só com sentimento de revolta. Tem que primeiro buscar o caminho de como fazer. É super difícil, mas estamos tentando.”

Vestindo uma camiseta branca na qual estava escrito “Eu sei quem fez minhas roupas. E você?”, Taise esteve entre os convidados do Fashion Revolution Talks que colocou em discussão a “Produção Ética e Transparente”. A ocasião mediada pela representante brasileira do Fashion Revolution Fernanda Simon contou também com a participação de sua sócia Eloísa Artuso, co-fundadora e consultora da UN Moda Sustentável, que falou em nome da UN e Jonas Lessa da Retalhar. O bate-papo fez parte da programação de um dos principais eventos da indústria têxtil e de confecções do Brasil, a FebraTêxtil e ocupou na noite do dia 25 de abril o espaço onde rolou o Fórum Árvore do Conhecimento do 1º Congresso Internacional de Moda e Tecnologia Têxtil (CIMTT). A gerente de sustentabilidade do Grupo Malwee contou o que a empresa – que está há 48 anos no mercado – tem feito para defender valores e seguir com os trabalhos de nove marcas e gestão de seus 8 mil funcionários.

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Taise Beduschi falou durante o Fashion Revolution Talks sobre a experiência e estratégia para tornar transparente o processo de produção do Grupo Malwee, empresa de grande porte – Foto: Dorival Zucatto

“Somos verticalizados e dentro de nossos valores há um ponto muito forte que é o respeito ao meio ambiente e as pessoas, para isso propomos uma série de ações junto com colaboradores e as comunidades onde estamos inseridos. Inclusive na matriz aberta desde 1978 e aberta para a comunidade”, comentou.

Segundo Taise, na história da empresa sempre houve a preocupação e o engajamento por sustentabilidade. Mas no momento de em que foi preciso terceirizar parte da produção para ampliação do grupo, a gestora deu de cara com um cenário protagonizado por mão de obra escrava. A estratégia adotada foi ampliar o olhar da sustentabilidade no negócio, já que havia de antemão a expertise.

“Havia um olhar voltado para a comunidade. Trabalho com sustentabilidade desde 2000 quando os primeiros conceitos da sustentabilidade da indústria foram estabelecidos para os negócios. E essa orientação vem de sair do modelo mais filantrópico e de apoio à comunidade, para um olhar de negócios e dizer quais os impactos do meu negócio e quais os riscos associados. Quando entrei no Grupo Malwee vi o desafio que seria desenvolver um plano de sustentabilidade, olhando para o que já havia em sua história e pensando no futuro”, relembrou.

O plano de negócio levou um ano e meio para ficar pronto. Segundo a gestora foram traçadas metas que envolvia desde o produtos com vieses sustentáveis até a gestão de cadeia de fornecedores, a redução do impacto, e como a mensagem seria então levada ao consumidor final. “Temos produtos que já são confeccionados com matéria prima reciclada. Temos uma poliamida biodegradável”. Mas a grande questão parecia mesmo envolver os quase 2 mil fornecedores. “Como iríamos controlá-los? Primeiro os classificamos por critérios e depois estabelecemos uma forma de avaliação”, disse Taise que explicou ainda como o modelo – que teve início em 2013 – funciona: A verificação pode ser documental, sendo assim o fornecedor deve mandar evidência dos processos que estão de acordo e que podem ser avaliados por meio de auditoria.

A Malwee aposta também na certificação da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVETX). Essa certificação é dada à empresas da cadeia varejista desde que estejam de acordo com requisitos mínimos que envolvem condições adequadas de trabalho e segurança no trabalho e normas trabalhistas contratuais, além de questões ambientais e gestão de resíduos. “Hoje temos um grupo de trabalho e nos reunimos mensalmente para verificar indicadores. Estabelecemos um código de ética que todos os fornecedores precisam seguir.”

Os fornecedores são acompanhados de perto por uma equipe que faz o trabalho de campo, os analisando diariamente. O objetivo é identificar problemas, levar a informação necessária, e contribuir para que atendam às normas estabelecidas por todas as partes envolvidas. “O plano é até 2020 estarmos com todos os fornecedores certificados, 67% dos nossos contratados são certificados. E até aqui temos um resultado de 100% dos códigos de ética assinados [pelos 2 mil fornecedores do Grupo Malwee]. E ao sinal de qualquer inadequação, fazemos uma notificação formal. E a ele é dado um prazo”, contou Taise que informou que a empresa praticamente não conta com fornecedores em São Paulo. “Aqui tem há muitos problemas com os estrangeiros. Já em Santa Catarina e no Paraná, estados onde está a maior parte de nossos fornecedores o problema que temos enfrentado é outro. A pessoa se aposenta, mas a cunhada tem uma confecção, então ela recebe a aposentadoria e trabalha fazendo o ‘bico’. Elas entendem que mesmo aposentadas devem continuar trabalhando, normalmente porque precisa aumentar a renda familiar, mas não podemos aceitar esse tipo de situação”, afirmou.

Relação com o Fashion Revolution Day

Uma das questões levantadas pelo movimento Fashion Revolution é: Quem faz minhas roupas? O movimento que atua em 92 países, cobra, entre outras coisas, por transparência no processo de produção, principalmente das grandes indústrias. Estima-se que 80 bilhões de peças de roupas sejam vendidas por ano. E para fechar essa conta, a indústria da moda mantém uma fórmula que combina a exploração da mão de obra ao frenético comportamento de consumo. O movimento global surgiu após, após o desabamento do edifício Rana Plaza. O prédio de oito andares construído na periferia da capital de Bangladesh abrigava cinco fábricas de confecção de roupas e empregava mais de 2 mil trabalhadores. O trágico acidente causou a morte de 1.133 pessoas e deixou outras 2.5 mil feridas.

Segundo Taise Beduschi, o Grupo Malwee tem assumido o compromisso de mostrar quem são as pessoas por trás de suas peças. “Uma das nossas metas é levar a informação para todos os nossos relacionamentos. Volto a repetir que nosso grande desafio é levar essa mensagem ser sermos chatos e de forma significativa. Temos em São Paulo uma loja conceito no Shopping Center Norte [Malwee Kids] que já está disseminando essa informação. E temos mostrado aos clientes como atuamos e os engajando em todo o processo”, completou.

As ações durante a Fashion Revolution Week do grupo incluiu enviar cartas aos consumidores, assinadas por um colaborador da empresa respondendo a  pergunta “Quem fez minhas roupas?”, mote da campanha do Fashion Revolution. E os convidando para fazer parte.

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Parceiros do Grupo Malwee entraram na campanha do movimento Fashion Revolution respondendo a pergunta “Quem faz minhas roupas?”, da melhor forma, contando suas histórias – Fotos: Grupo Malwee

A produção ética e transparente pode transformar a indústria da moda.

Não se limite a saber se a peça que experimenta lhe cai bem.

Questione. Procure saber também quem a produz.

Seja parte dessa revolução!

 

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Negócio Social: Retalhar transforma resíduos têxteis em inovação socioambiental — Moda Sem Crise - 05, maio 2017 às (15:17)

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