17 • abril • 2018

Roupas e estampas produzidas por detentas conquistam espaço no Minas Trend


É no Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto em Belo Horizonte (MG), que Aline (nome fictício) cumpre pena. A jovem de 30 anos faz parte de um grupo de cinco mulheres que de dentro do presídio em uma fábrica produz peças de roupas para a Libertees. “Sempre gostei de moda. Já conhecia um pouco na teoria e agora na prática”, disse Aline que a mais de 580 km de distância atendeu ao pedido do Moda Sem Crise. E ainda que de forma sucinta, mas sensível respondeu as questões que chegaram até ela impressas em uma folha de papel A4.

Quem se comprometeu levar e entregar as perguntas para que ela respondesse foi Marcella Fonseca Mafra, 40 anos, acompanhada de Daniela Queiroga Léo, 47, diretoras da Libertees – projeto que tem dado oportunidades a essas mulheres em situação de cárcere. “Nunca imaginei que teria essa oportunidade aqui. O plano é dar continuidade após o cárcere”, diz Aline. Além da confecção das peças – vestidos e camisetas – as detentas contribuem também desenhando estampas e a jovem que vê no projeto o caminho para a ressocialização desabafa. “[A ideia das estampas é] mostrar para as pessoas que presas ainda são pessoas. Isso dá esperança de dias melhores. E essa esperança é única e motivadora.”

Projeto Libertees: Penitenciaria feminina Estevão Pinto em Belo Horizonte – Foto: Mariela Guimarães

Marcella conta que em meados de 2017, recebeu uma proposta da diretora de ressocialização da unidade prisional, Maristela Ismério para trabalhar com mulheres que haviam cometido crimes de repercussão e discriminadas dentro da penitenciária por outras detentas. “Para falar a verdade, não foi uma decisão fácil. Não pelo estigma de ‘presas de repercussão’, porque nunca importei com o crime que cometeram e não procuro saber. Dentro da minha fábrica, o crime fica do lado de fora. Mas por ter que recomeçar. Começar do zero. Tive o apoio da minha coordenadora, Alessandra Frade, que é a responsável em ensinar o ofício a elas. Aceitei o desafio. Deus cumpre a cada dia o que ele propôs para nossa vida. Estou muito feliz com a essa minha nova realidade. As meninas são ótimas, compromissadas e partilham dos meus sonhos e eu com o delas, a Liberdade e vida nova”, explica.

Mas todo o envolvimento de Marcella com mulheres em situação de cárcere teve início três anos antes. “O trabalho com as detentas aconteceu em 2013, ano que a empresa deixou de ser LT Confecção para se tornar Liberte-se Confecções. Esse nome foi escolhido logo que pude vivenciar meus primeiros momentos com esse novo mundo e me doei completamente.” O trabalho teve início no Presídio José Abranches, em Ribeirão das Neves e a princípio eram confeccionadas apenas sacolas promocionais. Com a transformação em Liberte-se, o projeto foi levado para o complexo penitenciário de BH onde permanece.

Teto da fábrica onde detentas costuram sonhos – Foto: Mariela Guimarães

De cara, Marcella explica que teve a chance de trabalhar com 15 mulheres. “Cada uma com mais vontade do que eu. Poucas, aliás, uma das 15 tinha noção de costura. Durante um mês elas foram treinadas e as 12 que se adaptaram ficaram. Ouvi coisas engraçadíssimas, tipo ‘gente do céu, pilotar essa overloque é a mesma sensação de pilotar um carro de fuga’. E assim passaram por mim cerca de 50 mulheres.”

Com o passar do tempo, a confiança, qualidade e capacidade, o negócio evoluiu e além da produção de sacolas, a fábrica passou a produzir também moda para empresas.  “A Liberte-se tem clientes fieis nesse segmento, que ajudaram e ajudam a manter o projeto, escolhendo a Liberte-se para fazer seus brindes. Hoje a Liberte-se atende importantes marcas de moda em BH, fechando as peças”, explica Marcella.

Então, diante da proposta feita em 2017 pela diretora do presídio nasceu uma uma nova marca: a Libertees. “A Libertees nasceu da vontade de ter uma marca própria. Mas eu não queria uma marca ‘normal’. Queria algo que eu pudesse mostrar o que tem de bom ali dentro de um lugar, onde o julgamento e o preconceito, são infinitamente maiores do que o amor ao próximo. E eu, como uma boa mineira, observadora, curiosa e matuta, não pude deixar de exaltar um trabalho lindo realizado pela Escola Estadual Estevão Pinto, que fica dentro do complexo penitenciário. Era uma  exposição dos desenhos das alunas da escola, feitas em papel craft e tinta guache, tendo como grande mestre, o professor Eder Batista, professor na escola há anos e com uma sensibilidade incomparável. A simplicidade me chamou a atenção. A pouca estrutura. O pouco recurso. Tudo tão pouco. O retrato de onde eu estava; uma penitenciária. Mas os desenhos eram tão lindos, tão fortes e coloridos que a ideia veio. Era isso. Hoje, trabalho com cinco mulheres, as minhas meninas. Dizem elas, que sou uma Tsunami, me apelidaram assim.”

Professor Éder Batista com as alunas do curso de artes – – Foto: Mariela Guimarães

Marcella explica ainda  que as detentas recebem remuneração de ¾ do salário mínimo, que são divididos em três partes, uma para o pecúlio, outra para elas se manterem dentro da penitenciária, com o que a penitenciária não fornece, por exemplo, cigarro, e ou mandarem para a família para ajudar na criação de seus filhos e a terceira parte para a penitenciária. E recebem o benefício de a cada três dias trabalhados, elas recebem um dia de remissão.

Para iniciarem o trabalho na oficina, as presas passam por um comitê de profissionais qualificados, que avaliam as condições físicas e mentais para determinado trabalho. As mulheres selecionadas, passam por treinamento para aprender o ofício e iniciam assim o trabalho.

Participação no Minas Trend

O reconhecimento da Libertess chegou relativamente rápido, mas movido a muito trabalho. Marcella Fonseca Mafra encontrou em Daniela Queiroga Léo o reforço que precisava para tocar os trabalhos. “Sozinha, a gente não é ninguém. Amiga de uma prima, que inclusive foi uma parceira da marca, conheço a Daniela há 20 anos. Mas sem nenhum contato maior. No meu aniversário em 2016, ela conheceu o projeto e vi seus olhos brilhando. Na oportunidade, achei que seria mais uma. Mas não. Desde início de 2017, estamos batalhando a marca Libertees.”

Daniela Queiroga Léo (à esquerda) e Marcella Fonseca Mafra (à direita) – Foto: Caroline Mansur

Formada na área da Educação, pedagoga, psicopedagoga e Especialista em Neurociências aplicadas à Educação, Daniela antes de chegar à Libertees atuou em escola por anos e em Consultório Psicopedagógico. “Atendi muitas pessoas com transtornos e distúrbios de aprendizagens, ajudei muita gente à crescer e desenvolver habilidades e potenciais, fiz meu papel naquele espaço, naquele momento e precisei parar. Talvez tenha crescido e me desenvolvido mais do que eles. Enfim, fiquei por cinco anos à procura de algo novo e que me fizesse brilhar os olhos novamente, algo diferente de tudo o que já havia vivido. Então, neste exato momento de busca e propósito, encontrei-me com Marcella e soube do trabalho dela com a Liberte-se: encantei-me no primeiro momento. Pois em todo o trabalho exercido em minha vida, eu nunca soube fazer algo que não envolvesse pessoas e propósito”, conta.

Ensaio realizado no Bar do Carmo em Belo Horizonte. Modelo Flaviana Léo veste Bomber Célula da Libertess – Foto: Renan Navarro

A ideia de se juntarem surgiu em uma conversa bastante informal. “Eu lhe disse: Vou ajuda-la a chegar aonde quer. Ainda não sei como, mas vou. E, a partir desse encontro tudo passou a fluir. Como ela sempre diz: ‘Ninguém faz nada sozinho nesta vida.’ Em relação á moda, eu nunca havia me envolvido profissionalmente, mas, sempre entendi a moda como uma forma de comunicação, de interação com o mundo. A moda dita tendências mas , ao mesmo tempo, é absolutamente livre. Então, percebemos o quanto a moda poderia falar por nós e pelas mulheres da penitenciária. Dizer ao mundo: Estamos aqui e, se formos estimuladas, se olharem para nós, sabemos e podemos fazer coisas boas. Ajudar ao outro a redescobrir-se, reconstruir-se é incrível, é gratificante demais perceber o alcance do projeto, o movimento que ele provoca nas outras pessoas e em nós mesmas.

Ensaio realizado no Bar do Carmo em Belo Horizonte. Modelo Flaviana Léo veste Cropped Cidade da Libertees – Foto: Renan Navarro

A princípio, o projeto previa apenas a confecção de camisetas. Nada com apelo ‘compre essa causa’. E sim uma roupa com estilo, verdade  e design. “Tínhamos exatos 26 dias para apresentar uma coleção com trinta looks. Tínhamos uma estilista, Andrea Aquino, que desenhou as peças. Tivemos e ainda temos uma parceria com o Pedro, da Dream estamparia, que nos patrocinou em toda a estamparia. A Dream, faz um trabalho de estampa digital, que não usa água no seu processo. Esse fato nos encheu os olhos, pois agregaríamos a Libertees além do conceito da sustentabilidade social, a sustentabilidade ambiental”, conta Marcella.

Apresentada na 21ª edição do Minas Trend, a coleção ficou em terceiro lugar no concurso Ready to Go, realizado pela Fiemg e o TS Studio. “Esse terceiro lugar, para nós, foi o primeiro. Ficamos muito realizadas e agora com uma responsabilidade maior. Estar novamente no Minas Trend, tentando o primeiro lugar. E vou te falar; a coleção desenhada pela estilista Letícia Leão está simplesmente impar. Manteve-se a identidade na marca, que são estampas exclusivas das alunas da escola, com um ‘Q’a mais”, explica.

A 22ª edição do Minas Trend acontece entre 17 e 22 de abril no Expo Minas e apresenta coleções Primeira Verão 2019. O evento reúne expositores e lojistas dos segmentos de vestuário, calçados, bolsas, joias e bijuterias. A Libertees participa outra vez pelo projeto Ready to Go promovido em parceria com o SINDIVEST e a FIEMG e, tendo como parceiro para curadoria e orientação às marcas, o TS Studio de Design da Teresinha Santos.  Um estande coletivo recebe as 12 marcas que participam do concurso. Além da exposição da coleção, o objetivo é vender. E as marcas participantes do Ready To Go normalmente participam com uma peça do desfile de abertura.

Os desafios são muitos: Ser uma marca de impacto social , utilizando a moda como ferramenta de inclusão e transformação . O lançamento da marca e da 1ª coleção foi em outubro, na 21ª Edição do Minas Trend, então temos apenas 6 meses de existência. Os desafios são muitos. Primeiro entrar no mercado. Uma marca nova , conceitual e com recursos próprios. Estamos inclusive abertas à possibilidades de possuirmos um sócio-investidor. Trabalhar nesta área com recursos muito reduzidos não é fácil! Planejamos participar de mais feiras e eventos que deem maior visibilidade ao nosso trabalho. Queremos e precisamos crescer. Quanto maior a nossa demanda, maior será o número de mulheres que irão trabalhar na penitenciária.

Informações no link Minas Trend

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