20 • agosto • 2018

Representatividade: “Eu, Gorda” faz mulheres protagonistas de suas histórias


Quando criança, Milena Paulina, hoje com 23 anos, passou por uma situação que a fez apagar a existência de seu corpo. Invisível aos próprios olhos, levou tempo até que encontrasse o que precisava para reconhecer seu valor. Essa experiência mexeu tanto com seus sentidos que hoje seu trabalho é a mais bela expressão entre a arte e a representatividade que rompe com a falta de representatividade e quebra padrões.

“Eu não me via, não me enxergava. Trabalhei muito para ser uma pessoa muito além daqueles acontecimentos, me esforcei para ser a melhor versão de mim em tudo o que fazia. Mas nunca foi suficiente. Eu ainda olhava meu corpo e não entendia nada sobre a existência dele. Eu ainda acreditava que era inferior apenas por morar neste corpo. Eu ainda acreditava que meu corpo era uma ofensa aos olhos dos outros. Eu ainda acreditava que se eu pegasse uma tesoura e cortasse a flacidez do meu corpo, tudo ficaria bem. Eu necessitava no fundo de mim, me enxergar. E me enxergar acima de tudo, com amor.”

Felizmente tudo mudou quando a fotografia chegou até Milena por meio de um ensaio da modelo Jacqueline Jordão, que viu na internet. Foi primeira vez que eu Milena viu um corpo gordo, semelhante ao seu, em forma de arte, e então soube, que era aquilo que precisava: representatividade.

A fotografia chegou até mim como um resgate para quem já havia desistido da salvação.

Milena conta que sempre amou olhar fotos e imaginar o que estariam sentindo as pessoas no momento em que foram registradas as imagens. “Aquilo me instigava tanto, me prendia tanto, era como se aquelas pessoas conversassem comigo, ou me fizessem sentir menos sozinha. E quando tive a oportunidade de comprar minha câmera em 2016, eu já sabia que era isso o que eu queria fazer: gravar o que as pessoas estavam sentindo.”

O amor pela fotografia a fez criar o projeto autoral “Eu, gorda”. A artista explica que o projeto surgiu quando ainda não havia nela a real noção do quanto precisava de ajuda. “Eu sempre soube que queria construir algo para outras mulheres. Mas foi quando eu percebi que além de ajudar outras mulheres, semelhantes a mim, eu também poderia me ajudar, que este projeto nasceu.”

Extremamente pessoal, O “Eu, Gorda” é um grito que sai do fundo da alma de Milena clamando por mudança, arte, beleza, humanização do corpo gordo, que grita “Basta!” a todos os tipos de violações aos corpos.

Milena Paulina pelo olhar de Caroline Tedesco

Representatividade Gorda

Milena Paulina não se enxergava porque também não se via. A falta de representatividade nas capas de revistas, novelas, nos comerciais só a afastava mais do reconhecimento que precisava. E essa questão foi justamente seu ponto de partida para a criação do “Eu, Gorda”, ainda em 2016, em São Paulo.

“O que mais me impulsionou, foi a busca por uma representatividade. Essa palavra é falada às vezes em alguns movimentos, mas a maior parte das pessoas não conhecem a real diferença que ela faz na vida das pessoas. Você se sentir representada – de uma forma humana e com muito amor, é claro – te faz se sentir, mesmo que o resto das pessoas tentem provar o contrário. Eu, que sempre vi a fotografia como a arte mais fiel para contar a história de alguém, não achava pessoas que contassem histórias de mulheres semelhantes a mim, e quando achava, era uma foto entre 500, de mulheres totalmente dentro dos padrões aceitáveis, como se a mulher gorda fosse uma cota. A primeira vez que vi uma modelo gorda, a Jacqueline Jordão, em um ensaio nu, com sentimento e humanizando aquele corpo, minha cabeça explodiu. Era aquilo que minha alma precisava.”

Milena explica também que o objetivo é basicamente contribuir a representatividade que ela e tantas outras mulheres buscam. E dessa forma o projeto mostra com beleza e delicadeza o quanto o corpo gordo também é humano, bonito e o quanto pode brilhar.

Milena Paulina pelo olhar de Gean Dittman

Os ensaios fotográficos “Eu, Gorda”

Estar diante da lente de um profissional de fotografia nem sempre é algo simples para quem nunca esteve antes em um ensaio. Milena Paulina realiza o projeto de forma coletiva. Ou seja, reúne em uma sessão

Antes de cada ensaio, Milena Paulina propõe uma conversa com o grupo – normalmente de seis mulheres. Seu olhar conduz cada uma das fotografadas a enxergar-se novos ângulos. A aceitação do corpo gordo é uma das premissas do projeto.

“Começamos o dia cedo, nos reunimos para uma roda de conversa onde todas terão voz e vez. Eu, que nunca tive uma amiga gorda, sei o quanto me fez falta conversar com alguém e me sentir compreendida e acolhida, então nesse dia eu quero que todas tenhamos isso.”

É no final da conversa – que contribui para a conexão necessária entre artista e modelo – que começam os ensaios realizados de modo individual.

Coletivo Paranapiacaba, em São Paulo, pelo olhar de Milena Paulina

“Conhecemos e partilhamos sentimentos umas com as outras, que não partilhamos com mais ninguém. Eu faço parte de um momento muitas vezes decisivo na vida dessas mulheres, é uma responsabilidade que eu vejo sendo tratada como nada por muitas pessoas que se dizem fotógrafos empoderadores. O que eu crio ali com aquelas mulheres, pode levantar ou afundar todos os sentimentos que ela possui. Eu venero a vida de cada mulher que posa paras minhas lentes, e devo tudo a elas. Eu sempre falo que estou ali para elas. Que quando eu estou fotografando não há mais nada no mundo que eu ame mais além delas, que não há nada mais no mundo que eu vejo além delas. E isso é real. Quando se fotografa, você ama com os olhos, seu corpo vibra pela pessoa que você está vendo atrás das lentes. Eu falo para elas que eu sinto vontade de parar de fotografar e só abraçar e falar que tudo vai ficar bem.”

Milena conta que todas chegam apreensivas, algumas mais e outras menos. A luta é contra o fato de ouvirem constantemente que devem se cobrir e se esconder. Mas, a experiência transforma o olhar de cada uma das participantes do projeto.

Tamires Menezes pelo olhar de Milena Paulina

“Já ouvi como toda a experiência, mudou o jeito como ela sentia a existência do próprio corpo, de como o toque na pele muda, de como você se sente como um ser vivo. Eu recebo mensagens diárias de mulheres falando o quanto as minhas fotos inspiram elas a se amarem mais, e se verem de uma maneira completamente diferente, a se permitirem ter sentimentos bons por si mesmas. Eu aprendi assim, que dá sim para gente correr atrás da representatividade que buscamos e fazer a diferença.”

Para criar um ambiente seguro, Milena vai além despindo-se de medos, julgamentos, preconceitos, roupas, mostrando assim com naturalidade sua alma e seus conceitos. “Eu dou tudo de mim para mostrar a elas que somos iguais. Eu sempre procuro tratar todas as mulheres (e homens, casais, etc.) da mesma forma que eu gostaria de ser tratada. Acredito que esse pensamento, mesmo que óbvio, é o que falta em muitas relações. Se eu procuro conhecer a alma das pessoas, então eu preciso mostrar a minha alma. Se eu procuro trabalhar com a nudez de maneira normal, humana e sem tabus, então eu preciso mostrar a minha nudez normal, humana e sem tabus.

Milena afirma não contar, mais estima que mais de cem mulheres tenham sido fotografadas por seu olhar. Durante um ano, o projeto aconteceu exclusivamente em São Paulo. Mas, em 2018, o “Eu, Gorda?” ganhou a estrada. E agora acontece também em outras capitais brasileiras. Recentemente, o projeto passou a abraçar o corpo gordo masculino também. Até então, Milena se dedicada a fotografar mulheres.

Gean Dittmam pelo olhar de Milena Paulina

Gordofobia e aprendizado

“Uma das moças me contou sobre a relação difícil que ela teve e tem com sua mãe. Um dia, enquanto ela ainda era adolescente, a mãe entrou no quarto dela e começou a rasgar todas as suas roupas, gritando ‘nada te serve, você é uma gorda ridícula, eu não pedi pra ter uma filha como você’.”

Milena Paulina conta que histórias como essas, de relações abusivas entre familiares, são as que mais escuta entre as mulheres que participam do “Eu, Gorda”. Segundo a artista, o preconceito e a violência, quase sempre começam dentro das próprias casas, vindo das pessoas amadas e talvez essa seja a parte mais difícil de se enfrentar.

“Quando recebemos esse tipo de violência dentro da nossa própria casa, não fica só o sentimento de que deveríamos emagrecer, fica principalmente o de que não somos merecedores de amor, e que esse tipo de atitude é culpa nossa. Pode ser difícil de se pensar, mas é aquela coisa de: nós só oferecemos o que temos. Muito provavelmente, uma pessoa que reproduz ódio, só conheceu ódio. E muitas das mulheres das nossas famílias não vão conhecer outra coisa a não ser essa realidade, a do ódio ao corpo, a do machismo, a de ter sido ensinada a vida inteira de que não deveria questionar, que deveria apenas aceitar e abaixar a cabeça.”

O trabalho de Milena é um grito, um chamado, um alerta para a importância da luta – direta e indireta – por aceitação, respeito e representatividade. “Nós precisamos tanto falar sobre como a representatividade muda tudo isso. O quanto essa mensagem de que merecemos sim receber amor, respeito e dignidade precisa ser levada para todas as pessoas. Essa é o meu maior aprendizado com esse projeto: a mensagem precisa ser passada para frente.”

Quem é você nesta sociedade gordofóbica?

Para Milena Paulina a mudança que combate a gordofobia ainda é extremamente pequena e isolada e o preconceito segue cravado nas pessoas, contra o corpo gordo. “Ser gordo ainda é considerado por muitos, algo pior que a morte. Ainda vemos diariamente exemplos – muitas vezes vindo com máscara de piada ou de cuidado com a saúde – de que você pode ser o que quiser, menos gordo, pois ninguém gosta de quem é gordo. Em todos os lugares presenciamos a gordofobia. O dia de uma pessoa gorda, é rodeado de gordofobia”, afirma.

A artista dá um exemplo que reflete o dia a dia da pessoa gorda. “Podemos pensar em um processo que para uma pessoa magra seria comum: ir ao médico. Você se veste em casa, sai e pega o transporte público, chega ao médico e é atendido, suas dúvidas são sanadas, você saí e volta para casa de transporte público, fim. Se você for uma pessoa gorda, querendo fazer esse processo, antes de sair de casa, você já vai ter toda a carga que foi a dificuldade em achar roupa que te sirva; ao sair de casa, você terá toda a dificuldade de pegar o transporte público como um cidadão comum, pois mesmo tendo aqueles bancos preferências, ao mesmo tempo temos catracas cada vez menores e mais apertadas, nisso vemos que o transporte público não é inclusivo; ao chegar no médico, antes mesmo que você fale que está apenas com uma tosse, o médico sem olhar na sua cara, já te encaminhou para a fila da bariátrica. E mesmo que você quiser fazer um processo tão violento quanto uma bariátrica, é provável que os médicos não te tratem como uma pessoa, ou que não tenham macas que te suportem.  As pessoas gordas pagam os mesmos impostos, as mesmas taxas, os mesmos juros, e ainda assim, os locais não estão interessados em ouvir o que temos para falar.”

E Milena questiona: Como sociedade não deveríamos ouvir a voz principalmente das pessoas que precisam de acessibilidade, ao invés de exclui-las totalmente?

“E somos tratados o tempo inteiro como se errados estivéssemos nós, e não a sociedade que exclui diversos tipos de pessoas. Como profissional, nunca vivenciei nenhum tipo de preconceito, mas recebo mensagens e comentários de mensagem de ódio as vezes, mas nada que qualquer pessoa gorda não tenha ouvido na rua ou até mesmo dentro da sua própria casa”, comenta.

A contribuição da artista

O projeto fotográfico “Eu, Gorda”, que acolhe pessoas gordas interessadas em participar, é muito mais do que contar histórias. O trabalho de Milena Paulina é uma oportunidade para que a sociedade enxergue todo corpo como deve ser visto: com respeito e dignidade.

“Nós, por conta de toda nossa história, causos, traumas, vivências e pensamentos, já temos uma bagagem feita quando paramos para nos observar, nos ver em frente a um espelho ou até mesmo numa selfie. Nós não enxergamos apenas uma imagem refletida, nós nos lembramos de todas as palavras duras e difíceis, de todas as vezes que nos fizeram acreditar que não somos suficientes ou boas o bastante, tudo isso carrega o nosso olhar.  É difícil quando alguém tira uma foto nossa com carinho e amor, com um olhar puro, que o primeiro passo que tenhamos em automático, não seja sair caçando todos os defeitos que acreditamos que temos. Quando alguém nos mostra realmente como somos, e nos fala que merecemos sim nos enxergar da mesma forma, e não só isso, mas também sentir amados por nós mesmos, é um choque quando passamos tanto tempo sendo ensinados do contrário. Eu acredito muito que a construção da auto estima, muitas vezes é feita em cima de uma lavagem cerebral, e poucas vezes de maneira positiva. Então entender isso e ter paciência também é chave de tudo. Talvez esse seja um pedaço do caminho, nessa caminhada longa, mas tão importante de construção pessoal, que nós passemos por esse processo de auto permissão, de conhecimento não só por dentro, mas por fora”, finaliza.

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