A gordofobia, a adolescência e a moda Plus Size — Moda Sem Crise
16 • junho • 2017

A gordofobia, a adolescência e a moda Plus Size


MODA/COMPORTAMENTO – Você é uma pessoa gordofóbica? O termo gordofobia é relativamente novo – e sequer está incorporado aos dicionários brasileiros, nem mesmo nas versões online. Mas, na prática, não é de hoje que a população do Brasil conhece – e muito bem, seja sofrendo ou manifestando – a definição e significado da palavra gordofobia, que velada ou não, remete ao ódio. A pergunta é, portanto, um convite à reflexão.

Militante feminista e ativista do movimento negro, Júlia Rocha Paulino, aos 17 anos, encontrou justamente na palavra – em sua forma mais ampla – uma maneira de definir e significar a si mesma para lutar contra o preconceito que por anos a feriu e a fez odiar o próprio corpo por causa de seu peso e sua cor. “A poesia surgiu devido ao desejo de amar meu corpo. Desde meus nove anos tento atingir esse padrão imposto. Não queria viver mais em função disso. E hoje vejo o quanto é simplesmente incrível resistir, por meio da poesia, com alma, sabe?.”

No sábado (10/06), Júlia  deu um poderoso passo a caminho dessa jornada chamada amor próprio. Convidada para se apresentar no palco de atrações da 17ª edição do Pop Plus – feira de moda e cultura plus size -, recitou uma poesia que preparou porque queria levar sua verdade – a gordofobia – ao Slam Resistência – um movimento que toda primeira segunda-feira do mês reúne pessoas no escadão da Praça Roosevelt com a Rua Augusta (SP), para uma competição de poesias faladas, apresentadas sempre sem qualquer cerimônia, utilização de objetos cênicos ou instrumentos musicais.

A jovem Júlia Rocha Paulino durante apresentação no Pop Plus - Foto: Robson Leandro/Equipe Pop Plus

A jovem Júlia Rocha Paulino durante apresentação no Pop Plus – Foto: Robson Leandro/Equipe Pop Plus

Admiradora da poesia marginal, Júlia – que há dois meses faz parte da equipe de produção de conteúdo do Moda Sem Crise – reconhece a importância da arte de rimar e sua contribuição para a construção da autoestima da mulher gorda. O manifesto, que pode ser visto no vídeo abaixo, e que lhe deu a grata sensação de “borboletas na barriga e na cabeça, nervosismo, ansiedade, expectativa e honra de fazer parte de um evento que proporciona tanta visibilidade para as pessoas gordas”, como ela mesma colocou, foi emocionante para a adolescente e também para seus pais Wesley e Rita e sua irmã Marília, que orgulhosos vibraram com a apresentação.

O momento abre espaço para a concepção de novos textos que serão usados sim contra o preconceito. “Ainda quero fazer outros poemas que possam desconstruir essa imagem que a sociedade tem da mulher gorda, quer dizer, as mulheres são esteriotipadas o tempo todo. E tudo isso fica ainda mais intenso quando a mulher é gorda. As pessoas nos acham repulsivas, preguiçosas, julgam que não somos saudáveis, quando na verdade, grande parte desse achismo é devido a esta construção de feminilidade em torno da mulher”, diz Julia que ao ser questionada sobre alguma situação pela qual passou e que agora estimula sua luta, explica o quão difícil é nomear uma só vivência.

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Em uma sociedade com tantos preconceitos enraizados, a gordofobia sempre existiu o ódio ao próprio corpo se disseminou. “Me lembro que na faculdade [do curso de psicologia] tinha uma professora que dizia ‘não gosto de gordo, não gosto de atender gordo, se um deles chega ao meu consultório, não atendo’. Ela dizia não acreditar que uma pessoa gorda fosse feliz. Ela então dizia que as pessoas apareciam com relatos sobre não se incomodarem com a gordura e ela não acreditava. Isso é uma verdade, principalmente, no contexto social que a gente vive, culturalmente somos estimulados ao contrário”, diz a psicóloga e consultora de imagem, Mariana Iannuzzi.

Colocar esse assunto em debate é uma emergência. Em uma publicação do blog “Feminiciantes – O que você não acha no dicionário”, Nathália Lausch afirma que o debate sobre gordofobia é escasso – e que quando existe, é permeado de preconceitos e lugares comuns. “É comum ouvirmos que pessoas gordas não são saudáveis […]. Pessoas gordas e, principalmente, mulheres gordas sofrem enorme pressão para se adequarem a um padrão de magreza que é, por muitas vezes, inalcançável”, diz Nathália que explica ainda que o que torna a gordofobia uma opressão estrutural é o fato das pessoas gordas serem inferiorizadas por nada mais, nada menos que seu peso. “A partir do momento em que a sociedade te lê como uma pessoa gorda, seja ‘gordinha’ (eufemismo extremamente ofensivo, por sinal) ou ‘obesa’, você passa a sofrer gordofobia […] o preconceito contra as pessoas gordas já chegou a níveis alarmantes. Precisamos tratá-lo com a gravidade merecida”, diz a blogueira após relatar a agressão física sofrida por uma amiga pelo simples fato de ser uma mulher gorda. “Você pode achar que não tem responsabilidade, mas sim, tem. A solidão das mulheres gordas, que as coloca em depressão e tentativa de suicídio, está em suas mãos também. Está nas mãos de quem se nega a desconstruir a gordofobia interna por simples capricho; está nas mãos de quem vê uma pessoa gorda sendo humilhada e assiste, como se fosse um teatro; está nas mãos de quem pratica violências simbólicas contra pessoas gordas; está, enfim, nas mãos de quem se recusa a refletir sobre seus privilégios magros e sobre a gordofobia estrutural”, conclui.

Pop Plus prepara edição para engajar público juvenil

A primeira versão do bazar de moda e cultura Pop Plus dedicada exclusivamente para o público Juvenil Plus acontece em julho. De acordo com a idealizado do projeto, Flávia Durante engajar os jovens na causa contra a gordofobia é o próximo passo do evento que neste mês chegou a sua 17ª edição, reuniu 49 expositores e como de costume abriu o palco para diferentes expressões artísticas.

Pop Plus fortalece o segmento Plus e coloca em debate o preconceito - Destaque para a participação das bailarinas de dança do ventre Silvia Akef e Kelly Goeten - Foto: Robson Leandro/Equipe Pop Plus

Pop Plus fortalece o segmento Plus e coloca em debate o preconceito – Destaque para a participação das bailarinas de dança do ventre Silvia Akef e Kelly Goeten – Foto: Robson Leandro/Equipe Pop Plus

“Os adolescentes estão se engajando cada vez mais em suas causas e este é um lado bem bacana da internet. O Pop Plus sempre esteve à disposição desse movimento que envolve mulheres e homens gordos para que revelem seus talentos, não só na moda, mas na arte. E nas férias de julho haverá a versão do Pop Plus para adolescentes justamente para levantar esse debate entre o público mais jovem. Os adolescentes são mais encanados com seus corpos, com a identidade e a representatividade”, comentou Flávia que tem planos para uma edição especial juvenil reunindo além do mercado fashion, brechó, oficina de DJs e guitarra e uma série de atividades para desenvolver a autoestima e o empoderamento do adolescente gordo, como, por exemplo, roda de conversa.

O Pop Plus surgiu em 2012. Época em que Flávia Durante, jornalista e DJ, reuniu nove marcas para a primeira edição do bazar, que tinha um caráter mais alternativo. Com o amadurecimento, um mix de estilos, estampas modelagens e possibilidades fez do evento o que é hoje. Peças que atendem do tamanho 46 ao 60, produzidas com design para os públicos feminino, masculino e agora para adolescentes. Além do palco de atrações, espaço para apresentações como a de Júlia, nesta edição teve dança do ventre e yoga. Flávia busca sempre por novidades capazes não só de movimentar e gerar negócios para o setor, mas também provocar para revolucionar e fazer transgredir a gordofobia – que não é mimimi.

A data da realização da versão para adolescentes do Pop Plus ainda não foi divulgada. A 18º Pop Plus aconteceu nos dias 9 e 10 de setembro, no Club Homs, na Avenida Paulista (SP). E em dezembro, acontece dias 9 e 10.

Moda Plus como fator de resistência e resiliência

A indústria da moda tem total parcela de culpa quando o assunto é gordofobia. Roupas com numerações que não atendem a todos os tipos de corpos, a exaltação do corpo magro, e existe até mesmo quem se negam a vestir o corpo gordo para não aliar à marca, só para citar alguns exemplos. Mas há também um movimento contrário. São muitos os desafios e avanços necessários para uma batalha sem dia e hora certa para terminar. Mas, mesmo em tempos de crise, o mercado de moda plus size brasileiro segue a todo vapor em busca da consolidação.

De acordo com dados da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), o segmento cresce 6% ao ano e movimenta cerca de R$ 5 bilhões. E a expectativa é que o setor cresça 10% por ano. O vestuário que carrega consigo conceitos de design e informação de moda e está disponível para quem usa manequim tamanho grande ainda é recente, mas tem muito potencial. E há demanda também. Dados do Ministério da Saúde apontam que 52,5% da população brasileira está acima do peso considerado o ideal para a saúde.

Já no que diz respeito ao segmento juvenil, informações de um estudo conduzido entre 2013 e 2014 com financiamento do Ministério da Saúde, apontou que 8,4% da população entre 12 e 17 anos, de um total de 85 mil adolescentes de escolas públicas e privadas de 124 municípios do país, avaliados na ocasião, estão obesos. Somando-se à fatia de 17,1% dos adolescentes com sobrepeso (cálculo baseado no Índice de Massa Corporal – IMC), o estudo aponta que 25% dos jovens brasileiros nesta faixa etária pesam mais do que o recomendado.

Estilista do segmento Plus Size, Raquel Quinderé da Wee Fashion Curves, marca do Grupo Malwee, afirma que vê poucas marcas apostando no segmento Juvenil Plus. Para Raquel, tão importante quanto a roupa é a construção e o conceito social por trás de peças que atendem ao corpo gordo de jovens e adultos que precisam diariamente romper barreiras e vencer a gordofobia. “As marcas ainda se preocupam muito em proporcionar roupas que cubram o corpo, sejam escuras e sem graça, mas ao mesmo tempo as poucas marcas que ousam conseguem se destacar no meio, ou seja, existe uma demanda. De qualquer forma, mesmo sabendo empiricamente sobre este público, ninguém de fato parou para prestar atenção nele. Não existe uma pesquisa sobre as necessidades, quais os tamanhos mais procurados, se seguem tendências e quais. Enfim, precisamos melhorar a discussão a respeito não somente com relação a roupa, mas também sobre a inserção social por meio dela”, afirma Raquel que está certa. Olhar para o indivíduo que compra a moda Plus Size requer cuidados que vão além da importância do crescimento e das oportunidades de um nicho que cresce, sem adotar um olhar mais humano para o ser humano que as vestem.

quinderé

A estilista vê com otimismo os rumos que tem tomado o segmento Plus. “Eu acredito que iremos nos equiparar a moda em tamanhos menores com relação a informação de moda e diferenciação de modelos em categorias de produto como acessórios, moda intima e moda praia, festa. Teremos cada vez mais opções. Outra evolução é com relação a segmentação das marcas, elas entenderão que precisam ter foco e boas estratégias de comunicação para conseguirem vender seus produtos. Enfim, acho que estamos nos encaminhando para uma profissionalização do mercado”, conclui.

Aceitação é a grande questão

Criadora da Estiloterapia, a psicóloga, coach e consultora de imagem, Mariana Iannuzzi explica que na fase da adolescência, momento em que transformações fisiológicas e biológicas estão à flor da pele, uma questão que tira o sono é a própria aceitação por meio do olhar do outro, que leva ao pertencimento. “Por que a gente busca tanto essa aceitação por meio do olhar do outro? Porque é assim que somos educados. É coisa cultural e a gente continua reforçando na educação que a gente precisa atender primeiro ao outro. E isso começa desde os bebês e pode ser bastante reforçado pelos pais na fase do desenvolvimento que vai até os sete anos. Se a criança não faz o que os pais querem, ficam de castigo, os pais punem e elas aprendem que esse é o mecanismo da vida: fazer o que as outras pessoas consideram relevante, o que as agrada, porque não queremos machucar o outro.”

Para a pessoa gorda ser aceita, ser validada se torna uma questão potencializada. E os efeitos são bem negativos. Mariana cita reclusão, rebeldia, distúrbios alimentar e social. “A sensação de não capacidade pode levar à depressão, as consequências são várias. E acho que tem a questão da saúde que em muitos momentos não é levada em consideração. A pessoa em alguns momentos sofre com a obesidade e tem que lidar com problemas de saúde. É um ponto importante e que acontece com quem também é anoréxica. Então se a gente fala de saúde, tem que desconstruir esse padrão que é colocado pra gente de que ter o corpo magro é sinal de saúde”, explica.

“Amar a si mesmo é o começo de um romance para toda a vida”, já dizia o poeta irlandês Oscar Wilde (1854-1900) que fez muito bem o uso das palavras dessa citação. Mariana Iannuzzi nos dá algumas dicas importantes para o exercício dessa verdade.

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*Foto do destaque no carrossel: Júlia Rocha Paulino durante apresentação no Pop Plus por Robson Leandro

Confira galeria completa de fotos do primeiro dia do 17º Pop Plus: 10/06/2017 – Fotos aqui

Confira galeria completa de fotos do segundo dia do 17º Pop Plus: 11/06/2017 – Fotos aqui 

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