17 • novembro • 2016

PIM: Estilistas inventam moda para fortalecer a identidade e a beleza nas periferias


MODA – O sociólogo francês Gilles Lipovestsky ao longo de sua carreira destaca que a moda é um dos espaços sociais em que os indivíduos conseguem exercer sua liberdade e sua maneira crítica de enxergar o mundo. Ontem aconteceu em São Paulo a primeira noite da 5ª edição do evento Periferia Inventando Moda (V PIM), na sede da Ação Educativa, no Centro. E o que se viu e ouviu foi criadores usando não só a moda, mas também a música, outro importante instrumento na construção de identidade, para falar das dores e das delícias de ser quem se é e da realidade vivida nas comunidades carentes de SP.

Fundado em abril de 2014, pelo estilista Alex Santos e pelo psicólogo e produtor cultural Nil Mariano, o projeto PIM é um movimento fashion alternativo que nasceu em Paraisópolis, zona sul da Capital paulista, com o propósito de promover transformação e fortalecer a identidade de moda e beleza na periferia. Disposto a revelar talentos do universo fashion, no intervalo entre um desfile e outro das cinco coleções, rolavam apresentações de MC’s do funk – o famoso pancadão.

A primeira a entrar na passarela foi a marca  KSulysman, da estilista Kelly Sulysman. Com produções masculinas e femininas, ela que mistura conceitos das suas duas formações, como design de moda e modelagem, mostrou uma de suas grandes paixões na passarela: a arte. “Minha inspiração está nas cores primárias, gosto muito de arte, estudo arte e queria ver a presença das cores e mostrar o quanto isso vai do interno para o externo. Quero ver as cores fluindo no vestuário e mostrar que todo mundo tem uma lama meio artista”, comentou. Em sua marca, Kelly sempre dá ênfase à experiência prazerosa de vestir e ver sua coleção na passarela do PIM pela segunda vez significou muito. “Gosto muito disso, conheço pessoas novas e a gente sabe o quanto é difícil e aqui [no PIM] temos esse reconhecimento”, concluiu.

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Look criado por Kelly Sulysman para a marca Sulysman – Projeto PIM/Foto Túlio Vidal

Depois foi a vez do casal de estilistas Samela Araujo e Caio Nunes desfilar a coleção da Simplesmente, marca que foi oficialmente lançada durante a noite de ontem e que mostrou uma coleção para o público jovem cheio de atitude no estilo street urban e embalada pelas cores: preto, branco e prateado. Enquanto ela assina a produção feminina, quem desenvolve o masculino é Caio seu namorado.

A estilista de apenas 19 anos mostrou não só na passarela, mas enquanto conversávamos no backstage, o quanto é articulada e engajada na moda. Nascida na Bahia, Samela em São Paulo decidiu se desvencilhar das raízes de sua terra natal para trabalhar o simples. “Eu queria mostrar que o simples também é bonito. E em nossa coleção a gente quer abordar diversos temas, o direito de ir e o direito de agir, o direito de sonhar, o direito de vestir, é por isso que a coleção se chama ‘Artigo 5º’, porque ninguém é obrigado a nada, somos livres”, disse ela que também imprime na sua marca a palavra “tombei”, associada a geração do tombamento que usa esse adjetivo para o empoderamento negro. Enquanto a estilista falava palavras de manifesto, os modelos encaravam a plateia.

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Look criado por Samela Araujo para a marca Simplesmente fotografado pouco antes dos desfiles – Projeto PIM/Foto Túlio Vidal

O interesse pela moda surgiu quando Samela ainda era uma menina e vivia em Salvador. Cidade onde seus pais Lucy e Euclides Araujo se conheceram. “Meu pai foi instrutor de passarela. E conheceu minha mãe assim. Um dia vasculhando as coisas dele, encontrei suas apostas, já com as páginas amarelas. Perguntei o que era aquilo e ele disse que com elas eu aprenderia sobre moda. Eu tinha uns oito anos de idade e foi amor à primeira vista”, disse. A princípio o desejo da estilista era se tornar modelo e desfilar, mas com o tempo, e ao tocar um projeto chamado Comunidade SB, em que ensina outros adolescentes sobre a moda e autoestima, percebeu que tinha mesmo era afinidade para incentivar e desenhar.

Samela fundou também a quarta marca a desfilar, a Stilo Black. “Sou a fundadora da marca que hoje é dos meus pais. É uma marca com muita influência e identidade de Salvador, então quis sair para desenvolver esse novo projeto onde trabalho o simples.” Lucy foi quem contou mais sobre a coleção que levou ontem a noite para a passarela. “Trouxe ousadia e elegância. É uma coleção que reverencia a origem. Sou mais clássica, gosto da elegância no estilo. Já a Samela é mais despojada, mais afronte”, disse a estilista que vive em São Paulo com a família em São Mateus, zona leste, há seis anos. Sua coleção mostrou personalidade.

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Look da marca StiloBlack de Lucy e Euclides Araujo – Projeto PIM/Foto Túlio Vidal

Quem também cruzou a passarela foi a marca Couto Store, de Matheus Couto, conhecido como “Menino Couto”. Intitulada “Sensações, Vibrações e Movimento”, a coleção de Couto foi a terceira a ser apresentada. A identificação do estilista com a moda, assim como Samela e Kelly, também é coisa antiga. A busca por peças que o representasse foi o ponto de partida. “Tive vontade de fazer moda no momento que comecei a entender a moda, querendo ou não a roupa diz muito sobre quem a veste, e eu não me identificava com o que encontrava em lojas grandes ou pequenas”, comentou.

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Modelos da coleção do Menino Couto que tem a estamparia como marca registrada – Projeto PIM/Foto Túlio Vidal

Sua paixão por cores e estampas sempre dão o tom em suas coleções e esse amor estava ‘estampado’ em toda a sua criação ontem em peças femininas e masculinas que em alguns momentos formavam pares. “Gosto de cores vivas, fortes, vibrantes, com figuras geométricas, de bichos, étnicas”, disse o veterano que desfilou no evento pela sexta vez. “O PIM valoriza muito o estilista da periferia, estilistas com talento, mas que não teriam chance de entrar em eventos como SPFW e Casa de Criadores. Alguns aqui seu que inclusive já tentaram entrar, mas não rolou. E o PIM tem muito para crescer”, completou.

Para encerrar a primeira noite, a estilista Cyntia Mariah da marca homônima revelou o poder da mulher negra em um desfile performático. Usando as cores dourado e preto, as modelos interpretaram mulheres fortes e seguras, ao som de Elza de Soares, “A Carne”. “A carne mais barata do mercado é a da negra. No mercado de trabalho não temos valor, na sociedade não temos valor. Com essa coleção quero mostrar que temos valor sim e somos todos brilho e poder”, completou.

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O desfile performático e poderoso de Cyntia Mariah – Projeto PIM/Foto Túlio Vidal

Ainda que longe do glamour dos grandes desfiles das semanas de moda que ocorrem em grandes capitais mundo afora, o Periferia Inventando Moda é uma inspiradora iniciativa que merece apoio. Recentemente vimos movimentos, como o que esses jovens estilistas pobres fazem, ganhando espaço nas passarelas de eventos como a São Paulo Fashion Week e Casa de Criadores. O manifesto sobre o negro e o empoderamento de quem mora nas quebradas está também no discurso de marcas como Laboratório Fantasma, do rapper Emicida, que esteve na 40ª edição da SPFW, assim como no poderoso trabalho de Isaac Silva que valoriza a mulher e a faz forte e lacradora, bem como na obra do artista Victor Apolinário da Cemfreio, ambos apresentados semana passada na Casa de Criadores.

Hoje acontece a segunda e última noite do V PIM. Desfilam as marcas Afrodam, Abayomi, África do Coração, Peah P. Clothing, Malokero, Mete a Marra e Alex Santos. O evento está acontecendo na sede da Ação Educativa, localizada na Rua General Jardim, 660, na Vila Buarque, região central. É aberto para o público e a entrada é gratuita. Portanto, é só chegar!!!

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5 Respostas para "PIM: Estilistas inventam moda para fortalecer a identidade e a beleza nas periferias"

Sâmela Emile - Simplesmente - 17, novembro 2016 às (17:44)

Eu simplesmente amei.
Amei participar e conhecer um alguém tão talentosa quanto você. ♡

Responder


Marcela Fonseca Marcela Fonseca - novembro 19th, 2016 em 11:06 am respondeu:

Oi, querida!!! Amei conhecê-la. O Moda felizmente tem nos conectado a pessoas incríveis e projetos maravilhosos. Só temos a agradecer o carinho e a confiança em nosso trabalho. Beijãoooo. E mais, vocês são simplesmente incríveis!!! <3

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lucy Araújo - 17, novembro 2016 às (20:47)

Muito obrigada pela belíssima entrevista muito talentosa cada um com seu dom e o seu é fantasticamente dominar as palavras fico grata e quem sabe até breve bjuusss

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Marcela Fonseca Marcela Fonseca - novembro 19th, 2016 em 11:09 am respondeu:

Obrigada, Lucy. Que lindo ver e conhecer uma família tão talentosa. Parabéns pela StiloBlack, parabéns pela Simplesmente. Sucessoooooooooooooooooooooooooooo!!! Beijão, minha querida!!! E até breve simmm!!! <3

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Simplesmente: Conheça a marca de desfilou na festa do Moda — Moda Sem Crise - 01, fevereiro 2017 às (15:26)

[…] PIM: ESTILISTAS INVENTAM MODA PARA FORTALECER A IDENTIDADE E A BELEZA NAS PERIFERIAS […]

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