23 • agosto • 2018

Produção, doação, troca e upcycling: Projeto envia vestidos para meninas carentes da África


Histórias inspiradoras servem de combustível para outras histórias inspiradoras. Por meio de uma reportagem exibida, no Fantástico, programa semanal da TV Globo, o Brasil conheceu Lilian Weber. Uma senhora que aos 99 anos, desejava costurar e enviar mil vestidos para crianças carentes da Etiópia, antes de completar os cem.

Lilian morreu dia 5 de maio de 2016, véspera de completar 101. Mas antes, sim, concluiu seu projeto com louvor. E sua história foi além. A senhorinha com cabelos brancos como algodão doce inspirou. Aqui no Brasil, mais precisamente em São Carlos, no interior Paulista, Natália de Cássia Berrocá enxergou uma oportunidade de contribuir.

E em janeiro de 2019, a profissional de Recursos Humanos que não mede esforços para dar conta do recado, envia a segunda remessa de vestidos para Guiné-Bissau. E completa a doação de mil vestidos, assim como sua musa inspiradora.

E assim surgiu o Projeto As Vestideiras

Hoje com 26 anos, Natália Berrocá conta que cresceu vendo sua avó paterna costurar e fazer consertos de roupas. Foi dessa relação que surgiu o seu interesse pela costura. Mas, a habilidade não chegou exatamente até a máquina, Natália lembra que sempre costurou de forma bastante simples, na mão. O mais interessante dessa história, é que o fato de não saber o ofício de sua avó, não serviu de barreira para criar o Projeto As Vestideiras – uma iniciativa que propõe a confecção de vestidos para serem doados para meninas carentes.

“A ideia do projeto surgiu no final de 2016 quando decidi fazer uma ação social na Amazônia, mas não tinha tempo hábil para produzir vestidos. Então, arrecadei 280 quilos de doações – roupas, chinelos, brinquedos, material escolar, material de higiene pessoal – e em fevereiro de 2017 entreguei nas comunidade Ribeirinhas, onde passei dez dias como voluntária. Em outubro de 2017, a ideia de costurar vestidos voltou, então resolvi colocá-la em prática. Preciso também dizer que minha inspiração foi Lilian Weber.”

>>> Natália Berrocá idealizadora do Projeto As Vestideiras acaba de somar mil vestidos arrecadados, destes 600 já foram doados. Outros 400 serão entregues em janeiro de 2019 – Foto: Divulgação

Uma mão lava a outra

Sem saber costurar, Natália Berrocá precisou pedir socorro para fazer acontecer o Projeto Vestideiras. E conseguiu com a ajuda de voluntárias de São Carlos, onde mora, e de outras cidades brasileiras, fazer o envio da primeira remessa de vestidos. Ao todo, foram 600 peças, 300 direcionadas para o Guiné-Bissau e outros 300 entregues em Angola – ambos países da África.

Sua mãe – dona Eunice Barbosa do Amaral Berrocá – é definitivamente seu braço direito. Enquanto a filha cumpre com suas atividades profissionais, é ela quem se ocupa com algumas demandas do projeto. “Minha mãe me ajudou no início e continua ajudando. Inicialmente fiz uma página no Facebook e no Instagram. E ganhei a logo do meu projeto. E assim comecei a chamar costureiras voluntárias e a pedir tecidos. Mas confesso que no começo não foi fácil, foi preciso muita persistência. Era muito difícil ganhar tecidos, então minha mãe teve a ideia de pedir vestidos novos e usados de um a 16 anos, além dos tecidos.”

>>> Projeto conta com o apoio de sua mãe, Eunice Berrocá que toca algumas demandas enquanto Natália trabalha – Foto: Arquivo Pessoal

Natália conta que aos poucos o projeto deu os primeiros passos. O trabalho ela explica que é totalmente voluntário. E como o Vestideiras não é ainda uma ONG enfrenta dificuldades para arrecadação. Mas, ainda assim tem cumprido com o plano. “Dependemos 100% das doações e voluntárias. Tem época que tenho dez costureiras, tem época que tenho oito, tem época que são 15 costureiras. Umas conseguem costurar mais do que outras. E assim vou adequando e vou seguindo em frente.”

Para dar o pontapé inicial, Natália conseguiu que fosse feito um molde – que agora passa inclusive por reajustes. “Eu não costuro. Não sei costurar. Mas pretendo aprender. Agora estou redesenhando os moldes. Pretendo fazer um modelo novo de vestido”, conta.

>>> A “vestideira” Neide Santos em ação cortando vestido para o projeto – Foto: Divulgação

A dinâmica de confecção das peças nem sempre segue um padrão. Como há costureiras de outras cidades paulistas envolvidas e até mesmo de outros estados brasileiros, nem sempre é possível fazer o envio do molde. E para garantir a produção, a prioridade é receber os vestidos. “Pra gente toda ajuda é muito bem-vinda, não importa o modelo do vestido. As pessoas podem dizer ‘Natalia não ficaria mais bonito se seguisse um padrão?’. Ficaria. Mas como esses vem de outras cidades, não tem problema que tenham modelos diferentes.”

Mas, até mesmo as voluntárias que trabalham com o molde indicado por Natalia os personaliza ao apostar num detalhe ou outro. “Cada costureira tem seu jeito. Enfeita. Colocam barrinhas diferentes. Outra gosta de misturar coisas. Então, não exijo nada. Quando as costureiras são de São Carlos, entrego o vestido cortado, mas cada uma dá o acabamento que desejar. Já as de outras cidades, utilizam o próprio material e depois de prontos, os enviam para mim.”

Vestideiras que aproveitam e reaproveitam tudo

Para atingir cada uma de suas metas – para o segundo envio em janeiro de 2019, Natália Berrocá espera enviar outra vez 600 vestidos – o plano é aproveitar e reaproveitar tudo. Tecidos e também roupas prontas são transformados em vestidos ou até mesmo trocados por eles em brechós.

“Conseguir tecido é algo muito difícil desde o início do projeto. Não é todo mundo que tem tempo para ir comprar um tecido ou o dinheiro para comprá-los. Então resolvi pedir vestidos novos e usados. Essa tem sido outra forma de arrecadar. Aceito retalhos que as vezes uso para fazer uma alça, um bolso, um detalhe. E a partir de um metro a gente consegue tirar um vestido do tamanho pequeno. Comecei pedir em fábricas de tecidos, mas é difícil o pessoal doar porque não somos uma ONG, mas as vezes acabam doando.”

Outra forma de driblar a dificuldade, segundo Natália é arrecadando camisetas que com ajustes viram vestidos ou trocando outras peças arrecadadas por vestidos em brechós parceiros da cidade. E a última ideia tem sido transformar camisas masculinas em vestidos. “Uma voluntária encontrou [um modelo de vestido produzido a partir da camisa masculina], testou e deu certo. Tento aproveitar tudo. E os retalhos que sobram dou para uma senhora, a dona Nadir, ela faz naninhas masculinas e femininas. E tem também uma senhora que faz bonecas que costurava a mão e agora que conseguimos uma máquina demos de presente pra ela.”

>>> Camisa masculina nas mãos de As Vestideiras vira vestido para meninas carentes – Foto: Divulgação

Além dos vestidos, Natália conta que tem arrecadado roupas para os meninos também. “Para eles arrecadamos shorts, camisetas e cuecas e serão feitas naninas masculinas também.”

Uma vida preocupada em ajudar o próximo

Não é de hoje que Natália Berrocá se dedica para ajudar alguém. Quando criança acompanhava os pais na realização de ações de projetos sociais – entrega de roupas e alimentos. “Tenho uma ligação muito forte com projetos sociais. Pra mim é algo muito importante. E As Vestideiras é uma forma de espalhar amor e levar amor para o mundo que está tão bagunçado.”

Aos nove anos, Natália conta que passou por um problema grave de saúde que comprometia seu coração. Ao ser internada, sua mãe se apoiou na fé em busca de cura. “Minha mãe pediu a Deus que se fosse da vontade dele me levasse naquele mesmo dia ou então que me curasse e que eu serviria ao próximo, que faria algo pelas pessoas. Isso marcou muito. Quando cresci que soube. Uns nasceram para servir e outros para serem servidos. Prefiro servir. Aprendi fazer o trabalho voluntário na igreja, embora meu projeto não tenha ligação nenhuma com a minha religião. Qualquer pessoa inclusive pode participar independentemente da religião, cor, raça, classe social. Quanto mais pessoas agregar melhor é e quanto mais pessoas a gente ajudar é melhor ainda.”

>>> Meninas vestidas pelo projeto em Guiné-Bissau – Foto: Divulgação

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>>> Menina atendida pelo projeto em Angola – Foto: Divulgação

O sonho de ir até a África

O Projeto Vestideiras arrecadou desde o início de suas atividades mil vestidos – 600 deles já foram enviados com a ajuda das ONGs Projeto Garotas Brilhantes – com atuação em Angola – e Projeto África Vollunteer Now – que se responsabilizou pela entrega em Guiné-Bissau.  Para a próxima entrega, Natália Berrocá volta a contar com o apoio da África Voluntieer Now que em janeiro embarca para Guiné-Bissau mais uma vez.

>>> Doação enviada para Guiné-Bissau. Plano agora é conseguir arrecadar doação para viajar com a equipe do Projeto África Voluntieer Now em janeiro de 2019 para entregar pessoalmente as doações do Projeto As Vestideiras – Foto: Divulgação

“Inicialmente a ideia que tive foi enviar os vestidos para a África. Mas meu intuito é que [o Projeto As Vestideiras] vá para o mundo todo. Inclusive para o Brasil. Pensei na África porque é um povo sofrido. Aqui também há muitas pessoas sofridas. Lá sofrem com abusos, uma questão que virou cultural, e quando fui informada dessa situação, isso me entristeceu e machucou profundamente.”

Sem verba para fazer as entregas, o sonho de Natália agora é conquistar seu embarque por meio de uma vaquinha em um site de financiamento coletivo. O objetivo é arrecadar R$ 10 mil. A campanha aberta em 18 de julho segue até 5 de dezembro. No entanto, até o fechamento desse conteúdo não soma nenhuma contribuição.

“Meu maior sonho é entregar esses vestidos na África. Gostaria de fazer a entrega em janeiro, mas tem um custo muito alto. Se conseguir ir em janeiro farei a entrega”, completa.

Para falar com a Natália envie e-mail para naty_berroca@hotmail.com




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