05 • setembro • 2018

Coletivo Trans Sol: Moda e autoestima para mulheres transexuais e travestis


É por meio do ensino de técnicas de bonecaria, costura e moda que o Coletivo Trans Sol trabalha para proporcionar a mulheres transexuais e travestis de São Paulo cidadania e dignidade. Criado em 2016, o projeto propõe também uma reflexão sobre o corpo feminino, o resgate da autoestima e a geração de renda. Com isso, o que se espera é desfazer o preconceito, bem como, diminuir o tempo das alunas nas ruas em trabalho informal e propenso à violência física e psicológica. O Moda Sem Crise conversou com Priscila Nunes. Fotógrafa e bonequeira, Priscila é uma das professoras do projeto que hoje conta com o apoio da Casa1 e que por falta de incentivo atende apenas quatro alunas – já tendo tido a chance de atender 30 pessoas.

Moda Sem Crise – Como surgiu a ideia de criar o Coletivo Trans Sol?

Priscila Nunes – O Coletivo Trans Sol, foi formado no final de 2016 por cinco voluntários para atender mulheres transexuais e travestis com o intuito de proporcionar uma reflexão sobre o corpo feminino, resgate de auto estima e geração de renda por meio dos cursos de bonecaria, costura e moda. O coletivo acredita que a metodologia de acolhimento e esforços para reinserção social conseguirá um diálogo com a sociedade e o mercado formal da moda, desenvolvendo peças que discutam as imposições sociais da vestimenta, o consumo consciente e o corpo como painel da expressão do indivíduo. Desfazendo preconceitos e trazendo dignidade e cidadania, gradativamente diminui-se o tempo das alunas nas ruas, em trabalho informal e propenso à violência física e psicológica. Valorizamos o ser humano e sua história de vida, trabalhamos com inclusão social e o entendimento da sociedade para diminuir o preconceito.

As bonecas Frida Kahlo e Dandara – Foto: Reprodução

MSC –  Como o Coletivo deu início aos trabalhos e como aconteceu o direcionamento do projeto?

PS – No início pensamos em trabalhar com moradoras [em situação] de rua, pois a Mavica(que teve a ideia) descobriu que nesse núcleo, as travestis também eram rejeitadas, queríamos ensinar o que sabíamos em troca de ouvir suas histórias e fazer um relato fotográfico. Nós somos ativistas em prol dos LGBTS faz alguns anos e sentíamos falta de trabalhar direto com o nosso público e dentro dele, sentimos a população T sendo a mais vulnerável. Nós não tínhamos os meios , então demorou uns dois anos até que o projeto saísse do papel. Acabamos entrando num projeto da Unisol [Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários] como voluntárias. Eles fizeram a ponte entre a Secretaria do Trabalho e o Transcidadania. Daí também tivemos que nos adaptar ao que as alunas traziam. Elas queriam aprender a costurar e nós não somos costureiras, chamei um amigo também ativista e que é professor de costura Otávio Matias. E ele chamou o estilista Renato Raga. E começamos dentro da Incubadora Pública de Economia Solidária. O espaço que nos foi cedido era incrível. O público era outro, em sua maioria acima da idade de perspectiva de vida para uma travesti, especificamente com garotas de programa que sentiam necessidade de começar algo que lhes garantisse sustento quando não pudessem mais trabalhar na noite. Nós queríamos ensinar mais que a costura, mas um entendimento sobre moda e comunicação com o público e a sociedade.

Costurando cidadania – Foto: Reprodução

MSC – Onde acontece o trabalho e como funciona o Coletivo?

PS – Atualmente, com o fim do projeto da Unisol, o Coletivo sente a resistência. Perdemos o espaço e a Casa1 que já conhecia nosso trabalho e que abriu espaço para nosso primeiro desfile foi quem nos acolheu, cedendo uma sala onde pudéssemos continuar o trabalho. Hoje ele é bem diferente, pois não conseguimos ainda o maquinário para dar aulas para várias pessoas. Podemos atender no máximo quatro alunas. O público também é diferente, algumas moradoras da casa, pessoas indicadas por ex-alunas e até moradoras [em situação] de rua que passam no paliativo e nos são encaminhadas. 

Hoje estamos fazendo aula de bonecaria e ela é voltada para a descoberta e construção do corpo, é um espaço onde elas podem conversar, se abrir e trabalhar a auto imagem. Dentro desse curso damos início às técnicas de costura.

Primeira boneca – Foto: Reprodução

MSC – Quem são as pessoas  as mulheres atendidas, como elas chegam até o Coletivo e o que procuram?

PS – Nós já chegamos a atender 30 pessoas num espaço maior em sua maioria garotas de programa. Eram mulheres mais velhas com uma bagagem de vida bastante dramática, pessoas que sofreram violência em sua maioria. Hoje, sem apoio nenhum, podemos atender quatro. É um público bem mais jovem, descobrindo a vida aqui e agora, com muitos questionamentos e desejos. Elas são moradoras da Casa1, moradoras de rua ou indicadas por ex-alunas. Algumas estão no colégio e algumas pararam porque conseguiram emprego, o que nos deixa feliz.

MSC – Sabemos o quanto nossa sociedade é preconceituosa. O Brasil então é um dos piores países para a comunidade LGBTS. Qual o objetivo do Coletivo em relação ao combate ao preconceito e violência?

PS – Esse é nosso ponto. Acreditamos que o maior preconceito vem daquilo que não conhecemos, daí somos ponte para que o produto do coletivo chegue aos clientes de forma que eles saibam quem produz aquela peça, da importância de quem fez. E vamos para as feiras e queremos que uma aluna esteja conosco, que ela possa falar sobre o seu trabalho. Queremos mostrar o lado humano de cada pessoa e sua capacidade enquanto cidadã e a melhor forma e colocá-la.

MSC – Qual o papel do Coletivo na qualificação e preparação para o mercado de trabalho? Existe essa preocupação?

PS – Existe essa preocupação dentro dos nossos limites, o que fazemos hoje é indicar alunas e ex-alunas para que façam seus currículos via Casa1, o que fazemos e tentar dar toda noção de como funciona um trabalho, como se portar, como exigir respeito.

Otávio Matias é um dos professores do Coletivo – Foto: Reprodução

MSC – Quem são as pessoas envolvidas na criação e como se mantém o coletivo atualmente?

PS – Atualmente somos em quatro, mas efetivamente, mais o Otávio Matias que é o professor de costura e eu, que dou aula de bonecaria. Nos mantemos vendendo as peças produzidas e com uma verba muito pequena que é cedida por uma patrocinadora cidadã muito amiga e colaboradora. Quando tínhamos mais alunas e o curso estava funcionando totalmente, nós pedíamos doação especialmente para o lanche, pois as meninas vinham da escola (via Trans Cidadania) passavam a tarde conosco e dali iam para o trabalho na rua.

Participação no Jardim Secreto – Foto: Reprodução

MSC – Vi que estiveram recentemente na Mega Artesanal (inclusive vi a foto com o professor Vagner Carvalheiro, um querido) e vi também registros no Jardim Secreto. Fale um pouco sobre a participação nesses eventos. Qual a importância e como foi?

PS – O Jardim Secreto veio por meio da Unisol. Dentro do projeto onde nasceu o Coletivo, hoje fazemos parte de um grupo residente de Economia Solidária, pagamos pelo espaço, porque acreditamos na visibilidade que nos dá e na maneira que temos que inserir as alunas na sociedade. A Mega Artesanal foi super presente do Vagner, ele nos convidou para falar sobre moda trans para um grupo de estudantes de moda e fomos muito bem recebidos por esses jovens que tinham perguntas sobre sexualidade, gênero, respeito, sobre como conversar com os pais e com a sociedade em que vivem. Vimos que eles estavam sedentos por informação e por poderem ajudar amigos e a si mesmos. Eles procuram com quem possam se abrir e conversar abertamente sobre esses assuntos. Foi muito gratificante pra nós.

Equipe do Coletivo com o professor Vagner Carvalheiro (o mais alto) na Mega Artesanal – Foto: Reprodução

MSC – Planos para o futuro, vocês pensam em ampliação no atendimento? O que pretendem a partir daqui e quais as expectativas?

PS – No momento estamos esperando a chegada do maquinário que nos foi doado via Fundo Social para podermos voltar com o curso de costura de forma pontual. Não ter um maquinário em perfeito estado causa bastante frustração nas alunas. Ex-alunas gostariam de voltar e participar do Coletivo, mas da maneira em que estamos, não temos como por nos faltar o básico que são os instrumentos de trabalho. Nós queremos muito um espaço maior onde possamos dar aulas e produzir para a nossa marca e para marcas que gostariam de fazer parcerias conosco. Essa seria uma forma de abrir frente de trabalho para ex alunas capacitadas. Outra proposta que temos, é de que aulas para pessoas cis sejam dadas por uma professora trans. Porque existe um público que gostaria de aprender, mas nós não podemos abrir esse espaço para eles sem que haja essa troca pessoal e social de conhecer e aprender a respeitar uma pessoa trans por sua capacidade de trabalho, sua personalidade e humanidade.

 

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