Jornalista Karla Maria reúne em livro as dores e as delícias de mulheres extraordinárias — Moda Sem Crise
27 • março • 2017

Jornalista Karla Maria reúne em livro as dores e as delícias de mulheres extraordinárias


ENTREVISTA – Pare por um instante e pense: quantas mulheres extraordinárias você conhece? É muito provável que conheça alguém. Até porque, no Brasil, país de cultura machista, onde as mulheres ainda lutam por respeito e equidade, ser mulher faz de nós seres extraordinárias. Neste mês de março, mês que marca a marcha e a luta de mulheres em diferentes partes do mundo, a jornalista paulistana, Karla Maria, 33 anos, leva às livrarias brasileiras o livro “Mulheres Extraordinárias”. A obra é resultado de cerca de 15 anos de apuração jornalística, período em que a jornalista percorreu o país em busca de histórias de mulheres marcadas por dramas sociais, raciais e morais. Com sensibilidade feminina, Karla narra o que ouviu de mulheres que confiaram à ela lágrimas e sorrisos, tombos e superações, denúncias de maus-tratos, preconceito e desespero. Além de desabafos de fé, luta e conquistas. O Moda Sem Crise conversou com Karla para entender como foi o processo de produção da obra e conhecer melhor a jornalista exemplar Karla, que assim como tantas mundo afora é uma Maria extraordinária.

MODA SEM CRISE – Karla como surgiu a ideia de reunir relatos em um livro? Qual foi a sua motivação?

KARLA MARIA – A ideia não surgiu de mim, embora eu seja apaixonada por livros escritos por colegas. O convite surgiu da própria editora Paulus, que descobri depois, já acompanhava meu trabalho. A ideia da editora era publicar algumas das minhas reportagens sobre mulheres e suas diferentes realidades. Então, fui atrás do que tinha e passei a escrever e apurar mais e mais temas sobre nós mulheres, e motivação não faltou, porque eu acho que falta muita realidade humana em nossos jornais, revistas e TVs.

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Jornalista, aos 33 anos, Karla Maria é a autora por trás do livro Mulheres Extraordinárias. Lançando recentemente pela Paulus Editora e prestes a ter concluída a segunda tiragem – Foto: Luciney Martins Queria lembrar que este livro é jornalismo na veia. Feito com amor, tesão e suor. Muito compromisso e ética. Fazer este tipo de jornalismo como eu fiz é tocar e expor a vida das pessoas e o fiz com cuidado e responsabilidade, com dedicação e seriedade.

MSC – “Mulheres Extraordinárias” é uma obra que reúne perfis, reportagens e histórias de mulheres e suas realidades. Como chegou a esses dramas? Como foi o processo de captação dessas histórias e quanto tempo levou desde o início do projeto até ser publicado?

KM – O processo de captação foi natural e a partir das redações que trabalhei e que por motivo de espaço e ou linha editorial não tinham interesse em publicar algumas das histórias. Algumas reportagens foram sim publicadas pelas empresas (jornais e revistas) que passei, mas não são todas. Do convite da editora feito em um café na Rua da Alegria, no centro de São Paulo, até a publicação foram cerca de quatro anos.

MSC – Em sua pesquisa, ficou cara a cara com mulheres que viveram grandes dramas. No segundo capítulo do livro, fala sobre a violência sofrida por essas mulheres com as quais também conversou, Beatriz, Gabriela, Sônia, Maria… Juci… Como foi passar por isso? E como foi romper em várias entrevistas a resistência dessas mulheres?

KM – Não foi fácil. Em muitos casos, quando eu sentia que elas não queriam mais falar no assunto ou que estavam sofrendo ao tocar nessas feridas, eu simplesmente respeitava o silêncio. Isso também é uma resposta. Uma resposta dura, mas que diz muito. Penso que tratar a fonte com carinho e respeito, ganhar a confiança dela é o primeiro passo para romper a resistência, mas como disse, às vezes o silêncio, a lágrima já me bastavam.

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Karla Maria ao entrevistar dona Joventina na cidade de Espumoso (RS) – Foto: Divulgação

MSC – Claro que todos os assuntos abordados são de arrepiar. Como foi lidar e conviver com todas essas histórias durante o tempo em que trabalhou no livro?

KM – Eu trabalhei e trabalho com estes temas desde sempre. Cálculo que há 15 anos, porque tive a oportunidade de passar por redações que me propiciavam ir além do hard news, entende? Quando retomei as entrevistas, as histórias e contatos para escrever o livro, eu sofri com elas – de novo – palavra por palavra, lágrima por lágrima, e tentei colocar isso no livro também. Tentei levar o leitor até as pautas comigo. Mas foi sim sofrido, porque somos repórteres sim, mas somos sobretudo humanos e não dá pra ficar indiferente diante de tantas situações como as que apresento neste livro.

MSC – Sempre pensamos que o Moda nos transforma em muitos aspectos. O que você diria sobre o livro a seu respeito, o quanto esse projeto mexeu com a mulher Karla, mais uma Maria extraordinária?

KM – Reunir essas mulheres me fez sim uma mulher melhor, mais humana, mas corajosa, com menos medo de errar. Elas me inspiram a ser mais forte e acreditar que posso ser aquilo que eu quiser, que devo nesta vida é fazer o bem de alguma maneira. Elas me inspiram muito. Penso que dar esse passo na minha vida é fortalecer também minha autoestima profissional, é dizer “pô vale a pena ser repórter sim”. Eu saí da escola pública, fui bolsista do Prouni, sempre no perrengue sabe, e publicar esse livro tem um sabor muito bom.

MSC – Qual sua expectativa em relação a todos esses relatos, essa obra? Acha que pode empoderar a outras mulheres? Como pretende continuar com o projeto? Palestras, estão no roteiro? É bastante cedo, mas outro livro pode estar a caminho?

KM – Empoderar sim e muito. Nos lançamentos que tenho ido sempre temos uma bate-papo e sinto a identificação das mulheres com as diferentes situações. Tenho tidos retornos surpreendentes de mulheres, por exemplo, que não sabiam que sofriam violência doméstica, já estavam acostumadas com os gritos. Leram o livro e se libertaram de relacionamentos abusivos. Isso é sensacional… embora eu não queira provocar divórcios (risos), mas provocar reflexões sobre o papel e os direitos da mulher hoje é o objetivo cumprindo assim a função social do jornalismo. Tenho participado de palestras, embora goste de chamar de bate-papo, porque gosto mesmo é de apresentar o fato e depois ouvir e ouvir e tem muita mulher querendo compartilhar suas dores e alegrias. Outro livro? Sim!! A ideia é focar em uma única história e investigá-la mais a fundo. Experimentando mais e mais o jornalismo literário, algo que me toca profundamente. Quero envolver o leitor… vamos ver! Mas estou ainda nas pesquisas iniciais.

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A jornalista durante o lançamento da obra “Mulheres Extraordinárias” em São Paulo – Foto: Luciney Martins

MSC – Após retratar inúmeros dramas, chegamos ao capítulo fé. E o capítulo seguinte conta a histórias de fazedoras do bem, a primeira delas, Maria Eulina. O quanto você aprendeu sobre fé e sobre fazer o bom com essas mulheres, e o quanto acha que podemos aprender com essa leitura?

KM – A fé é uma mola propulsora do bem. Senti isso ao entrevistá-las. Vivo isso dia a dia. Sou devota de Nossa Senhora Aparecida e tenho muita fé na vida e no ser humano. Penso que ler sobre a fé dessas mulheres e sobre a guinada de vida delas pode inspirar a fé que cada um carrega no peito. E essa fé pode ser em si mesmo, em Deus, no Universo, no próximo. O lance é ter fé.

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O livro teve lançamento também em Guarulhos (SP), ocasião em que Karla recebeu a visita de amigos jornalistas com os quais trabalhou em uma redação da cidade. Na foto da esquerda para a direita: Lourdes Dias, Karla Maria, Wellington Alves, Felipe Rabello (seu marido) e Deisy de Assis – Foto: Divulgação

MSC – Agora sim, Karla Maria por Karla Maria, talvez essa seja uma pergunta difícil, mas quem é essa mulher extraordinária que saiu pelo mundo, dentro e fora do Brasil, com a mochila nas costas e All Star nos pés rumo ao desconhecido em busca de respostas?

KM – Má, eu sou alguém apaixonada pela vida. Sou uma repórter que sente a obrigação (vocação de vida mesmo) de contar aquilo que não se vê por aí. Sou uma mulher de fé e por isso corajosa. Mas sou também insegura e este livro tem realizado grandes coisas dentro de mim (não sei explicar). Sou uma mulher grata demais à vida e pronta para viver mais e mais. Sou filha de Maria e Antonio, neta de dona Bela (último capítulo do livro), esposa do Felipe. Apaixonada por chocolate, cinema e pé na grama. Gosto de viajar, mas tenho medo de avião. Demorei muito para amar meu corpo, meu cabelo. Hoje me amo. Quero ser mãe e sim… eu já plantei uma árvore. Queria lembrar que este livro é jornalismo na veia. Feito com amor, tesão e suor. Muito compromisso e ética. Fazer este tipo de jornalismo como eu fiz é tocar e expor a vida das pessoas e o fiz com cuidado e responsabilidade, com dedicação e seriedade.

 

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