Ensaios fotográficos retratam a beleza de mulheres com deficiência — Moda Sem Crise
06 • abril • 2017

Ensaios fotográficos retratam a beleza de mulheres com deficiência


BELEZA – Um dos maiores dramas da mulher deste século é conviver diariamente com a “ditadura da beleza” imposta pela mídia de massa e mais recentemente pelas mídias sociais, que as atinge com maior velocidade e abrangência, devido ao seu grande alcance. Não bastasse o desafio diário para conciliar os diversos papéis que desempenha, essa mulher ainda carrega o peso da busca incessantemente pelos “padrões de beleza” seja na pele, no cabelo, no corpo, nas roupas, nas marcas, nas tendências ou modismos. Agora, imagine a seguinte situação: ser mulher [e tudo o que isso significa] e ser também deficiente física. Como entender e lidar com isso nesta mesma sociedade?

Valorizando mulheres comuns,  mulheres em tratamento contra o câncer, mães em luto que desejam fazer o ensaio para homenagear o filho único que perdeu, ou ainda, mulheres com deficiência física, a jornalista Ivna Sá dos Santos realiza ensaios fotográficos para seu projeto Ivna Sá Para Mulheres. O resultado dessas experiências ela publica em seu canal de YouTube. São vídeos com conteúdo que caminha na contramão de qualquer padrão preestabelecido.

Entre as mulheres clicadas por Ivna está Rafaela Alves Nunes, de 23 anos. Encontro que inclusive marcou e muito  sua carreira. Rafaela é deficiente visual e a sua relação com os padrões de beleza acontece de forma diferenciada, no entanto, assim como muitas mulheres, ela se diz afetada por eles nas mínimas coisas. Ela relata que sempre gostou de seus dentes, o que estimula seu sorriso. E também está bem satisfeita com seus cabelos, mas ainda, tem algumas restrições com a sua barriga. Porém essa relação tem melhorado e seu foco atualmente vai além do corpo: ou seja, em sua saúde.

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Resultado do ensaio de Rafaela Alves Nunes – Foto: Ivna Sá dos Santos

Após o ensaio, Rafaela conta que sua relação com a sua própria beleza melhorou bastante e lhe trouxe “novos olhares”. “A sensação de fazer as fotos, de perceber que o resultado foi bom, me causou um sentimento incrível. Fiquei muito feliz por ter a oportunidade de viver esta experiência. Me bastava fazer as fotos, mas quando eu vi a proporção que aquilo estava tomando, fiquei mais feliz ainda”.

Segundo Ivna, no dia de receber o seu álbum, Rafaela voltou ao estúdio, foi posicionada na cena da foto, tocou os acessórios que utilizou no dia do ensaio e os objetos utilizados na composição de cada foto. Na sequência, ouviu as audiodescrições das imagens uma a uma, totalizando dez imagens. Rafaela recebeu ainda um álbum impresso contendo as fotos e as descrições em braile.

A jovem Rafaela nos falou sobre toda a emoção que toda a experiência lhe proporcionou. “A audiodescrição me ajudou a construir minha opinião sobre minhas fotos e não apenas ouvir a opinião dos outros sobre elas, ou seja, é uma ferramenta de independência”, explica.

Brilhantemente, Ivna tem marcado a vida das mulheres que fotografa. Mas, segundo Rafaela transformar a imagem em algo que não pode ser só visto, mas ouvido e sentido, frisando ainda mais a sua definição de conexão, superou todas as suas expectativas. “Fazer estas fotos, ver que eu posso ficar bonita, me sentir linda, foi uma ótima injeção de autoestima. E, perceber que este projeto pode melhorar a visão da mulher deficiente na sociedade, com certeza é uma satisfação ainda melhor”.

Uma curiosidade da equipe do Moda Sem Crise que surgiu ao entrevistar Rafaela diz respeito à ideia de padrão de beleza que tem a jovem, uma vez que a beleza está extremamente ligada a visão. Rafaela nos explicou como isso a afeta. “Embora eu não enxergue, eu sei, através de comentários qual é esse padrão imposto pela sociedade. Não me preocupo muito no sentido de ter um corpo de Barbie e não gosto de usar roupas vulgares, mas me preocupo em estar bonita, tento me vestir bem. Acho que faz parte. E me maquio, sempre que possível. Porém, eu não me sinto obrigada a ter um padrão de beleza ditado pela mídia e a seguir moda”, afirma.

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Ensaio fotográfico colaborou para que se sentisse bonita – Foto: Ivna Sá dos Santos

A fotografia transformando o olhar

O interesse de Ivna Sá dos Santos pela fotografia surgiu após a maternidade. Ela iniciou sua carreira como jornalista e depois se tornou professora universitária. E em 2006 lançou seu primeiro projeto fotográfico, em Belo Horizonte (MG). Mais tarde, em 2013, depois de já ter fotografado junto com sua equipe mais de 3 mil famílias, Ivna desenvolveu um novo olhar sobre a beleza feminina e revela que para ela a fotografia vai além de padrões impostos e beleza física:

“A beleza que fotografo não está no corpo sarado, nas plásticas, no silicone e nos padrões de beleza que estão por aí. Fotografo mulheres de todas as idades, de diversos estilos, de diferentes raças; as que se dizem “fotogênicas” e as que dizem “detesto minhas fotos”. Aprendi que fotografia é conexão e que, quando alcanço essa conexão, o resultado é surpreendente”, declara.

Pâmela Valentina, de 25 anos foi também uma das mulheres clicadas por Ivna. A garota que é cadeirante e pesa 25 quilos, foi diagnosticada aos seis meses com amiotrofia espinhal progressiva, doença degenerativa. E segundo os médicos, sua expectativa de vida não passava de dois anos.

“Não esperava que ela tivesse aceitado mesmo sabendo do trabalho dela com mulheres… na verdade eu tinha um certo preconceito sobre fotógrafos que foi quebrado pela Ivna”, disse que afirma que viver essa experiência foi algo maravilhoso.

A modelo já era uma admiradora da fotógrafa e seus trabalhos e, certo dia, a abordou por mensagem telefônica com a frase: “você topa o desafio de me fotografar?“. Apaixonada por desafios, Ivna prontamente aceitou o convite  e o ensaio de Pâmela aconteceu em 2016, sendo um divisor de águas na carreira da fotógrafa.

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Pamela Valentina chegou o estúdio carregada pelos braços de seu pai – Foto: Ivna Sá

Pâmela conta que a vontade de ser fotografada já existia há muitos anos e que estar em um relacionamento no qual o parceiro sempre frisasse sua beleza, fez sua vontade aumentar. “Desde então, eu passei a ter vontade de me ver como ele dizia me ver, então me lembrei da vontade de ser fotografada e resolvi unir o útil ao agradável e o resultado foi maravilhoso pois eu consegui me ver de dentro pra fora e principalmente como ele me dizia que eu era”, diz.

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A jovem tem superado desafios e ser fotografada era um de seus desejos – Foto: Ivna Sá

“A fotografia da Pâmela reforçou o meu conceito de beleza e me fez ver o quanto a fotografia que proponho é inclusiva. Fotografando a Pâmela, eu incluo qualquer mulher, com todos os seus dramas e dificuldades de autoaceitação”, completa Ivna.

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