14 • setembro • 2018

Mulheres empreendedoras que vestem diversidade


Há mais ou menos um ano, comecei a me aventurar por territórios do outro, desconhecidos outros, invisíveis, talvez esquecidos ou voluntariamente escondidos por nós, sociedade brasileira que se orgulha do jeitinho festivo e acolhedor aos outros, mas que se nega a conviver com outras formas de existir. Outros corpos, outros sentidos e maneiras de estar no mundo.

Creio que essa nossa falta de conhecimento da variedade de ser, estar e viver dos seres humanos, começa lá no jardim de infância, quando a professora nos ensinou a desenhar os homenzinhos palito. Sim, aqueles que nós adultos sem dotes artísticos (como eu), desenham até hoje: uma reta com um círculo no topo, dois palitinhos menores representando as pernas e mais dois para os braços.

Ou seja, aprendemos crianças que esse é o modelo do corpo humano, igual para todos, sem diferenças e variações. Não nos foram apresentados como possibilidades homens palito sentados em cadeira de rodas, ou sem um dos membros, usando óculos, bengala e cães guia, homens palito com nanismo, gordos ou corcundas. Negros, brancos, amarelos, cabelo liso, crespo, ondulado e loiro. Não, as mulheres palito sempre têm cabelos longos.

Fonte: Fronteira Metrópole

Essa abertura para o mundo do outro e suas diferentes formas de existir, começou, para mim, com a mudança para a cidade de São Paulo. Metrópole plural, diversa e povoada por corpos únicos, singulares e totalmente diferentes entre si. Sem padrão, a cidade me ensinou a conviver com a diversidade dos corpos humanos e seus jeitos de existir.

Diversidade, termo esse, tão em alta hoje. Nome da minha coluna aqui, inclusive. Quanta bagagem simbólica esse termo traz consigo, que muitas vezes, é utilizado de forma vazia e incongruente. Para tirar nossa dúvida, vou chamar aqui a fala do primeiro ministro canadense, Justin Trudeau, quando em um discurso defendeu a diversidade como geradora de criatividade que enriquece o mundo e motor para novas descobertas.

É ela quem atualiza os valores, reinventa os modelos, padrões e jeitos de fazer. Trazem inovação aos processos, novos pontos de vista, que resolvem antigos problemas, expandem a comunicação e criam novas linguagens possíveis de tocar quem do outro lado se reconhece.

Diversidade como desconstrução de estereótipos propagados pela comunicação se estabelece a partir do instante em que nos abrimos a outras formas de reconhecimento do outro (diferente de nós) e de aproximação com suas realidades, muitas vezes escondidas, esquecidas por aí.

E como transfigurar a diversidade para o mundo da moda? Como a moda enquanto linguagem que comunica significados do indivíduo e do coletivo, dialoga com a diversidade dos corpos? Como ela os representa (ou deixa de representar)? Tantas perguntas em aberto. Há tanto ainda para se falar sobre diversidade na moda…Para me ajudar a começar a desvendar esse tema, chamei aqui a ajuda universitária de três mulheres empreendedoras que idealizaram marcas de moda com diversidade.

A primeira empreendedora convidada para falar sobre sua experiência com a marca LEPPÉ (@leppe_sapatilhas), é também uma amiga e um ser humano de respeito: engajada em acolher a diversidade de pés à sua marca e expandir a comunicação dos calçados a outras linguagens (como braille), ela é alto astral e tem uma vontade desmedida de aprender e fazer. Segundo a Cá, sua marca foi agregando diversidade à medida que foi se desenvolvendo: sua narrativa se iniciou com a ideia de criar calçados confortáveis e estilosos de forma manual. Com o tempo, ela percebeu que poderia optar por componentes não animais no processo de produção. Um dia, procuraram a Cá pedindo uma sapatilha feminina de tamanho 32, em outro dia, era a vez do tamanho 42. A partir daí, a LEPPÉ acolheu mais tamanhos de pés.

#PraCegoVer: Camila, idealizadora da LEPPÉ. está sentada em uma banco. Seus pés estão também apoiados no banco. Ela usa um par de sapatos vermelhos, vestido azul e tem uma bolsa de pano apoiada em seu ombro esquerdo. Ela olha para trás e tem um leve sorriso no rosto. Seus cabelos estão soltos e usa franja – Foto: Acervo Pessoal

A mais recente ação da marca sentido à diversificação de pés foi a procura pelos pés cegos. Há alguns meses, a Cá me procurou para entender melhor a relação de consumo das pessoas com deficiência visual. Ela se sensibilizou e decidiu dar um passo a mais pela moda acessível, passou a descrever todas as imagens das redes sociais da marca, está criando tags em braille para os produtos e pretende tornar seu e-commerce acessível. Desafios? Foram muitos e continuam sendo. Segundo ela, enquanto empreendedora, está enfrentando muitas barreiras financeiras para agregar os recursos de acessibilidade devido ao seu alto valor para o negócio. Mas ela continua firme, forte e sempre sorridente.

#PraCegoVer: Cintia está em pé atrás dela há uma parede. Ela usa um macacão rosa claro. Segura em suas mãos uma almofada onde está escrito “Viva Gratidão” em português e em braille. Ela tem cabelos soltos, usa franja e sorri – Foto: Arquivo Pessoal

Agora, trago a frase que inspira a inquieta, curiosa e energética Cintia na criação de peças acessíveis e muito sensíveis que mergulham no mundo do outro, “é preciso enxergar além do olhar”. Costuras do imaginário (@costurasdoimaginario) nasce do movimento pelo outro, uma trajetória de encontro e descoberta do desconhecido universo visual dos cegos pelos videntes. A Costuras da Cintia comemora em setembro, deste ano (2018), dois anos de vida, com uma coleção nova de peças gravadas em braille, difusores com frases reflexivas sobre empatia, croppeds e camisetas que nos relembram da necessidade de enxergar o outro. Obrigada, Cintia, por criar relevos visíveis (braille)!

#PraCegoVer: Marcinha é quem está na foto que mostra suas mãos e seu rosto. Ela tem cabelos curtos e sorri. Suas mãos estão juntas, estendidas próximo a quem a fotografa e ela tem suas bijus nas mãos – Foto: Arquivo Pessoal

Moda sem tamanho e sem gênero. Esses são dois valores de criação das bijus da Fofura Pimenta (@fofurapimenta), marca com o propósito de oferecer opções de bijuterias para pessoas que encontram dificuldades de encontrar acessórios, como óculos, brincos, anéis, piercings, chokers por estarem fora do padrão de tamanho estabelecido socialmente. Marcinha, a idealizadora da marca, decidiu investir nesse segmento do mercado, ainda invisível para a grande maioria das marcas, após a realização de uma parceria com a blogueira Mel Soares (@relaxaaifofa) que divulgou no Instagram que os anéis da Fofura Pimenta também serviam em dedos gordos. Marcinha não parou mais de receber pedidos de pessoas que buscavam acessórios sem barreiras de tamanho e gênero. Recentemente, influenciada pela Cá da LEPPÉ, começou a usar a hashtag #PraCegoVer, descrevendo seus produtos para as pessoas com deficiência visual também terem acesso à moda plus sizes e agênero.

Essas três mulheres empreendedoras estão ajudando a chutar as portas para a abertura à representatividade de outros corpos, dedos, pés, linguagens de seres humanos que não fazem questão nenhuma de estarem no padrão, e por isso, amplificam e enriquecem a moda. Se você possui/conhece/admira alguma marca que enxerga a diversidade como valor essencial, deixa aqui nos comentários para a gente se encantar e envolver mais e mais : )

 

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