14 • setembro • 2018

Maria: mulheres e o Poder – Parte I


As relações das mulheres com o poder inscrevem-se primeiramente no jogo das palavras. “Poder”, como muitos outros, é um termo polissêmico e designa a figura central, cardeal do Estado, que comumente se supõe masculina

Michelle Perrot

Para me formar como historiadora, estudei aquilo que chamamos de Nova História Cultural, isto é: um pouco de Certeau; um tanto de Chartier; uma dose de Peter Burke e Ginsburg; e alguns litros de Michel Foucault. A partir desses e de outros pensadores, construí minha perspectiva de análise. No que toca à temática do poder, eu o entendo como aquilo que transpõe a lógica “dominadores versus dominados”, como algo que se estabelece por meio de relações de poder, de práticas e estratégias. O poder, como ação sobre o outro, como um exercício que, de certa forma, todos nós, homens e mulheres, exercemos. Você jamais me ouviriam dizer que o “poder” é algo que tange apenas um grupo social… 

Mesmo antes de entrar na faculdade, eu sabia que as mulheres eram excluídas de diversos espaços – incluindo o político, suas instâncias e instituições. O que descobri no decorrer da graduação, com a ajuda de historiadoras como Michelle Perrot, Joana Maria Pedro, Marlene de Fáveri, Joan Scott, é que, mesmo aquém a esse “Poder”, com letra maiúscula, as mulheres exerciam seus poderes em diferentes esferas sociais. Um poder mais cotidiano, polissêmico e difuso. Durante anos me “contentei” com essa perspectiva.

Quando falo em contentamento não se trata de resignação ou de uma aceitação desta exclusão, mas sim da certeza que a ausência em determinada esfera, não limitaria por completo a atuação das mulheres. Por estar sempre cercada por pessoas com “alma feminista”; por nunca ter sido vetada de nenhum cargo; por nunca ter tido minha voz silenciada; por nunca ter sido impedida de alçar voos mais altos, por mais “masculinos” que eles pudessem parecer, eu nunca havia sentido na pele a desigualdade que ronda o feminino, a mulher.

Estudar a História das Mulheres era realmente um estudo, o ato não tinha a ver com a vida, experiência, vivência ou com o conhecimento de causa (Isso! Gravem esta expressão: conhecimento de causa). A exclusão não atravessava o meu caminho. Precisei de anos distante do universo acadêmico, precisei dar de cara com o chão da vida para perceber que, quer queira quer não, existe sim um “Poder” do qual as mulheres são excluídas e sobre o qual devemos pensar.

Há dias atrás, eu estava “viajando” no Instagram, quando uma foto em especial chamou minha atenção. Um homem, líder de uma instituição X, mais outros dezesseis homens, posicionados em riste ao redor de uma mesa repleta de livros, cadernos e canetas. A legenda explicava que aqueles seres compunham um grupo de formação de líderes. A instituição para a qual eles se preparavam não era uma escola para meninos, o que talvez justificasse a presença exclusivamente masculina, mas sim um lugar frequentado, majoritariamente, por mulheres.

Neste instante, fui tomada por uma perplexidade, como quando encontramos algo que estava “escondido” bem na ponta do nosso nariz.

Fiquei por uns instantes parada, pensando…

Como uma instituição da qual mulheres fazem parte pode ser governada somente por homens?

Que capacidade intelectual é essa que o homem tem de saber o que o outro, no caso, a outra, precisa?

Que olhar masculino é esse que dá conta de um grupo todo, essencialmente, heterogêneo?

Estaria eu cercada de super-homens e não sabia?

Não, não estamos falando de super-poderes.

Estamos falando da divisão social do trabalho, construída a partir do século 18, que relacionou a razão à masculinidade e o sentimento à feminilidade.

Com isso, criou-se a falácia de que a mulher é frágil, alienada, desprovida de razão, concebida biologicamente para cuidar, incapacitada de atuar na vida pública e na vida política . Não somente na vida pública, mas em qualquer cargo de liderança. Enquanto isso, o homem, segundo os mesmos discursos médicos, filosóficos e religiosos, é o ser dotado de razão universal e virtude necessária para agir sem se abalar pelas emoções, capaz de julgar o que é bom ou não para toda sociedade – um sujeito moral, racional e universal. Qualidades primordiais para ocupar quaisquer cargos de governo. Deixar as mulheres de fora desses espaços significa mantê-las na ordem natural das coisas – a casa, o espaço domésticos, atividades filantrópicas, a sala de aula…

O cenário da fotografia foi como um salto que me lançou para outros lugares nos quais a mulher permanece ausente. Nesse trajeto, me lembrei de uma amiga de infância: Maria Fagundes. Ela, desde sempre, sonhou em ser política. Sabe quando a pessoa vem ao mundo com um propósito muito claro? Maria é assim. Esta mulher é uma dos quatro filhos de um homem que também seguiu carreira política. Falando assim, pode parecer que a sua escolha foi marcada pela influência paterna. Eu, como amiga pessoal, posso garantir que não. Maria realmente “nasceu” com esse chamado e, mesmo se não fosse filha do Seu José Fagundes, não tenho dúvidas que ainda seguiria por esse caminho. Isso é tão dela, que é a única da família que estudou e estuda para ser política. Hoje ela é vereadora.

Françoise Thébaud define cidadania de duas maneiras: 1) a relação entre o Estado e os indivíduos, na qual o Estado reconhece seus membros e concede seus direitos; 2) a relação entre os indivíduos e o Estado, que evoca a participação de cada sujeito nas atividades da cidade. Nesse sentido, a cidadania é, antes de mais nada, política, pois inclui direitos políticos, direito de voto, direito de serem eleitos, direito de representatividade. Maria, minha amiga, é essa cidadã que além ter seus direitos reconhecidos, participa do governo de sua cidade.

Depois de décadas de luta, foi em 1934 que as mulheres conquistaram a sua cidadania política. Esse fato poderia indicar que, finalmente, as mulheres foram reconhecidas como cidadãs e capazes de exercerem sua própria cidadania – votarem, serem eleitas, terem voz, atuarem no cenário político, certo? Não.

Segundo Carlos Ferraz, nas últimas eleições municipais, em 2016 (da qual Maria participou e foi eleita), os brasileiros escolheram 50 mil vereadores homens e somente 7.811 vereadoras mulheres. A situação não é muito diferente se olharmos para as assembleias legislativas estaduais ou para o Congresso Nacional. Nas eleições de 2014, dos 1.035 legisladores estaduais eleitos, somente 114 eram mulheres, ou apenas 11% do total. No Congresso Nacional, foram eleitas somente 61 mulheres para 513 cadeiras, ou 12% do total.

A situação fica um pouco mais desconfortável se pensarmos que desde 1996 há uma Lei que obriga os partidos a terem um número mínimo de mulheres candidatas. Em 1997, definiu-se que os partidos devem ter no mínimo 30% e no máximo 70% de candidatos de ambos os sexos. Essa política de cotas visa assegurar a participação de mulheres.

Mas por que o desconforto?

Ora, para uma mulher ter chances de participar da corrida eleitoral são necessárias cotas, o que significa que ela permanece em um lugar de não aceitação, em uma condição de exclusão, demandando que o Estado intervenha a seu favor. A igualdade ainda não se faz presente.

Então, mais uma vez, a perplexidade toma conta de mim…

Embora eu soubesse que os partidos eram “obrigados” a incluírem mulheres como candidatas, eu não havia me dado conta de tamanho absurdo. Inquieta, entrei em contato com minha amiga Maria. Perguntei se poderia fazer algumas perguntas para entender um pouco mais sobre a participação feminina na Política e no “Poder”, pois eu não tinha certeza, já havia conversado com ela sobre sua eleição, mas queria confirmar.

Agora, transfiro a palavra para Maria. Nada e nem ninguém poderia explicar melhor que ela sobre o que acontece nesse chão da vida política… Por isso, comecei a nossa conversa com a seguinte dúvida:

— Você é a única mulher vereadora, certo?

— Isso mesmo!

— E quantos vereadores são?

— Dezenove.

Silêncio

e

Reticências

Foi o momento em que a história me atravessou e eu precisei de um tempo para digerir o “conhecimento de causa”, lembram da expressão? Passaram-se alguns dias até eu tomar fôlego e mandar as perguntas que, provavelmente, teriam respostas mais doídas. Sobre elas discutiremos mais tarde.

Respire, mulher.

Importante: Essa é a primeira parte de um conteúdo separado em duas publicações. A parte 2 será publicada no Moda Sem Crise dia 19 de setembro. Não perca!

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Fabiana Nicolau Seraidarian

Fabiana Nicolau Seraidarian

>>> Fabiana Nicolau Seraidarian é graduada em História pela Universidade do Vale do Itajaí, especialista em História Social pela Universidade do Estado de Santa Catarina e mestre em História da Educação pela Universidade de São Paulo. A História é o seu amor mais antigo. Sempre gostou de pensar o presente dentro de uma perspectiva histórica: como nos tornamos o que somos? Ela acredita que um olhar histórico nos tira do campo do óbvio e nos lança sobre o chão da crítica, da análise, do questionamento, abrindo assim caminho para re-invenções de nós mesmos e do mundo. Desde que virou “do lar” a pia da cozinha, a tábua de passar e o fogão nunca mais foram os mesmos. Vestida de dona-de-casa é que trava os maiores debates filosóficos e históricos sobre si mesma, sobre as mulheres, os homens, sobre a educação, sobre gênero. Bem ali no meio da cozinha ou diante do ferro de passar ela é tomada pela realidade e tudo se torna objeto de análise dessa sua mente que não cansa de historiar. E é esse o chão que ela pretende trilhar como colunista do Moda Sem Crise: falar do que toca, do que incomoda, do que faz sorrir, do que faz chorar, do que faz gritar. Falar da vida, do cotidiano, das mulheres, dos homens, das crianças, da escola, das vestes, do belo, do feio – história da gente, de gente. Fale com a Fabi | E-mail: nicolau.fab@gmail.com



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