Moda Inclusiva: "Somos pessoas e a deficiência é apenas uma característica" — Moda Sem Crise
06 • dezembro • 2017

Moda Inclusiva: “Somos pessoas e a deficiência é apenas uma característica”


Afinal para quais corpos a moda trabalha? Este é o principal questionamento do projeto #MEUCORPOÉREAL. Criada pela paulista Michele Simões, a iniciativa surgiu da necessidade de levar à indústria informações mais consistentes pela moda. Desafios que a estilista enfrenta pessoalmente e diariamente e pelos quais luta com o objetivo de ver acontecer a quebra de esteriótipo da moda para a pessoa com deficiência e o fim da falta de informação.

Nascida em São Bernardo do Campo, Michele passou sua infância no ABCD Paulista e a adolescência em Rio Claro, interior de São Paulo, até se mudar para o estado do Paraná, onde cursou a faculdade de moda pela Universidade Estadual de Londrina.

Seu interesse pela moda sempre foi além da criação, pois ainda estudante estava até às várias áreas da moda. “Eu sempre gostei de moda e nunca fui uma pessoa que tive dinheiro para comprar tanta roupa, então, eu pegava as roupas e tentava transformar. Mas quanto ao estudo, sempre me chamou atenção a forma como a gente pode expressar e comunicar nossas opiniões e principalmente a personalidade por meio das comunicações que a roupa utiliza. Isso me deixava muito fascinada e eu também tinha a ligação de improvisar muita coisa”.

Em 2006, recém graduada em Moda e Estilismo, Michele sofreu um grave acidente de carro, no qual fraturou a coluna e acabou atingindo a medula. O episódio lhe rendeu três meses de internação e um período longo de reabilitação em função das sequelas. Michele agora estava paraplégica. “Mas não teve nenhum momento que eu me revoltei. Obviamente que ninguém sonha em passar por situações difíceis onde você troca de corpo da noite para o dia, mas eu sempre fui movida a entender que as coisas têm um propósito para acontecer”, relata.

Michele Simões durante o TED SP em fevereiro deste ano – Foto: Reprodução Facebook Michele Simões

A descoberta e a convivência com o novo corpo fizeram com que Michele buscasse novas possibilidades para a sua condição de consumidor invisível. “E a moda foi um caminho bacana para superar e me entender muitas coisas. Quando eu pude me olhar no espelho depois de um bom tempo na cadeira de rodas e perceber que aquele corpo era meu e eu poderia fazer o que quisesse dele e a moda poderia me ajudar muito nisso, então, eu comecei a buscar muita coisa.”

Ao ingressar na pós-graduação em Comunicação e Cultura de Moda na Universidade Belas Artes, em São Paulo, onde vive atualmente, a empreendedora passou a ter uma visão ainda mais ampla sobre a moda como um grande veículo de comunicação e quebra de estereótipos. E de sua pesquisa de mercado aliada o seu questionamento sobre invisibilidade dos corpos com deficiência na moda surgiu o projeto Meu Corpo é Real.

“Depois de algumas pesquisas, eu comecei a encontrar algumas demandas e o meu primeiro projeto foi o Fashion Day Inclusivo, que hoje é uma das abas do Meu Corpo é Real. Depois, eu lancei um minidocumentário e a repercussão foi tão positiva que eu acabei desenvolvendo isso no formato do projeto que é hoje.”

Atualmente, o projeto promove palestras e workshops com os temas acessibilidade, comunicação, estilo e outras temáticas relacionadas à moda inclusiva, com o objetivo de estreitar relações entre empresas do segmento, profissionais e consumidores.

Nas redes sociais, a estilista também não deixa o descaso passar em branco e utilisando a hashag #movimentomeucorpoéreal, publica páginas de famosas revistas, sobre as quais desenha em protesto como seria a moda se fosse direcionada a todos corpos, inclusive aos com deficiência. “A nossa ideia é dar voz aos corpos não vistos e trabalhar isso de uma forma leve e com uma linguagem criativa. E fazer essas interferências nas revistas é uma forma de trazer luz para essas pessoas que estão dentro desses veículos de forma lúdica. É a forma que uso para que a gente possa desenhar as realidades que são possíveis mas que ainda não são colocadas, que não acontecem”.

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Representatividade: Michele desenha em revistas as pessoas que gostaria de ver em campanhas publicitárias – Foto: Reprodução Facebook Michele Simões

De acordo com Michele, os avanços já podem ser notados, mas há muito trabalho ainda a ser feito. “Estamos num momento de moda inclusiva muito embrionário, mas existem avanços sim. O nosso documentário já foi colocado dentro de algumas empresas que foram parceiras, para as pessoas começarem a se conscientizar, eu acabo dando palestras para essas empresas. Eu acho que é um passo atrás do outro.”

Para ela as pendências em relação às pessoas com deficiência e as demandas vão além do mundo a moda. “Nós temos que mudar a visão do deficiente em relação a sociedade em geral, porque ele não é visto nem como cidadão e para a gente chegar a implementar isso dentro da moda a gente tem uma caminhada aí”, comenta.

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A estilista durante a 3ª edição do Fashioin Day Unclusive – Foto: Reprodução Facebook Michele Simões

Para o futuro, como novas parcerias que tem feito, o projeto Meu Corpo é Real, pretender dar ainda mais passos rumo a uma moda que atenda a todos os corpos. “Estamos em um processo em que o mercado precisa perceber o consumidor e isto é um caminho sem volta e que as marcas vão tem que se adequar, assim como elas estão se adequando à moda plus size, acredito que um dia a moda inclusiva também terá essa força”.

E os desafios são muitos, porém os maiores, segundo Michele ainda são a quebra do estereótipo da deficiência e falta de informação. “Temos um cenário onde as pessoas não têm conhecimento total sobre o assunto e existe um tabu muito grande de se falar com ou sobre a pessoa com deficiência e isso acaba prejudicando o desenvolvimento de projetos em torno do tema. Acredito que através da comunicação vamos estreitando relações e a indústria vai perceber esse corpo como consumidor. Não somos deficientes, somos pessoas e a deficiência é apenas uma característica. Quando conseguirmos inverter essa ordem as coisas vão mudar”.

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