07 • março • 2018

Inspirado em perfil gringo, @muodas revela relatos assustadores de profissionais da moda brasileira


Criado em dezembro de 2017 para compartilhar posts de memes sobre as dificuldades de quem atua nos bastidores do universo da moda, o perfil @fashionassistants desde fevereiro deste ano passou a publicar também relatos de estudantes e profissionais da área. As publicações revelam abusos que vão desde ofensas até agressões físicas. Há menos de uma semana, a ideia ganhou uma versão brasileira. No ar desde 3 de março, a conta @muodas vem compartilhando também histórias reais com o mesmo foco. Na descrição da bio está a confirmação a respeito da inspiração: “Perfil de relatos anônimos de funcionários do mercado de moda brasileiro, 100% inspirado no @fashionassistants – conta internacional que já soma mais de 10 mil seguidores. Por aqui, o perfil brasileiro também vem ganhando diariamente novas e assustadoras falas, além de seguidores.

O primeiro post foi publicado no dia 3, com o seguinte relato: “Trabalhar com estilistas conhecidos aqui no Brasil é sinônimo de “Diabo Veste Prada, sem exageros. Todos os dias, o […] chegava, jogava a bolsa dele, o casaco e os snacks do dia e eu tinha que sair correndo e organizar tudo em tempo recorde, antes que ele começasse a gritar comigo. Isso já tendo uma ótima formação, inclusive ótimas experiências. Mas para eles, é um prazer você poder trabalhar com eles, se humilhar e ganhar uma miséria.”

Outro publicado uma hora depois do início das publicações na conta expõe um caso de assédio. “Trabalhei durante algum tempo em uma marca grande. Um dia teve uma festa. Neste evento fui apresentada pela minha chefe ao seu marido, que foi dono da marca durante muitos anos. Ela gentilmente virou para ele e falou, essa é a […], estilista nova da […]. Nesse momento, quando fui cumprimentar, ele apertou minha bunda na frente dela com a maior naturalidade do mundo. E saiu andando. Na hora não entendi nada. No dia seguinte aquilo não saia da minha cabeça. Algum tempo depois tive que encontrar esse lixo humano diversas vezes no trabalho. Me sentia um lixo. Não sendo o bastante, meses depois por falta de modelo chamaram as estilistas mesmo para provar a coleção inteira para ele e a gente tinha que se trocar atrás de algumas araras penduradas. Ódio.”

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Filme “O Diabo Veste Prada” protagonizado pelas atrizes Meryl Streep – que interpreta a chefe pressora Miranda Priestl – e Anne Hathaway chega ser citado entre os posts – Foto: Divulgação

Em um relato compartilhado dia 4 de março, a publicação diz respeito ao trabalho em uma revista. “Trabalhei como assistente em uma revista que carrega título de […], mas todos sabemos que no Brasil ela mal consegue sustentar suas contas. Além de demitir todos os seus funcionários sem pagamento, a dona mais conhecida como rainha louca continua ostentando sua vida de riqueza, enquanto funcionários tiveram que entrar na justiça. Trabalhava incansáveis horas sem receber nenhum Real, apenas para realizar o sonho de trabalhar no mundo da moda. Além de ter que bancar todos os gastos de transporte, os almoços, os lanches da tarde nos shoppings mais caros de São Paulo. Escutar a ‘rainha louca’ chamar a moda nacional de lixo e que nada disso serviria para o seu título, mesmo com seu império em pedaços continua com sua revista na ativa e meia de dúzia de escravos da moda. Enquanto tiver pessoas trabalhando de graça apenas para sair no expediente de revista, esse império de vidro nunca irá acabar. Moda da decepção”.

Por meio da própria conta, o Moda Sem Crise conversou com quem está por trás do perfil. Mantendo o anonimato, seu administrador explicou que experiências pessoais ajudaram na criação da plataforma. No entanto, a versão gringa foi fundamental para que surgisse a iniciativa brasileira. O objetivo é expôr tais condições de trabalho.

Com certeza minhas experiências pessoais dentro da moda ajudaram, mas o empurrão principal mesmo foi ver a página @fashionassistantes fazendo ‘denúncias’. Trabalhando há tantos anos com moda, o que não falta são histórias, minhas e de pessoas com as quais cruzei. Espero fazer estes relatos serem trazidos à luz. Mostrar que ninguém está sozinho nessa e, quem sabe, melhorar um pouco o setor.

O número de seguidores da conta cresce. Criada às 22h de sábado (3), o perfil em menos de 24 somou 377 seguidores. Agora são 1395 até o fechamento desta publicação (14h22 do dia 7 de março). Os relatos chegam pela conta, por mensagem, e são então compartilhados na rede. Até aqui 43 pessoas tiveram suas histórias publicadas. “Os relatos não me surpreendem, porque a gente que está no meio sabe que é assim que as coisas são, infelizmente. Não surpreendem mas com certeza entristecem. Surpreendeu a repercussão até agora. Acho que as pessoas estão se relacionando com o que estamos mostrando”, disse o administrador da conta que explicou ainda que “muódas” é um termo usado entre os profissionais da área. “O nome muódas é um termo que a gente usa para falar do mercado, já dando uma agulhada e uma prévia em como as coisas funcionam.”

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@muódas na tarde de domingo (4/03) contava com 377 seguidores e 12 publicações – Foto: Reprodução Instagram Muódas

Questionado por um outro perfil a respeito do anonimato das pessoas por trás das mensagens e o fato de preservarem os nomes das empresas citadas nos, em um post onde explicam a criação da rede, o @muodas responde: “A gente gostaria muito de expor as marcas, tanto quanto vocês gostariam de saber quais são, mas o trabalho aqui é o de fazer as pessoas se sentirem confortáveis contando os relatos e isso faz parte do anonimato. Quanto mais informação, mais fácil juntar as pontas… E se o canal não puder ser seguro, de nada adianta. Ninguém aqui está podendo pôr o emprego pra jogo, né?! (Nos incluímos nessa).”




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