05 • dezembro • 2016

Eu, Marília e Dirceu


CAUSE MARIA – Sou assumidamente romântica, do tipo que lê e escreve poesias, que viaja nas histórias dos filmes e livros e que por muitas vezes sonhou em vivê-las. Quando eu tinha uns 14 anos e estava no ensino médio, tivemos como exercício de literatura, ler e fazer uma resenha sobre o livro “A Ladeira da Saudade” de Ganymédes José. O romance relata um amor adolescente cheio de barreiras sociais e raciais entre Lília (Marília) e Dirceu, tendo como cenário a cidade de Ouro Preto (MG).

Inicialmente, para mim, apenas um exercício escolar, mas aos poucos lá estava eu, acompanhando de perto o drama dos personagens que se misturava com a arte e história local. Lendo o romance, caminhei mentalmente pelas ruas de Ouro Preto e presenciei as obras de Aleijadinho e Manuel da Costa Ataíde, subi e desci as ladeiras de pedra e suspirei com a trajetória de Lília e Dirceu.

A questão é que eu nunca havia estado na cidade, mas a forma tão clara com que Ganymédes José a descrevia, a tornava para mim, uma velha conhecida. Estava apaixonada pelo livro, pelos personagens e por toda a história de Ouro Preto, tanto que, após a leitura, quis me aprofundar e saber mais sobre tudo aquilo.

Em seu livro, Ganymédes fazia referência à obra Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, no qual o poeta descreve sua paixão por Maria Dorotéa Joaquina de Seixas, em um romance totalmente desaprovado pela família dela. Dorotéa foi imortalizada com o pseudônimo de Marília e Tomás Antônio Gonzaga com seu pseudônimo Dirceu.

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A história é escrita em forma de poesia e divide-se em três partes:  antes, durante e depois do envolvimento de Gonzaga com a Inconfidência Mineira, o qual lhe rendeu um período de prisão em Moçambique, afastando-o de vez de sua amada, que vivia em Ouro Preto, então Vila Rica. Uma distância que deu ainda mais dramaticidade ao romance. Sentia-me próxima disso tudo e ainda não sei por qual motivo criei essa forte ligação. Desde então, visitar Ouro Preto tornou-se um sonho, o qual demorei muito tempo para realizar.

Eis que na última semana, tive a grande oportunidade. Em comemoração ao aniversário da minha mãe, meus irmãos e eu decidimos leva-la para um passeio pela cidade histórica, na qual estivemos por dois dias. E então, pude viver uma situação tão mágica, quanto a que senti ao ler as duas obras.

Ao pisar em Ouro Preto, senti uma forte emoção tomar conta de mim. Era noite já e a cidade estava com poucas luzes acesas, mas não perdia a sua beleza e a sua energia, que estranhamente percorria todo o meu corpo, algumas lágrimas já deixei cair ali mesmo. Eu estava emocionada e ansiosa para o passeio do dia seguinte, para de fato ver e conhecer tudo.

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Fotos: Elaine Paiva

No dia seguinte, iniciamos nosso roteiro de visitação pela cidade. É impressionante como eu já me sentia parte daquele lugar. Caminhando por lá, eu pensava: “Já conheço tudo isso, já estive aqui…” Tinha lembranças do lugar, lembranças de emoções que vivi ao imergir nas palavras do poeta.

No Museu da Inconfidência, o contato com documentos e pertences de Maria Dorotéa, a Marília, me trouxe ainda mais proximidade com aquela velha amiga, da qual acompanhei o drama de um amor proibido. Chorei, como se de fato a conhecesse.

Lembrei-me de trechos do poema de Gonzaga, o Dirceu: “Eu tenho um coração maior que o mundo, tu, formosa Marília, bem o sabes: um coração…, e basta, onde tu mesma cabes”. Tudo se tornava ainda mais mágico.

Ainda não sei porque tinha lembranças tão nítidas que algo que acompanhei apenas através dos livros, porém cada coisa ali me era familiar, já tinha visto tudo aquilo. Era como se estivesse revisitando aquele lugar, revendo fachadas, objetos, documentos.

Ao mesmo tempo em que revivia um momento, esta viagem me acrescentava novidades: foi a primeira viagem turística em família. Sempre viajamos juntos para visitar parentes, mas dessa forma nunca havíamos feito. Minha mãe, que adora arte, estava emocionada com a beleza a sua volta, com os filhos reunidos para um dia só dela e estranhando estar longe da rotina de cuidar de casa e de todos.

Seus problemas ortopédicos foram esquecidos naquele momento, andou por um dia inteiro, subiu e desceu ladeira sem reclamar, andou agachada em minas desativadas, presenciou a arte viva nas igrejas que visitamos, e como católica fervorosa que é, entendia cada pintura, cada escultura deixada ali por Aleijadinho e mestre Ataíde.

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Família reunida para comemorar o aniversário de dona Maria Inês – Foto: Arquivo Pessoal Elaine Paiva

A cada ligação que recebia, falava da emoção que estava vivendo e como estava se sentido importante em estar ali desfrutando daqueles momentos, sabendo que estava em um local de grandes acontecimentos.

Um passeio que nos trouxe riquezas, de estar em família, de sermos apresentados à dados históricos de nosso país e de fazer feliz alguém que amamos tanto.

De volta a São Paulo, ainda me emociono ao escrever e ao lembrar de quão belo foi estar ali e também de reviver a lembrança dos grandes e belos amores e também de suas dores. Da beleza e da riqueza da cidade, de Lília e Dirceu, da Ladeira da Saudade e dos inspiradores Tomas e Maria Dorotéa. E ainda sinto que já estive ali, não sei como, mas já estive.

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