15 • agosto • 2018

Entre a colher e o silêncio


Quando a Má sugeriu-me o tema para a coluna deste mês, eu aceitei de prontidão. A única coisa que eu não queria era colocar no papel minhas próprias memórias, deixar o texto tão pessoal a ponto de escorrer lágrimas, ouvir gritos de dor e de revolta.

Eu não queria falar da história que me atravessa, por isso começo o texto com o meu silêncio.

Escolho o silêncio para conseguir caminhar pelas tangentes, e assim, não correr o risco de expor quem não deva ou eu não queira. Porque ao fazer isso, um pouco de mim transbordaria para além do que eu consigo dar conta.

Às vezes o silêncio é o calmante necessário – o sossega leãoda alma.

Não que eu nunca fale sobre isso, pelo contrário. Eu falo. Mas, quando abro a boca sinto uma geleira se formando aqui dentro – porque o falar não me dói. A verborragia sobre o assunto estanca a dor do peito, silencia o grito na garganta. Escrever é o oposto. Escrever para mim é como colocar o dedo na ferida. É sentir a dor que eu, por hora, nego-me a sentir.

E não se trata apenas de uma dor. São muitas

(…)

Por que ninguém mete a colher?

Foi a pergunta que me fiz durante essa semana, enquanto assistia, repetidamente, às noticias sobre o assassinato de Tatiane, e de tantas outras mulheres que também foram mortas no decorrer dos últimos dias...

O tema da violência doméstica contra a mulher é complexo e deve ser abordado como tal. Ao tratarmos simplesmente no âmbito vitima x agressor, estaremos sendo injustos e tão violentos quanto aquele que agride. Porque o ser humano é complexidade em carne e osso.

O que leva uma mulher a aceitar o tapa na cara? O xingamento? O autoritarismo?

O que autoriza um homem a espancar? O que lhe autoriza a proibir de trabalhar?

O que faz a vizinha fingir que não ouve? A filha se esconder no quarto? O filho não gritar por socorro?

Medo. Nós temos medo de nós mesmos. Reconhecemos no outro violência tamanha que a paralisia se torna a nossa primeira opção. E não coloco o medo na roda como justificativa para a ausência de socorro, mas como uma forma de denúncia. A que ponto chegamos? Que violência estrutural é essa que nos faz ter medo uns dos outros?

Foto: Pixabay

Quero trazer a realidade do medo para mais perto…

Você, mulher que está lendo esse texto agora, nunca teve medo de andar sozinha durante a noite? Eu já, e por diversas vezes. Durante o meu mestrado, na maioria dos dias eu voltava para casa tarde da noite. Minha quitinete era do lado da universidade, mesmo assim, sempre ficava apreensiva e acelerava o passo para chegar logo.

O que eu temia?

Encontrar com um homem que quisesse fazer algo comigo. Eu tinha medo de ser estuprada.

Meu Deus! Que querer é esse que anula a vontade do outro por completo? O que é isso que autoriza um homem a violentar uma mulher? Tocar no corpo. Mexer no cabelo. Falar gracinhas. Constranger... Que atitudes são essas que impõem o medo como reação? O que sustenta tais comportamento?

Desculpe-me, mas não se pode tratar desse assunto a partir de análises rasas e superficiais...

Eu não tenho coragem de ligar para a polícia. Ele pode vir aqui e me matar. Quem conviveu de perto com a violência certamente se reconhece nessa fala. Assim, não meter a colher é também autopreservação.

Mas, não sejamos inocentes. Muitas vezes à autopreservação vem acompanhada do egoísmo, do mais puro individualismo: Não tenho nada a ver com isso. Eles que se entendam. Não nos sensibilizamos nem mesmo com o laço humano que nos aproxima – ou deveria nos aproximar.

A que ponto chegamos?

Há também quem não deixe meter a colher. Aceita e tolera toda sorte de abuso e agressão pelos mais diversos motivos – proteger a família; assegurar o sustento. E por detrás disso há, mais uma vez, o medo: medo de novas agressões; medo de não conseguir manter financeiramente a casa, porque o marido é o dono do dinheiro; medo de ficar na rua da amargura; medo de ficar sozinha. Não consegue vislumbrar a possibilidade de viver uma outra vida.

Foto: Pixabay

Há quem não meta a colher em sua própria vida por amor… Sim, por amor – porque acredita que só é explosivo quando bebe. Quando está sóbrio, ele me trata tão bem.

O que essa mulher não consegue perceber é que antes de levar o primeiro tapa na cara, o marido já lhe proibiu de trabalhar; definiu um horário para chegar em casa; desprezou inúmeras vezes a comida que ela preparou todo santo dia... Tais atitudes também atuam no campo da violência, mas não se tem ciência disso. E, por fim ela o ama.

E esses sentimentos ganham uma dimensão ainda mais complexa quando a figura que bate é a paterna. Não envolve somente dois personagens, existem outros: os filhos. E o agressor é alguém tão próximo e há tanto sentimento contraditório em jogo, que o silêncio é sem dúvidas a primeira reação, e talvez a única.

Quem está do lado de fora do coração, não entende. Não entende como ela pode aceitar tanta humilhação. Porque embora nunca tenha levado um tapa, quem convive com a violência doméstica apanha na alma, e por isso não entende e talvez nunca irá entender que amor é esse… E o que sobra é a revolta mergulhada no silêncio, no medo. Revolta que, às vezes, transgride e tanta com mãos de adolescente defender a mãe da brutalidade do pai.

Há também aquela que não consegue fazer nada por vergonha… Sim, vergonha. O que falarão a meu respeito? Quem acreditará na minha história?. Como se a vítima de violência necessitasse de uma explicação para além do próprio ato. Mas, a vergonha é verdadeira e pautada, principalmente, naquilo que aprendemos sobre o ser uma mulher decente, uma boa esposa, uma filha exemplar.

Mas, há quem meta a colher, e o faz com unhas e dentes. Há quem constrói estratégias e grita, e defende, e protege. E para conseguir fazer tudo isso, além do amor, empatia e identificação com aquela que apanha, há a convicção de que a violência dentro de casa é inaceitável, é injustificável, é injusta, é imoral, é ilegal.

Meter a colher é a desconstrução de um padrão de pensamento e comportamento forjado histórica, social, linguística e culturalmente. Padrões que constituem o ser mulhere o ser homempermeados pelo machismo e pela misoginia, endossados, por sua vez por discursos e práticas provenientes dos mais diversos campos – medicina, direito, religião, pedagogia, biologia – e por mais de séculos.

E precisamos falar sobre isso. Precisamos ensinar que determinados comportamentos não são naturais, mas foram aprendidos e por isso podem e devem ser des-aprendidos. Cabe-nos perguntar qual a raiz dos discursos que salvaguardam as condutas de violência e de submissão. Sim, porque a própria submissão feminina a situações como estas, tem profundas relações com a forma como a mulher se percebe enquanto indivíduo e sujeito de sua história – seu papel, seu lugar, sua fala.

Mulher não gosta de apanhar (e se você acredita que sim, sugiro que peça a um amigo seu que lhe dê um tapa na cara…). Manter-se em uma situação de violência é uma escolhamuito mais complexa. E tenho convicção que esta tem relações profundas com a forma como fomos ensinados a ser, a viver, a fazer.

Mulher não merece, homem não pode. Mulher não é propriedade, homem não é dono. Mulher não pediu por isso, homem não tem o direito. Não é não.

Meter a colher é compartilhar da humanidade. Meter a colher é amar o próximo, mesmo quando este lhe seja desconhecido. Meter a colher é ensaiar a construção de novas narrativas: ela não foi morta, ela sobreviveu.

Na dúvida, aja. Tenha a certeza de uma coisa: a maioria das vezes o socorro não virá de dentro de casa, porque quem está a dentro também precisa ser socorrido.

E ligue para o 190. Mas, não fique por isso. Quando cruzar por uma mulher que vive em situação de violência e não consegue enxergar sua condição, seja a voz que alerta. Quando uma conhecida não consegue sair de casa, porque não tem como sustentar a si mesma e aos filhos, seja aquele que vai ajudar com o pão de cada dia. Quando uma amiga quiser sair desta situação, mas não tiver para onde ir, seja a porta aberta.

Ligue para 190 para pedir socorro – Foto: Pixabay

E + Dica da Autora: Falar de violência doméstica é algo muito profundo. Vai além de um texto como este, que mistura revolta com história de vida. Principalmente em tempos como este, em que palavras como machismo e misoginia já viraram piada, precisamos trazer para o palco estudos e pesquisas, falas academicamente autorizas. Falas que consigam mostrar às pessoas que nos cercam que a violência tem história, tem sociologia, tem cultura – que ela não é natural; que as diferenças entre homens e mulheres não representam superioridade de um sobre o outro; que a desigualdade imposta sobre a diferença foi construída, não há nada de natural nisso. Esse texto, a despeito de ter sido escrito por uma historiadora, não trilhou por essas vias. Não foi possível. Por isso, se você quer aprender mais com outras mulheres – pensadoras e intelectuais – escreve para nicolau.fab@gmail.com. Terei o maior prazer em compartilhar dezenas de artigos que fui colecionando ao longo dos anos. E para não perder o costume segue uma indicação de leitura: Violência simbólica – Saberes masculinos e representações femininasda Rachel Soihet. Este artigo está disponível online no site da Revista Estudos Feministas.


Fabiana Nicolau Seraidarian

Fabiana Nicolau Seraidarian

>>> Fabiana Nicolau Seraidarian é graduada em História pela Universidade do Vale do Itajaí, especialista em História Social pela Universidade do Estado de Santa Catarina e mestre em História da Educação pela Universidade de São Paulo. A História é o seu amor mais antigo. Sempre gostou de pensar o presente dentro de uma perspectiva histórica: como nos tornamos o que somos? Ela acredita que um olhar histórico nos tira do campo do óbvio e nos lança sobre o chão da crítica, da análise, do questionamento, abrindo assim caminho para re-invenções de nós mesmos e do mundo. Desde que virou “do lar” a pia da cozinha, a tábua de passar e o fogão nunca mais foram os mesmos. Vestida de dona-de-casa é que trava os maiores debates filosóficos e históricos sobre si mesma, sobre as mulheres, os homens, sobre a educação, sobre gênero. Bem ali no meio da cozinha ou diante do ferro de passar ela é tomada pela realidade e tudo se torna objeto de análise dessa sua mente que não cansa de historiar. E é esse o chão que ela pretende trilhar como colunista do Moda Sem Crise: falar do que toca, do que incomoda, do que faz sorrir, do que faz chorar, do que faz gritar. Falar da vida, do cotidiano, das mulheres, dos homens, das crianças, da escola, das vestes, do belo, do feio – história da gente, de gente. Fale com a Fabi | E-mail: nicolau.fab@gmail.com



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