04 • novembro • 2016

Diabetes Tipo 1: O doce novembro azul


EDITORIAL – Dia 14 de novembro é o Dia Mundial do Diabetes. A data instituída pela Federação Internacional de Diabetes e Organização Mundial da Saúde, em 1991, chama a atenção para a doença que atinge mais de 400 milhões de pessoas no mundo, causando mais de cinco milhões de mortes por ano. Por isso o Novembro Azul. Mas, tem mais, novembro é também o mês de alerta sobre o câncer de próstata, considerado o segundo mais comum na população masculina em todo o mundo, de acordo com o INCA (Instituto Nacional de Câncer José de Alencar Gomes da Silva).

Mas é sobre o Diabetes Tipo 1 que quero falar. E não por acaso.

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Foto: Marcela Fonseca

Em 1994, caminhava pelo supermercado quando com as pernas trêmulas apaguei. Tudo o que me lembro é que um desconhecido segurou meu corpo frágil. Não era a primeira vez que isso acontecia. Além dos desmaios outros sintomas teimavam em me fazer parar. Sede excessiva. Fome demasiada. Exagerada perda de peso. Logo na primeira consulta médica parecia evidente o que viria a seguir, mas, claro, era preciso fazer alguns exames para constatar.

Era 13 de junho, ainda pela manhã, quando recebi meu diagnóstico: Diabetes Mellitus Tipo 1. A notícia caiu como uma bomba embora tenha chegado cercada de cuidados. Até ali os médicos não enxergavam qualquer possibilidade de cura [e hoje ainda não há, o que existe são novos recursos para se tratar]. Soube que para sobreviver estava condenada a conviver então com insumos para medição da glicose, além das injeções constantes e diárias. Era só uma criança e esse foi o primeiro grande drama de Marcela.

O DM Tipo 1 é uma doença auto-imune caracterizada pela destruição de células beta produtoras de insulina que até aí não fazia parte da história familiar. E pra que eu pudesse entender o que estava acontecendo comigo da melhor maneira possível, os médicos desenhavam [Tá entendendo ou quer que eu desenhe? Acho que essa expressão vem de situações assim]. Os médicos também falavam sobre um período em que o pâncreas voltava a produzir a insulina, o nome que davam para esse tempo era lua-de-mel. Pode ocorrer em alguns casos, mas não foi assim comigo.

Cresci fazendo tudo errado [e ainda faço].  Admito que tenho sorte de ainda não sofrer com alguma complicação da doença. Estúpido pensar que por tanto tempo fingi que não era comigo. Sim, demorei vinte anos para aceitar e me enxergar diabética de fato. Hoje olho pra trás e penso em todas as besteiras que fiz. E me odeio quando penso que manter a disciplina volta e meia vira um fardo. Mas sempre há tempo pra recomeçar. E todo dia tem sido um recomeço.

Recentemente entrei em contato com a Marina de Barros Collaço para propor uma entrevista. Já havíamos conversado antes, em março, no final disponibilizo o link, ocasião em que falamos de sua loja de camisetas com frases que nos representam. Dessa vez o bate-papo seria também sobre representatividade, mas de olho na sua criativa iniciativa de transformar bonecas princesas em bonecas princesas diabéticas. A pauta deveria se desdobrar de outra maneira. Mas ao pensar sobre o que escreveria sobre o Novembro Azul mudei completamente de ideia.

Além da Marina, outra doce-amiga que tenho há pouco tempo, mas que já está entre as mais queridas que me dão força pra continuar, é a Robertha Navajas, descoberta numa feira de moda no Memorial da América Latina, em uma noite de sábado. Vi sua bomba de insulina presa ao vestido e não foi preciso muito para começarmos uma conversa com direito a abraços. Estilista, a Robertha certa vez desenhou e confeccionou um vestido de casamento para uma noiva diabética com bolso para acomodar a bomba de insulina.

É preciso ter muita sensibilidade para no meio do turbilhão que é o Diabetes Melittus, ajudar aos demais como fazem essas duas meninas queridas…

Olha a ideia das bonequinhas, Marina resolveu confeccioná-las dentro desse contexto, adoro isso, ainda mais quando penso no meu histórico e no quanto estive só em toda essa jornada. Não que não tenha tido o amor e carinho de familiares e amigos, mas porque as sensações que sinto em meu corpo só outro diabético é capaz de entender e deve ser assim com qualquer que seja o diagnóstico. Representatividade. Inclusão. Respeito. Carinho. Tudo isso super importa!!!

Abaixo deixo então sem rodeios o papo que tive, por e-mail mesmo, com a Marina sobre as bonequinhas. E seja qual for o seu problema, ter amigos, bons amigos muda tudo!

Fotógrafa, blogueira e empreendedora, Marina é autora do blog e livro homônimo Diabética Tipo Ruim. Dia 12 acontece a Corrida Online Mundial do Diabetes. Já no dia 13, rola no Parque Vila Lobos, zona este de São Paulo, a partir das 13h, um piquenique organizado pela Marina. Vai acontecer inclusive o sorteio do FreeStyle Libre. E dia 14 a blogueira estará no Rio de Janeiro para uma palestra na Sociedade Brasileira de Diabetes. E na página do Facebook Diabética Tipo Ruim tem muitos textos bacanas, além de muita informação a respeito da MDT1.

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Foto: Nathália Kodato

Moda Sem Crise – Você foi diagnosticada DM1 aos 15 anos, nesta ainda brincava com bonecas? Hoje blogueira você tem contato com muitos diabéticos, crianças inclusive, você sentia falta desse tipo de representatividade?

Marina de Barros Collaço – Fui diagnosticada com 15 anos e por incrível que pareça eu brinquei de boneca até uns 16 anos. Eu amava as barbies, na minha época não eram as princesas que dominavam o mundo, e sim as lindas, magras, maravilhosas e perfeitas barbies. Mas mesmo parando de brincar de boneca eu nunca deixei de “colecionar” brinquedos. Ainda tenho a maioria das minhas bonecas e algumas ainda enfeitam o meu quarto. Eu sempre curti essa coisa de “qual princesa você gostaria de ser?”, sempre analisando qual personalidade é mais próxima da minha. Ano passado comecei a assistir o seriado “Once Upon a Time“, que recria as histórias infantis com um toque adulto, e a trama apresenta problemas mais reais: como a separação do casamento entre a Branca de Neve e o marido, a paixão impossível da Bela com a Fera. Enfim, esse lado lúdico sempre me deixou fascinada, não é à toa que trabalhei quase três anos em uma agência de turismo focada em Disney. Daí veio essa coisa de fazer as princesas diabéticas. Fiz uma Elza pra mim, usando bombinha de insulina, achei aquilo incrível e comecei a oferecer para as pessoas. A aceitação foi tão boa que hoje é um sucesso de vendas da loja. Confesso que 40% das vendas não são destinadas à crianças, e sim a adultos, que como eu, gostam de brinquedos e querem ter a sua princesa diabética favorita na estante do quarto.

MSC – Qual a importância, a ideia, por trás da brincadeira? O que percebe que as crianças sentem tendo do lado uma parceirinha como a Melza?

MBC – As bonecas foram inspiradas em um modelo americano que é usado por médicos e educadores. Uma boneca dessa lá fora custa em torno de R$ 300. E não se pode comprar via internet, o que fecha muito as possibilidades de qualquer criança ter uma boneca assim. Pensando nisso eu criei algo lúdico que vai servir muito de incentivo para os médicos, educadores, e até os pais. Mostrando para a criança que a Melza precisa aplicar insulina pode ser que essa parte técnica e chata da doença fique muito mais fácil de se levar. Quando você vê outras pessoas diabéticas o sentimento de solidão vai embora automaticamente, imagine para uma criança ao ver um brinquedo que usa bomba de insulina também?!

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Foto: Nathália Kodato

MSC – Me fale sobre as bonecas que produz. São feitas sob encomenda? Estão disponíveis na sua lojinha online? Quanto custam em média? Além das princesas, tem bonecos masculinos? Quem são eles?

MBC – As bonecas são compradas de um fornecedor de pelúcias, e eu customizo com as bombinhas, seringas, canetas e medidores de glicose. A pessoa pode escolher qual o tipo de tratamento que elas quer para a nova amiguinha. Na rede das princesas temos: a Elza chamada de Melza, a Ariel chamada de Arimel, a Cinderela chamada de Caramela, a Bela chamada de Bala, a Branca de Neve chamada de Branca de Açúcar e a Sininho chamada de Docinho. E para os meninos temos o Dinossauro Rex chamado de Glicossauro, o Buzz Light Year chamado de Buzzba de Insulina, o Homem Aranha chamado de Homem Glicose, o Hulk chamado de Cookie, e o Woody chamado de Toddy. O preço máximo que eles podem chegar é de R$ 100 e o menor R$ 78, depende do tamanho da pelúcia, e se elas tocam música tema do desenho ou não.

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2 Respostas para "Diabetes Tipo 1: O doce novembro azul"

Novembro Azul: Campanha faz alerta sobre o câncer na próstata — Moda Sem Crise - 12, novembro 2016 às (15:32)

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Respeito à diversidade: Porque representatividade importa sim! — Moda Sem Crise - 10, dezembro 2016 às (11:48)

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