Desde “Um Bonde Chamado Desejo”, filme estrelado por Marlon Brando na década de 1950, em que aparecia exibindo seus músculos vestindo uma t-shirt, que essa peça tem tido merecido destaque na indústria da moda. Ferramenta de discurso, as camisetas são como telas em branco. Silk Screen de frases sérias ou engraçadas, cenas de filmes, desenhos dos mais diferentes formatos, em alguns casos tudo isso junto e misturado. Com certeza você já usou algo talvez para “defender” uma ideia, clube ou apenas para fazer graça…
Fotógrafa e designer, Marina de Barros Collaço, 31 anos, encontrou nesta moda uma forma de estender sua voz para tratar de uma importante causa. Diagnosticada diabética 15 anos atrás, ao voltar inspirada de uma viagem de férias em que esteve nos Estados Unidos, arregaçou as mangas e com a ajuda de sua amiga Thami transportou o novo sonho para a realidade.
Conversei com a Marina a respeito de sua ideia para o Moda Sem Crise. Ela me contou que fora do país ficou fascinada com uma loja de artigos totalmente dedicados ao diabetes em uma galeria que conheceu por lá. E a Marina não falava de itens alimentícios, não. Esses sim comuns em terras brasileiras. “Gastei quase todo o meu dinheiro lá. Voltei pensando, por que não criar uma loja assim aqui no Brasil? Liguei para minha amiga que fazia camisetas para aniversários de crianças, contei sobre a ideia e imediatamente colocamos a coisa no ar”, disse. Bem humorada, ela revelou que a inspiração para a coleção surge de coisas que encontra pela internet, mas algumas frases são pérolas suas, como: somos naturalmente doces. “Eu fico pensando em coisas que eu gostaria de falar para o mundo e transformo em camisetas”, afirmou.
“Eu criei as camisetas apenas porque não existe nada assim no Brasil. E eu acho que as pessoas vestem as estampas por orgulho da doença ou para demonstrar amor a um diabético. Exemplo a estampa ‘Eu amo uma pessoa com diabetes’. Acho que a camiseta dá base a uma parte emocional que a gente nem sabe que tem. Uma camiseta pode transformar muito a vida de alguém com o diagnóstico, sabe?! No Natal vendemos a camiseta ‘Eu amo alguém que tem diabetes’ para toda a família de uma garotinha recém diagnosticada. Eles passaram toda a ceia com a camiseta e a menina se sentiu super amada e começou a aceitar a doença. Isso para mim vale mais do que o dinheiro do lucro, tanto que hoje, 70% da arrecadação é revertida em investimento para novos produtos e novos projetos. Vendemos razoavelmente bem. Queríamos vender bem mais, mas sabemos que é um trabalho de formiguinha. As pessoas que recebem o produto elogiam, postam fotos e acham maravilhoso. Toda essa energia é o que nos mantém no foco para melhorar e criar coisas novas” disse Marina.
O vestuário sempre serviu como um meio de comunicação. O pesquisador britânico John D. H. Downing, no livro Mídia Radical (editora Senac), discute de maneira contemporânea como grupos utilizam essa, entre outras mídias chamadas radicais, para lutar por transformação, em um valoroso estudo sobre mídia, cultura, política, sociologia e jornalismo. Não é de hoje que esse é o papel da moda. Não vejo porque não estampar uma causa legítima no peito!
Sou diabética, assim como a Marina, do tipo 1. E conhecer esse trabalho, me fez olhar para mim. Sabe aquela história de que “a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida”, frase de uma canção de Vinícius de Moraes? Daquelas que poderia inclusive estampar uma camiseta. Pois bem! Penso que esse texto é também sobre desencontros, encontros e reencontros. Não é fácil admitir, mas, tempos atrás me vi diante da minha maior dor, a pior fase. Diagnosticada com depressão precisei ser afastada do trabalho, foram cinco meses de muito “trabalho”: terapia associada a remédios controlados. Não entendia porque a terapeuta insistia em falar sobre a diabetes, enquanto achava que estava tudo bem, que só precisava não dar bola para ela. Era como se meu corpo fosse diabético, mas meu espírito não. Acredite, nem mesmo meus anos de diabetes e de jornalismo me fariam capaz de descrever com tamanha maestria uma crise hiper ou hipoglicêmica, como faz essa moça, minha gente. E ainda não me atrevo. O fato é que eu me recusei encará-la a vida toda. Porque doença autoimune, a diabetes está intimamente relacionada à questões emocionais. Alteração de sono, humor, tudo… E foi assim, perdida em mim que me encontrei. Descobri que estive errada por mais de duas décadas sobre minha vida e meu convívio com diabetes que me acompanha desde 1994. Voltar para o Facebook me fez encontrar pessoas como a Marina. E conhecer esse trabalho que tem não só relacionando a lojinha do diabético, mas a página que ela mantém na rede social Diabética Tipo Ruim onde expõe nem sempre doces relatos, tem colaborado pra que eu me aceite, pra que entenda o quanto preciso cuidar de mim e que a saúde mental tem tudo a ver com isso. E sabemos que como nós, existem tantas outras pessoas, que precisam de apoio também. Vejo uma luz! A moda reflete culturas, grupos, nacionalidades, ideologias. E está também a favor de causas que aprecio… E essa é uma delas. Moda com propósito!
Além das camisetas, há produtos na lojinha como capinhas de celular, pulseira, capa para bomba de insulina, camisetas, canecas, squeezes, relógio. “Não existem produtos assim dedicados ao tema, e eu acho que é por isso que existe essa procura. E eu acho que quando você usa a moda ao seu favor, as pessoas curtem muito mais. Todo mundo gosta de usar alguma coisa que expresse suas ideias e quer algo mais expressivo do que uma camiseta? Usar a bomba de insulina pode ser chato e sem vida, mas usar com uma capinha colorida, charmosa e especial já muda todo o cenário”, afirma.
Muitas pessoas nos perguntam de onde vem a diabetes. Esse vídeo é uma ilustração super bacana que pode esclarecer essa dúvida. O vídeo mostra de forma bem simples o que é o diabetes tipo 1, numa linguagem adequada para crianças. O tratamento é bem diferente do que a maioria das pessoas pensa, ou seja, deve-se basear na reposição de insulina, e não em dieta + atividade física. Ajudem a divulgar esse belo trabalho da Universidade das Crianças, um projeto de extensão da UFMG.
Ainda sobre a conversa com Marina
MSC: Quando e como aconteceu seu diagnóstico? As causas eram conhecidas? Havia histórico na família?
Marina: Aconteceu com 16 anos. Entrei em semi coma pois os sintomas eram “aceitos” pelos médicos e pela mãe como “normais”. Sentia sede e fazia muito xixi, mas eu lutava judo e treinava quase 6h por dia. Naturalmente eu sentia sede e fazia xixi. Comecei a ter uma fadiga grande, mas de novo, sempre fui muito de dormir, então nada de anormal. Não enxergava mais o quadro na escola, mas fui ao oftalmo e ele receitou óculos. Minha mãe e ninguém da família conhecia o diabetes, então nunca desconfiamos. Não tenho casos na família. Foi realmente uma surpresa desagradável acordar depois de alguns dias na UTI sem nem saber o que era diabetes. O primeiro capítulo do meu livro (lançamento em abril) conta detalhadamente os dias antes do coma e como foi acordar depois de dias no hospital.
MSC: Fale um pouco sobre a página Diabética Tipo Ruim, como aconteceu?
Marina: A página surgiu numa madrugada. Eu estava com uma hiper q não me deixava dormir e fiquei no chat com um amigo. Passei a noite explicando pra ele como era a sensação de uma hiper e ele adorou a forma como eu descrevia cada dorzinha e mal estar. Ele me aconselhou a escrever para ajudar as mães de crianças diabéticas, e os namorados e amigos. Eu acredito que meus relatos fazem com que os diabéticos não se sintam sozinhos, mas, ainda mais, que as pessoas não diabéticas consigam ver como é realmente ter a doença.
MSC: Como esse espaço tem te ajudado a lidar com a diabetes?
Marina: Eu brinco que sou outra diabética depois da pagina. Sempre gostei de falar da doença e explicar, mas quando recebi meu primeiro e-mail de agradecimento de uma pessoa que tentou se matar semanas antes de conhecer a página, e que no leito de recuperação do hospital ela estava fuçando no face e achou a página, começou a ler e percebeu que ela poderia sim ser mais forte e conseguir conviver com a doença. Esse relato mexeu muito comigo e desde então são esses tipos de mensagens que me movem e que me incentivam a continuar com o projeto. Hoje acho que minha ajuda, mesmo que pequena, pode e faz diferença na vida de algumas pessoas.
Fatos sobre o Diabetes
- 387 milhões de pessoas têm diabetes; em 2035 este número subirá para 592 milhões (50% de aumento)
- O número de pessoas com diabetes tipo 2 está aumentando em todos os países
- 77% das pessoas com diabetes vivem em países de baixa e média renda
- O maior número de pessoas com diabetes têm entre 40 e 59 anos de idade
- 179 milhões de pessoas com diabetes no mundo não são diagnosticados
- O diabetes causou 4,9 milhões de mortes em 2014; A cada sete segundos uma pessoa morre de diabetes
- O diabetes levou ao gasto de pelo menos USD 612 bilhões de dólares em despesas de saúde em 2014 – 11% do gasto total com adultos em saúde
- Mais de 79.000 crianças desenvolveram diabetes tipo 1 em 2013
- Mais de 21 milhões de nascidos vivos foram afetados pelo diabetes durante a gravidez em 2013
- Na AL&C há 25 milhões de casos de diabetes. Estima-se que 27% dos casos não estão diagnosticados.
- Na AL&C, estima-se que número de pessoas com diabetes aumentará 60% até 2035.
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Que comentário emocionante, Gislene. Só o vi agora. Mas me sensibilizou. Bom saber que temos com quem dividir nossas dores. Bom saber que não estamos sozinhos neste imenso universo. Ás vezes parece mesmo mais fácil fingir. Mas, na realidade, somos o que somos, cada um com suas dores e dificuldades. É sempre um carinho tê-la por aqui! Beijo grande, Marcela <3
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