17 • agosto • 2018

Audiodescrição na moda: traduzindo a linguagem visual em palavras


A palavra moda traz consigo uma bagagem carregada de sentidos visuais. Cores, texturas, formatos, silhuetas. Como torná-los visíveis para aqueles que não enxergam? Como traduzir as imagens de moda em palavras?

Ver com palavras. Esse é o princípio da audiodescrição, uma tradução de imagens estáticas (fotografias, esculturas, pinturas, paisagens) e dinâmicas (eventos, espetáculos de dança, teatro, desfiles de moda, videoclipes, propagandas publicitárias) para quem tem deficiência visual. Se utiliza uma linguagem clara, objetiva e com o mínimo de julgamentos pessoais possíveis, deixando a interpretação para quem utilizar o recurso. O sentido da descrição da imagem segue a lógica da leitura do texto: da esquerda para a direita. E se orienta do geral para o particular.

A audiodescrição nasce nos Estados Unidos da América na década de 1980 e se difunde em espetáculos de teatro, dança e cinemas em todo território americano. Em 1989, o Festival de Cannes disponibiliza alguns filmes com o recurso e abre, assim, caminho para a difusão da audiodescrição por vários países da Europa, e depois, para o mundo.

O mundo se torna cada vez mais imagético, ou seja, orientado pelo sentido da visão. A imagem ocupa o espaço que outrora era do texto. Nas redes sociais compartilhamos, curtimos e comentamos fotos. As imagens estão por todos os lados e o texto já ocupa papel coadjuvante. O sentido da visão se tornou o mais utilizado, e aqueles que acessam as experiências por meio de outros sentidos, pelo tato e olfato, no caso da pessoa com deficiência visual, acabam ficando excluídos.

Segundo dados do World Report on Disability 2010 e do Vision 2020, a cada 5 minutos, uma pessoa fica cega em algum lugar do mundo. No Brasil, as pessoas com deficiência visual somam 6,5 milhões de pessoas (IBGE, 2010). E elas também querem ver as imagens que estão por aí através de outros sentidos, para terem poder de escolha sobre o que desejam consumir, onde desejam frequentar e o que preferem vestir.

Por desconhecimento, falta de convívio ou até preconceito, esquecemos que as pessoas com deficiência visual também se relacionam com a moda, consomem moda e têm seu próprio estilo. Elas precisam ter acesso à linguagem de moda para poderem construir mentalmente as imagens de moda. (Emmanuelle Alkimin, 2017).

Recurso é usado para inclusão na moda – Foto: Reprodução Instagram @oavessodamoda

#PraCegoVer: Print de um post do Instagram do perfil @avessodamoda com a seguinte legenda: Oi! Adoro combinar esse combo de cores, acho que vinho funciona muito com rosa! 💕 #lookdoavessodamoda#botaverniz …………….. #PraCegoVer Mostro meu look na varanda da Casa das Rosas, com o jardim ao fundo. Uso jaqueta bomber rosé, blusa de veludo vinho, com nó na cintura, saia evasê preta, de alfaiataria, bota de verniz preta e bolsa preta. Sorrio! 😘 [Ana]

#PraCegoVer

A audiodescrição é o recurso que possibilita o acesso à linguagem de moda para quem tem deficiência visual. Ela traduz em palavras o universo visual contido nas fotografias, desfiles, editoriais, aproximando aqueles que não utilizam a linguagem visual das tendências da estação, dos diferentes cortes, modelos, estilos, combinações de cores e estampas, para que todos tenham autonomia para se apropriar dos elementos desse universo.

No desfile de moda, o papel da audiodescrição é descrever desde os detalhes do local onde vai acontecer o desfile, a decoração e disposição da passarela, até as cores, texturas, combinações das roupas, movimentos e expressões dos modelos que desfilam. Assim, os expectadores com deficiência visual têm autonomia para criar imagens mentais sobre a proposta das coleções, consigam visualizar as novas tendências da temporada, vivenciando uma experiência completa do evento de moda.

Questão de empatia. Para criar moda inclusiva, o essencial é sentir como seria estar no lugar do outro. Como você se sentiria se fosse cego e também fosse um apaixonado pela linguagem de moda?




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