11 • janeiro • 2018

A revolução do comércio justo começa por nós


Como essa onda de marcas sustentáveis pode influenciar a população carente e sempre tão desfavorecida? Será que o trabalho dessas marcas, que são normalmente pequenas empresas, terá realmente algum impacto positivo na nossa sociedade? Estamos a caminho do comércio justo? Ou a indústria e as grandes fortunas sempre dominarão e terão total controle do mercado da moda?

Acredito que o Capitalismo foi sim importante para a evolução da humanidade. Basta observar a evolução rápida que tivemos a partir da Revolução Industrial até os dias de hoje. Mas, por quanto tempo o capitalismo ainda será o sistema controlador da sociedade? Será que essa onda de empresas conscientes que surgem como uma opção de um capitalismo mais consciente e humano, terão de fato, relevância na sociedade?

Ou será que teremos uma enxurrada de propagandas greenwashing que calarão a boca dos menos informados, como se fossem a solução. E as pessoas continuarão consumindo da grande indústria e de empresas exploradoras, apenas porque elas possuem projetos sociais e ambientais, que muitas vezes nem zeram o próprio impacto que ela mesma causa na sociedade? 

Acredito também que a verdadeira intenção das empresas é apenas continuar ganhando mercado. E se há um público exigente, porque se torna cada vez mais consciente e informado, esse se torna público alvo também. Então a empresa continua com diversas práticas que já possui e cria departamentos novos, voltados pra projetos sustentáveis, afim de demonstrar interesse e responsabilidade, pois para muitos, de fato será o suficiente, mas será que será o suficiente, apenas por enquanto?

Levamos 200 anos desde a Revolução Industrial, até agora, onde, as camponesas tiveram que deixar suas casas para trabalhar nas fábricas têxteis e passaram a ganhar dois xelins – unidade monetária que está ou esteve em uso em muitos países –, ao invés de nove xelins por semana, quando ainda trabalhavam no conforto de seus lares e tiveram que deixar seus filhos trabalharem desde cedo, pois os dois xelins delas já não eram o suficiente, então mães e filhos iam trabalhar para garantir o sustento da família.

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Cerca de 45,8 milhões de pessoas em todo o mundo estão sujeitas a alguma forma de escravidão moderna. A estimativa é do relatório Índice de Escravidão Global 2016, da Fundação Walk Free – Foto: Divulgação MPT

Desde então, existe uma linha muito tênue, mas importante pra sociedade, que foi a evolução industrial. Fomos ficando mais ricos, apesar da diferença de classes ter aumentado, também aumentou o acesso a informação e tecnologia. A sociedade ficou mais rica, mas continuamos tendo uma grande parte da sociedade escravizada e ignorada por todos nós. E digo todos nós, pois, apesar de muitos serem apenas consumidores comuns e não fazerem parte da classe exploradora, consume os produtos gerados por essa classe exploradora e colabora de certa forma pra que a exploração social e ambiental continue ocorrendo, como sempre foi, antes e depois da Revolução Industrial.

E será que essa era de consumo consciente e empresas socialmente responsáveis vai diminuir a diferença entre classes? Eu acredito que haverá sim essa conscientização e mudança de comportamento por parte dos consumidores e empresas, mas ela será ao longo de 100 a 200 anos. E quando essa mudança ocorrer, já não estaremos no Capitalismo, como o conhecemos hoje. Haverá um novo sistema político-econômico que ainda não conhecemos, será um movimento muito mais reformista do que revolucionário (mas que não deixa de ser revolucionário) já que diversas mudanças e direitos foram adquiridos por meio de diversos movimentos sociais, comandados por pessoas revolucionárias.

Vejo que essa mudança ocorrerá e virá de uma mistura da atual burguesia e proletariado que são atualmente os empreendedores donos de bares, mercados, academias, etc. E os profissionais com ensino superior que trabalham em diversas áreas como engenharia, direito, setor têxtil, etc. Ambos, atendendo atualmente, classes mais altas. Os grandes empresários, fazendeiros, altos funcionários do estado, etc. Essas pessoas sairão de seus postos ou os que já empreendem, o farão cada vez mais com viés sustentável.  Outras sairão de seus postos para também abrirem seus negócios com propósito ou levarão seus propósitos para as empresas e tornarão a forma de produzir e consumir algo mais honesto e equilibrado.

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Foto: Pixabay

Isso é o que já está acontecendo com o fair trade (comércio justo – em português) e a economia colaborativa estará mais bem estruturada e concretizada ao longo desses anos.  Esses pequenos empreendedores, artesãos e funcionários, criarão e farão parte de cooperativas e células de auto gestão, onde unirão forças para juntos terem peso político e para lutar por causas nas quais acreditam, sendo assim, de fato agentes de mudanças significativas na sociedade. E uma nova força, que vai além da briga entre operários e empresas, estado e povo, surgirá trazendo força aos que estão e fazem parte, muito mais do povo, do que da classe rica capitalista.

Essa não será uma revolução comunista, pois não se trata de uma divisão igual e absoluta entre as classes e sim de buscar o bem comum aproximando as classes, proporcionando dignidade a todos. Muito menos, será Capitalista, pois o interesse será voltado ao bem estar e não apenas ao enriquecimento.

Portanto, acredito sim, que estamos no caminho certo, porém, a jornada será longa. E apenas nossos netos e bisnetos, terão acesso de fato a essa solidificação do movimento que inspira o comércio justo. Como uma mudança política-econômica que fará parte dos livros de história, assim como hoje aprendemos sobre Capitalismo, Socialismo e outras teorias sócio-ecnonômicas.

E não estou falando da 4ª Revolução Industrial, que está muito mais relacionada a evolução da manufatura digitalizada, oriunda das grandes indústrias, que fará novamente com que as máquinas substituam cada vez mais postos de trabalho. E sim, de uma revolução contrária, que cresce no mesmo período, só que oriunda dessa mistura das classes não dominantes.

Somos parte embrionária dessa revolução que o movimento fair trade trará. Que ganha força com suas cooperativas e movimentos sociais, unidos afim de garantir métodos de produção capazes de incluir as classes mais pobres, diminuindo as diferenças sociais, distribuindo melhor o dinheiro que está na base, com a própria base. E não o produzindo na base e fazendo ele circular pela indústria.

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Foto: Google Imagens

Seremos um corpo social muito parecido com o período Pré-Revolução Industrial. Com a diferença de termos muito mais acesso a informação e termos as máquinas da evolução digital, a nosso favor, como as máquinas de impressão 3D por exemplo, que nos possibilitam criações que antes estavam somente na mão da indústria. Dessa forma, artesãos que serão novamente valorizados poderão atender uma demanda muito maior do que o artesão da Pré-Revolução Industrial, tornando assim, seu negócio rentável e viável.

E uniremos a tecnologia ao fazer manual, produzindo produtos muito diferenciados em comparação aos da indústria, pois terão em sua essência criatividade e características que só o intelecto humano pode trazer a um produto.  E isso irá em contrapartida a chamada 4ª Revolução Industrial, que padronizará ainda mais os produtos massificados, apesar de tentarem gerar experiências de personalização também com utilização de máquinas digitais, sofrerão com as quedas nas vendas e terão que se reinventar, mesmo que seja produzindo menos e de forma mais sustentável e personalizável, agregando valor ao produto final para ter mais rentabilidade.

Tudo isso já está acontecendo? Sim. Mas como disse, ainda em fase embrionária. Portanto, vamos nos fortalecer ao longo dos anos e seremos a voz de milhares de pessoas que atualmente compram e cooperam com a grande indústria. E seremos a voz de milhares de pessoas que são exploradas por essa mesma grande indústria. Seremos um grande coletivo. Deixaremos de ser nicho para fazermos parte da rotina e novas formas de consumo das pessoas. Tomaremos grande parte do mercado de massa. E nos tornaremos um grande organismo feito por diversos empreendedores, mas até lá, ainda teremos que entrar com força no âmbito político.

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Monique Brasil

Monique Brasil

>>> Monique Brasil é graduada em Design Digital pela Universidade Metodista e tem formação pedagógica em Artes pela Faculdade Paulista São José. Sua experiência profissional inclui criação e gestão de marcas. Especialista em branding, por quatro anos transitou entre as áreas de Trade Marketing, em multimarcas de bens de consumo. Mas foi com a moda e, principalmente, com os calçados, que se encontrou profissionalmente. Formada também em Desing de Calçados pelo SENAI, a artesã é proprietária da Rabble, marca de calçados com foco no uso de resíduos. O projeto valoriza o comércio justo e a sustentabilidade. E é seu objetivo conscientizar pessoas sobre produção e consumo. Aqui no Moda Sem Crise, Monique assina a coluna Sapateirar de publicação mensal. Espaço onde compartilha sua jornada como consumidora e empreendedora no mercado brasileiro de moda. Fale com a Monique | E-mail: rabbleshoes@gmail.com



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