A pia e porque ela é o meu divã — Moda Sem Crise
17 • novembro • 2017

A pia e porque ela é o meu divã


A PIA MEU DIVÃ – Se você soubesse o tempo que demorei para escrever o expediente você não acreditaria, como eu mesma não acreditei – logo eu que tenho facilidade com as palavras.

Escrever o “expediente” – essa descrição que aparece no final de toda coluna – é basicamente dizer quem eu sou e porque estou aqui fazendo parte desse grupo seleto de mulheres – mulheres que vivem esse universo da Moda, aliás da Moda Sem Crise.

Não sou da área. Não entendo de moda. Sou apenas alguém que consome roupas, quando as encontra do tamanho que sirva.

Mas definitivamente não é este o motivo que transformou o texto a ser escrito em uma crise existencial. Responder as perguntas “quem eu sou? por que estou aqui?” isso sim foi o gatilho para a crise. 

 Se analisarmos bem responder a essas duas perguntas é também uma maneira dizer porque vale a pena ler a coluna, o “quem eu sou” de certa forma legitima o que tenho a dizer. O meu lugar de fala é também um convite.

O problema é que o lugar do qual eu falo provoca em mim certo desconforto. Ele coloca em xeque verdades antigas, questiona novas verdades e muitas, muitas vezes faz eu sentir vergonha de mim mesma.

Dizer quem eu sou esbarra na verdade nua e crua de que eu, atualmente, não sou ninguém. (Calma, não se assuste, é só continuar lendo que você vai entender melhor o drama).

Mulher colombiana no divã do chileno Matias Marales

Mas, uma coisa é essa angustia ser vivida somente entre eu e eu mesma. Outra coisa, completamente diferente é gritar para o mundo ouvir que embora eu tenha títulos acadêmicos eu não sou mais uma profissional da área. Na verdade, eu nem trabalho. Logo, eu sou ninguém.

Assumir essa verdade profissional é tão complicado que já tive até pesadelo. Sonhei com a escrituraria do tabelionato perguntando qual era minha profissão e eu parada olhando para ela sem saber o que responder, sentindo uma asfixia tomando conta de todo meu corpo… porque a realidade é essa: toda vez que me perguntam quem eu sou, sinto meu rosto corar, uma vontade de sumir e dentro de mim aquele rebuliço.

E você pode estar se perguntando: mas qual o problema?

Bem, eu trabalhei na minha área desde os 18 anos. A vida toda estudei e trabalhei visando um único objetivo: ser uma historiadora – professora e pesquisadora – reconhecida no campo. Eu comia, bebia e respirava o mundo acadêmico.

Mas, hoje a realidade é outra.

_ Eu sou dona de casa!

Pronto, falei.

Ahh como foi difícil “desembuchar” essas três palavras: dona – de – casa!!!

Enquanto eu rabiscava o texto para o tal expediente “floreei” bastante. Só faltei anexar meu currículo com todas as minhas publicações, participações em congressos e afins. Tudo isso para certificar que a colunista aqui é alguém com know how de alguma coisa.

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Google Imagens

Mas, o meu currículo acadêmico não diz muito sobre quem eu sou. Fala mais do que eu já fiz. E para ser verdadeira e gentil comigo mesma e com quem irá ler a coluna precisei assumir esse lugar: a de dona de casa – a do lar.

Eu sempre trabalhei e por mais que eu acreditasse que poderia ser o que eu quisesse, quando me vi sem “trabalhar” me vi também atravessada por estereótipos, por verdades, por impressões, por opiniões, por sentimentos que eu não cultivei, mas que reverberam aqui dentro de forma tão devastadora ao ponto de eu me ver lançada em um mar revolto: vergonha, inferioridade, cobranças, justificativas, inadequação.

E sentir tudo isso é um mar de contradição, não? Afinal de contas como explicar que uma intelectual, culta, cabeça aberta, espírito livre etc. e etc; se sentisse ultrajada ao ter que confessar: “não moça, eu não trabalho”; “não, não… pode deixar esse espaço em branco, porque eu não trabalho”.

(…)

No dia que defendi a minha dissertação lembro de uma das professoras da banca ao se despedir e me parabenizar, dizer: você sabe que seu lugar é aqui né? Ela se referia à academia, à universidade, à pesquisa. Na época eu sorri como quem concorda com a afirmação. Mas não, não foi bem isso o que aconteceu.

Depois desse dia voltei para a universidade uma única vez e então, 180° de mudança. Tornei-me babá e cuidei de duas crianças por quase quatro anos. Depois casei. E hoje faz quase oito anos que não dou aula e não atuo como pesquisadora.

Apresentei um trabalho aqui, outro lá. Escrevi alguns textos. Mas nada que desse alguma estrelinha ao meu lattes. Sou dona-de-casa. Para desespero geral da nação que mora dentro de mim.

Ironicamente essa condição, que é também uma escolha, foi o que me lançou de volta aos textos e livros acadêmicos. Quem papel é esse da dona de casa? Por que me sinto tão mal ao ocupá-lo?

Embora eu não trabalhe como assalariada, porque vamos ser honestas cuidar de casa é um trabalho, que o diga sua diarista, “né não”?, eu continuo sendo um ser pensante. A voz da historiadora que habita em mim não se cala nem por decreto.

No meio da louça, diante da pia cheia é que me vejo analisando a vida. A minha vida, a vida das mulheres e dos homens, das crianças. A rotina. O cotidiano.

Alguns discursos me provocam de tal maneira que logo depois de limpar a cozinha sento diante do computador em busca de artigos acadêmicos sobre as empregadas domésticas; o espaço privado x espaço público Nem mesmo a comida passa despercebida. Já encontrei pesquisas belíssimas sobre a relação que estabelecemos entre nossos hábitos alimentares e a história do corpo. E faz alguns dias me vi lendo um artigo sobre liberdade de expressão publicado na revista da Faculdade de Direito da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

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Foto: PIxabay

Eu preciso fazer isso. Porque quando historicizo o que me cerca, eu encontro sentido. Encontro o caminho para micro revoluções diárias. Encontro formas de reinventar o olhar sobre mim mesma e sobre o outro. Quando me volto a história, a filosofia, a fim de resolver os meus dilemas eu descubro mais de mim, mais de nós – as mulheres.

Eu escolhi ler e estudar como caminho para desconstruir os estereótipos que me sufocam. E toda nova descoberta eu transformo em algum rabisco, esquema, anotação, crônicas. E guardo no meu caderno de estudo, no meu diário. A esse conjunto de textos eu dei um nome: a pia, meu di. Um título para o meu segredo.

Quando ame convidou para ser colunista do Moda eu já sabia sobre o que gostaria de falar: cotidiano, mulheres, histórias. Faltava dar um nome, faltava um tanto de coragem para escrever. E ao quando consegui terminar de escrever o tal “expediente” eu só tinha uma certeza: isso aqui tem que ter o nome de pia.

E por isso, “somente” por isso, eu não poderia terminar essa nossa prosa sem dizer:

_Prazer, meu nome é Fabiana, eu sou dona de casa. Muito do que você vai ler por aqui nasceu enquanto eu lavava a louça, varria o chão, passava a roupa, tomava um café da tarde depois de um dia inteiro na cozinha e preparando o cardápio da semana.  Sejam todos bem-vindos!

Dica da autora: Além de cuidar da casa, pensar e escrever, eu leio. Eu amo textos e amo o que eles produzem dentro de mim. Amo a capacidade que a palavra escrita tem de mergulhar no mais profundo do “eu”, trazendo à tona mais de mim. E gosto de compartilhar o que leio, na esperança de que o outro possa também viver essas experiências literárias – libertárias. Assim, cada coluna terá como acompanhante uma sugestão de leitura. E para começar, vos apresento o meu conto favorito, escrito por Clarice Lispector: Felicidade Clandestina. Você pode encontrá-lo no livro de mesmo nome, ou navegando pela internet. Por que esse conto? Meu coração acelera e eu me emociono só de lembrar desse texto. Ele me marcou de maneira tão intensa… Por que Clarice? Autora predileta. Sua escrita me encoraja a continuar pensando sobre a vida.

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