08 • fevereiro • 2017

‘Pão é amor entre estranhos’


MESA CORRIDA – O telefone tocou na manhã de quinta-feira e veio o anúncio de uma visita ‘inesperada’ para o almoço do domingo seguinte. Do lado de cá da linha, a voz trêmula e o sorriso amarelo no consentimento do evento era resultado de um misto de surpresa e insegurança.  Afinal, histórias do passado e a falta de intimidade fazia da presença do pai biológico (recém-aparecido quando a filha já somava 40 anos de idade) um momento um tanto embaraçoso. E na cozinha dela, então, que é lugar de quem é de casa, o incômodo parecia tomar proporções maiores. Mas o encontro era necessário, pois fazia parte das suas novas regras de convivência.

Para ela, um almoço de obrigação. Um tipo daquele narrado por Clarice Lispector, em A repartição dos pães. Toda família ali presa, “como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos”.

Só que como a dona da casa do conto de Clarice, a nossa anfitriã parecia disposta a não perder o dia, tampouco a oportunidade de comunhão. Cozinhou sua especialidade, fez galinha para agradar o conviva e abusou dos aromas e cores de frutas e legumes. “A mesa fora coberta por uma abundância solene”. Claramente, não era refeição para quem sente incômodos, “era uma mesa para homens de boa-vontade”. Aquela mulher, dava o melhor de si, não importava a quem.

E com tudo aquilo existindo diante de todos, era hora de comer. “E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa”. E, “aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-los. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas”.

Comemos, comungamos e “a comida dizia rude, feliz, austera”. E enquanto comíamos e repartíamos, como em oração, também desatamos nós de uma vida vivida. Ao que parece, Clarice sempre teve razão, “pão é amor entre estranhos”.

Galinhada com pequi e quiabo tostado

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Ingredientes:

500g de sobrecoxa de frango – 1 cebola pequena – 2 tomates pequenos – 1 dente de alho – 100g de pequi em conserva – 50g de creme – 300g de arroz – 1litro de caldo de frango – óleo – pimenta de bode –  alecrim – salsinha – cebolinha – sal – pimenta do reino – 100g de quiabo

Modo de preparo:

Com o auxílio de um mixer, prepare uma pasta com o creme de leite e 50g do pequi, tempere com alecrim e salsinha, e reserve. Tempere as sobrecoxas limpas, desossadas com sal e pimenta do reino. Numa panela bem quente, coloque um fio de óleo e sele o frango até ficar douradinho. Retire da panela, desfie e reserve. Na mesma panela, refoque a cebola, o alho e os tomates picados, e o restante do pequi em pedaços. Adicione o frango que estava reservado, a pasta de pequi previamente preparada e pimenta de bode a gosto. Junte o arroz e o caldo de frango já aquecido. Acerte o sal. Tampe a panela e cozinhe em fogo baixo até o arroz cozinhar. Desligue o fogo e adicione cebolinha. Quiabo tostado: Corte o quiabo ao meio no sentido do comprimento. Aqueça uma chapa ou frigideira antiaderente. Coloque as fatias até que dourem.

+ Suellen é autora do blog “Encontrei Babette“ onde publica crônicas recheadas de conceitos gastronômicos e experiências gustativas com uma boa pitada de poesia.

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Suellen Andrade

Suellen Andrade

>>> Mineira, amante de bolo, café e um dedo de prosa. Jornalista e gastrônoma, ambos por formação e paixão. Suellen Andrade trabalhou como repórter e editora de TV e jornal impresso. Também atuou na área de assessoria de comunicação até descobrir seu lugar na cozinha. Ao lado da mãe, doceira e inspiração, comandou a Feito de Açúcar, ateliê de bolos e doces, em Juiz de Fora (MG). E em São Paulo se dedicou à Padoca do Maní. Autora do blog “Encontrei Babette”, Suellen foi também colaboradora do Moda Sem Crise, e em 2017, assinou a coluna “Mesa Corrida”.



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