HDA Models: Agência de modelos negros é símbolo de resistência no universo da moda — Moda Sem Crise
17 • abril • 2017

HDA Models: Agência de modelos negros é símbolo de resistência no universo da moda


MODA – Quando Helder Dias deixou sua cidade natal, Alagoinhas, no interior da Bahia, rumo a cidade de São Paulo, no Estado paulista, sequer imaginava o que o destino lhe reservava. Fundador da HDA Models – agência com casting formado 100% por modelos negros – desde 2000, o empresário tem propagado a proposta de valorizar a formosura negra nos segmentos da moda, beleza e publicidade. Em uma manhã de sábado de março, Dias recebeu o Moda Sem Crise para um bate-papo. A agência localizada em Pinheiros, zona oeste, é a única dedicada exclusivamente ao público afro-descendente no Brasil. Durante a entrevista, o afroempreendedor falou sobre os desafios de fomentar a beleza negra em um país ainda repleto de preconceito. Sobre o trabalho social que faz em sua agência e sobre o projeto Aquarela Sustentável.

O incentivo que precisava para dar o pontapé inicial em sua carreira no universo da moda, Dias encontrou dentro de casa. Sua irmã, Rai Dias, é apontada por ele como sua musa inspiradora. Depois de trabalhar por dois anos como modelo, em Salvador, Dias se tornou professor de passarela. E até que desembarcasse em São Paulo, todo o seu trabalho era desenvolvido em torno de Rai. “Em 1996, surgiu a Revista Raça Brasil. E a agência New Company fazia o primeiro concurso de modelo de beleza negra. Eu queria inscrevê-la no concurso, mesmo a contra a vontade dela. Ela dizia que não porque dizia que não aprovariam negras de lábios grossos e nariz grande. Mas a inscrevi. Ela foi uma das selecionadas. Viemos para São Paulo. E ela ficou em 3º lugar”, relembra.

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O baiano Helder Dias, o fundador da HDA Models, única agência de modelos negros no Brasil – Foto: Helder Dias / Facebook

Toda experiência com a beleza negra rendeu a Dias trabalhos na Capital paulista. Durante os três primeiros anos, esteve em uma agência buscando e valorizando modelos negras. Mas, no ano 2000 essa agência fechou. Pouco depois, ao emplacar um casting em uma campanha de uma importante marca foi pressionado a criar uma agência para seguir com os trabalhos. Em 21 de setembro do mesmo ano, nasceu a HDA – sigla de seu nome Hélder Dias de Araújo. Em janeiro de 2001, teve início a história da maior semana de moda da América Latina, a São Paulo Fashion Week. “Na primeira edição da SPFW já tínhamos uma modelo desfilando. Mas neste mesmo ano aconteceu o ataque às torres gêmeas [World Trade Center em Nova York, EUA, em 11 de setembro de 2001]. E tive que fazer mágica para manter o negócio de pé. Em 2002, Vanessa Beecroft, artista plástica italiana erradicada nos Estados Unidos veio ao Brasil fazer uma performance chamada VB50, onde iria expor na 25ª Bienal de Arte de São Paulo, 50 mulheres nuas, 25 delas brancas e 25 negras. O produtor me procurou. E consegui. Cada uma das 25 modelos ganhou R$ 5 mil, me pagaram 30% e a partir daí comprei um computador, uma mesa e as coisas começaram a deslanchar”, conta Dias, que até então vivia em um apartamento de favor.

Em 1946, Ophelia DeVore teve a mesma intuição. Americana com raízes africana, francesa e alemã, Ophelia, que nasceu na Carolina do Norte, em agosto de 1922, começou a modelar aos 16 anos. Anos mais tarde, frequentou a Vogue School of Modeling, em Nova York. E em 1945 após ser capa da revista Ebony, publicação norte-americana dedicada ao público afro-descendente, viajou para a Europa. De volta aos EUA, fundou a The Grace Del Marco Agency – primeira agência americana a trabalhar exclusivamente com negros. A modelo norte-americana Helen Williams, as atrizes Diahann Carrol e Cicely Tyson e o ator Richard Rountree. Já entre os clientes havia a empresa cervejeira Budweiser, a Bulova, empresa de relógios de pulso, e a Johnson & Johnson, empresa especializada em utensílios médicos, produtos farmacêuticos e de cuidados pessoais.

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Helder Dias com parte do casting da HDA na Casa do Povo – Foto: Divulgação HDA Models

Dias conhece de perto as lacunas do universo da moda que, como por obrigação, vem escalando alguns homens, mulheres e crianças negras para campanhas, desfiles, editoriais e publicidade. O afroempreendedor apostou e aposta em um segmento que a essa altura do campeonato deveria estar devidamente consolidado. Mas em um Brasil tão diverso, falta representatividade. “O mercado em que atuo falta negros e diferentes posições. Quem tem interesse em trabalhar neste segmento, precisa investir em educação, buscar capacitação para que tenhamos mais profissionais e, consequentemente, representatividade dentro deste mercado. Desde quem seleciona, quem cuida da sua pele, de seu cabelo. Não se trata apenas da falta de modelos negros”, afirma.

Para Dias, na maioria das vezes, o mercado não está preocupado em exaltar o modelo negro. E sim preocupado com o discurso, com acontecimentos contemporâneos. “Se é o que o planeta está dizendo a respeito e ele não quer ficar de fora. Diversidade como tendência é algo totalmente comercial. Penso que quanto mais negros profissionais e engajados tivermos fazendo acontecer, mais equilibramos e vamos observar que os profissionais estão lá porque são bons e não porque o mercado está preocupado em mostrar que está fazendo a coisa certa e politicamente correta. Em 2008 teve a questão das cotas na moda. Eu não estava envolvido em nada disso, na época estava na Europa.” Já no Brasil, Dias chegou a ser intimado a depor. “Fui depor para dizer que realmente o mercado não contratava modelos negros – que não havia apoio de ninguém. Fui lá defender a inclusão.”

Em maio de 2009, o Ministério Público de São Paulo firmou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com a organização da São Paulo Fashion Week exigindo que ao menos 10% dos modelos contratados para os desfiles fossem negros, com multa prevista de R$ 250 mil caso houvesse o descumprimento.

Dias que na ocasião afirma ter sido boicotado. “Repetiam os modelos e me diziam que na minha agência não contratariam ninguém. Amarguei essa história”, relembra. Mas sua a luta por representatividade e inclusão, mesmo diante de todas as barreiras, segue adiante.

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Modelos do elenco da HDA na última edição da SPFW nº43, em março de 2017, no desfile da Lab Fantasma do Emicida – Foto: Agência Fotosite

Os desafios sim são muitos. Mas há um caminho à espera para ser percorrido. E Helder Dias se diz totalmente disposto a batalhar. Para o afroempreendedor, a moda brasileira ainda peca na falta de originalidade. “Somos um país tão miscigenado, tão rico de informação e cultura e os responsáveis por ditar moda não percebem o quão grande é nossa história e valor. E nas passarelas os negros são sempre minoria. A desculpa é sempre a mesma: a estação é X e a pele negra é quente. Mas quando existe uma reivindicação, como houve no Oscar onde os negros começam a impor suas posições, aqui no Brasil começamos a sentir seus reflexos. Falta muito. Mas vejo também que avançamos. Precisamos nos unir. Precisamos que um ajude o outro dentro do seu segmento. Com isso podemos fortalecer e fazer do Brasil um país melhor para todos nós. Tudo o que conseguimos tem sido com muita luta. Meu projeto para esse ano e para o resto da minha vida é ganhar o mundo. Fazer as pessoas felizes e deixar um legado. Eu digo para o negro que nós podemos. Precisamos ter coragem, fé, perseverança porque o mundo é nosso!”, completa.

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Modelos durante a última edição da Casa de Criadores, em novembro de 2016, em São Paulo – Fotos: Agência Fotosite

Desconstruir para reconstruir

Todo mês a HDA Models é procurada por pessoas com o mesmo objetivo: fazer um book fotográfico para conseguir agenciamento e dar início à carreira de modelo. Mas, a rotina da empresa que atua exclusivamente com homens, mulheres e crianças negras inclui formar cidadãos. Antes mesmo de partir para a produção das fotos, os interessados precisam passar por um Curso de Modelos, com carga horária de 120 horas e 12 disciplinas: Postura, Passarela, Etiqueta Corporativa, Ética, Maquiagem, Teatro, TV e Vídeo, Fotografia, Mercadologia, Higiene de Pele, Produção de Moda e Legislação do Trabalho. “Aqui o que fazemos é desconstruir para depois reconstruir. Sou apaixonado por meu trabalho. Eu desejo o meu dia de aula”, afirma Helder Dias.

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Proprietário da HDA ensina pessoalmente os inscritos no Curso de Moda da agência – Foto: Divulgação HDA Models

A agência conta atualmente com um casting de 200 modelos. Mas para chegar onde estão, todos passaram pelo curso que serve de preparação para o mercado de trabalho e para a vida.

“A preocupação da HDA não é apenas preparar o modelo para ser modelo. O que propomos fazer aqui é contribuir para prepará-los para a vida. Para que se tornem bons cidadãos. Para que se tornem também bons profissionais. Então, quando o candidato chega com a intenção de ser modelo e seguir com a carreira, ele é apresentado ao curso. Os preparamos para o mercado enfatizando suas habilidades”, explica Arlen Gomes, professora da disciplina de Etiqueta Corporativa.

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Aula de Etiqueta Corporativa com a professora Arlen Gomes – Foto: Helder Dias

Segundo Arlen, a intenção é que o candidato entre para o curso como uma pedra bruta pronta para ser lapidada. “O nosso trabalho aqui é como o do garimpeiro”, completa.

Pouco antes completarem o cursos os alunos são submetidos a um trabalho de conclusão. E no final da jornada, com o certificado em mãos, podem solicitar o registro profissional no Sindicato dos Artistas Técnicos de Espetáculos do Estado de São Paulo (SATED/SP).

O curso é ministrado no Espaço Cultural HDA Models, em Pinheiros, zona oeste. O local que é endereço da agência de modelos serve ainda para a realização de workshop, sarau, palestra, entre outros eventos.

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Casting da HDA Models conta com cerca de 200 modelos – Foto: Helder Dias

Aquarela Sustentável propõe reflexões e provocações

O Espaço Cultural HDA Models funciona também como uma espécie de galeria e abrigo do projeto ambiental Aquarela Sustentável. Espalhadas pelas paredes há molduras em que o quadro se completa a partir da intervenção de quem frequenta o lugar. “Há orifícios nas molduras. E dentro há materiais recicláveis [como tampas de garrafas e lacres de latas de refrigerante]. A ideia é que as pessoas depositem esses materiais, completando a arte”, explica o idealizador Helder Dias ao apresentar para a equipe do Moda Sem Crise todo o espaço. Os banheiros também contam com o toque de modernidade e exemplos de ressignificação. Suas portas, revestidas de madeira de caixotes de feira tem como maçanetas desempenadeiras, equipamento utilizado na construção civil.

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Projeto propõe reflexões e provocações – Fotos: Aquarela Sustentável / Instagram

O projeto nasceu com a proposta de informar e despertar a consciência para questões envolvendo a preservação do meio ambiente, por meio do universo da moda. “As intervenções urbanas visão despertar e estimular as pessoas sobre os cuidados e das responsabilidades que todos devemos ter com a coleta do lixo, consumo desordenado, desperdício e qual o destino que devemos dar ao lixo produzido todos os dias, sem o mínimo de cuidado e controle em nossas casas”, explica Dias.

A primeira intervenção aconteceu em 1997, na Ponte das Bandeiras, região central de São Paulo. A performance intitulada “Recicla Tietê” chamava a atenção para as condições do poluição rio. “O tempo passou e durantes estes anos foram várias as manifestações pela cidade, visando levar consciência através da arte sustentável com o intuito de abranger o maior número de pessoas com esse conteúdo informativo e provocativo.”

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Em março de 2013 Hélder Dias usou protestou contra o desfile de Ronaldo Fraga que levou para a passarela da SPFW modelos usando perucas de palha de aço em suas cabeças. Dias por sua vez usou o mesmo material na confecção de roupas – Foto: Divulgação HDA Models

A proposta inclui o desenvolvimento de roupas exclusivas a partir de objetos descartados. Com isso além de mexer com a imaginação, causar reflexão existe o objetivo de provocar. “Para que as pessoas pensem que existe beleza em tudo sem a necessidade de poluir e destruir o planeta com ações predatórias e assim passem a observar formas de criação dando um destino criativo ao lixo.”

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Dois anos antes, Hélder Dias fez um desfile em frente ao prédio da Bienal do Ibirapuera antes do início do primeiro desfile da SPFW. A ideia era chamar a atenção para a questão ecológica na moda – Foto: Hélder Dias

Em 21 de setembro de 2016, em comemoração ao aniversário da agência HDA Models, Helder Dias e seus companheiros de projeto, o designer gráfico Rodrigo Kenan e a costureira e modelista Margarete Soares, promoveram uma nova ação. “Saímos de São Paulo bem cedo com 46 modelos e parceiros, rumo a cidade de Itapira, interior do Estado paulista, local escolhido para a realização da ação e plantio de 50 mudas de Ipê, na fazenda Pixoxó de plantação de girassóis. Os proprietários nos cederam uma terreno árido para revitalização e arborização”, finaliza Dias.

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Ação envolveu 46 pessoas, em uma fazenda de Itapira, grupo plantou 50 mudas de Ipê – Foto: Cida Agnes

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