FATOS E DEVANEIOS – Quando eu era criança, um casal de vizinhos com gostos completamente diferentes dos da minha mãe me emprestava CDs de cantores e bandas que nunca eram ouvidos em casa. Quando peguei o do Renato Russo, com músicas em italiano, fiquei encantada e o ouvi por dias e dias. Já o do Engenheiros do Hawaii, que hoje me agrada, do alto dos meus 11 anos, achei um tédio. Devolvi dizendo que não havia gostado e os vizinhos acharam graça na minha espontaneidade.
Lembrei-me desse episódio um dia desses, ao ouvir uma música da banda. Eu não havia gostado não por conta do estilo musical, mas pelo fato de que as letras não faziam sentido algum para mim, dada a minha falta de bagagem sobre questões sociais, políticas, afetivas e etc..
Aconteceu algo semelhante quando, aos 13 anos, peguei emprestado com uma amiga da escola o livro O Diário de Anne Frank. Fascinavam-me as histórias de pessoas que lutavam contra o nazismo ou que simplesmente tentavam se salvar da perseguição que acabou em um genocídio.
Foram várias tentativas, mas a leitura não fluía. Então, resolvi devolver. Anos mais tarde, já adulta, comprei o livro. Folheando e lendo alguns trechos, pude refletir sobre o motivo da leitura não ter acontecido antes.
Eu não estava pronta para essa leitura na época do meu primeiro contato com o livro, pelos mesmos fatores que me impediram de compreender a profundidade de algumas letras de Engenheiros do Hawaii. Eu poderia até concluí-la, mas não absorveria o que ela oferecia.
Foi assim com Clarice Lispector. Tive contato com sua leitura, tão visceral, na adolescência. De um encantamento por sua obra, tornei-me uma apaixonada. Mas, somente depois de alguns anos, relendo textos dela, eu os compreendi melhor e, alguns, ganharam outra interpretação. Acho, inclusive, que daqui dez anos, farei novas leituras sobre os mesmos escritos.
Experiências simples assim, quase banais, mostram questões curiosas sobre o tempo na nossa vida. Será que temos um tempo para tudo?
Acredito que sim. Temos fases nas quais nos sentimos mais preparados para entender e agir a determinados aspectos das nossas vivências. O tempo traz maturidade. O tempo nos forja. Cada um tem o seu, que está atrelado à história de vida.
Ainda que captemos algo de fatos, situações ou informações às quais somos expostos involuntariamente, muito provavelmente o grande insight venha só depois e de forma inesperada.
Uma conduta que tenho assumido diante da vida é: se não estou entendendo o que está se passando, espero, penso, avalio. Se não cheguei às respostas, é porque o tempo delas ainda está por vir – e na dinâmica em que vivemos atualmente, é como andar na contramão, já que vivemos na sociedade do imediatismo.
A meu ver, isso vale para tudo. E quando entendemos que tudo tem seu tempo, inclusive a compreensão de características pessoais e a forma como agimos, aprendemos a dar esse tempo a nós mesmos.
+ Deisy é autora do blog “Diário de uma Aprendiz de Bellydance“, em que publica reportagens, entrevistas e crônicas sobre o universo da dança do ventre, arte para a qual tem se dedicado há dois anos e com muita paixão.
Texto maravilhoso! Estou passando por esse momento, nas muitas metamorfoses da nossa vida. Amadurecer não é facil. A responsabilidade pode ser um peso, um fardo…
Seu texto me fez refletir muito…
Parabéns!!!
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Muito obrigada, Fabiana. Fico feliz que meu texto tenha contribuído com suas reflexões sobre essa fase. Um grande abraço!
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