MODA – Em 2004, Prudence Kalambay foi coroada Miss Bibile – que significa mulher bonita – de Kinshasa. Representando a cidade da República Democrática do Congo, a modelo soube aproveitar o reconhecimento para colocar em prática o desejo de criar uma ONG para atender e ajudar mulheres abandonadas com filhos. Mas o projeto acabou sendo considerado subversivo pelo governo de seu país, o que a obrigou deixar para trás não só sua casa, mas seus sonhos. Acolhida no Brasil, onde vive desde 2008, a congolesa recentemente reencontrou a passarela atendendo ao convite de duas alunas de um curso técnico de Modelagem do Vestuário. O que desde então tem despertado em Prudence pensamentos adormecidos. Porque a moda que nos inspira tem dessas.

A modelo congolesa Prudence Kalambay durante desfile da coleção Hybrid de Daniele Araujo e Gisele Lima – Foto: Bruno Feitosa
“Fiquei tão feliz com o convite. Na minha terra participava de desfiles, fui Miss, mas precisei deixar tudo por causa de problemas políticos”, relembrou Prudence que grávida e com uma criança para criar pediu ajuda ao governo congolês, mas encontrou o apoio que precisava apenas em opositores ao regime local, o que agravou sua situação. Na década de 1990, a República Democrática do Congo passou por três guerras civis – 1993, 1997 e 1998. E lá, a maior parte da população ainda sofre com problemas políticos, econômicos e sociais, além de conflitos armados. Sair do Congo, em 2008 – assim como tem acontecido hoje com tantos outros conterrâneos de Prudence – era uma questão de sobrevivência. Em 2016, o Brasil reconheceu um total de 9.552 refugiados de 82 nacionalidades, de acordo com dados do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE) do Ministério da Justiça e Segurança Pública. E a República do Congo figurou a lista dos três países com maior número de refugiados reconhecidos no Brasil, em 2016, ficando atrás apenas da Síria. Só para se ter uma ideia, ano passado, o país acolheu 326 sírios e 189 congoleses.
Nos idos 2008, do Congo, Prudence partiu para a Angola, antes de desembarcar no Brasil em uma viagem nada fácil. “Na Angola tive a sorte de desfilar. Mas como meu objetivo era sair da África, vim para cá. Mas nunca deixei de acreditar no meu sonho”, contou a congolesa que hoje, aos 36 anos, mãe de cinco filhos, se diz surpreendida pela vida. Apoiada pelo Centro de Referência para Refugiados – Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, foi indicada para o desfile da coleção Hybrid de Daniele Araujo, 33 anos, e Gisele Lima, 41. “Há no Brasil muitas mulheres congolesas lindas, mas o Nilton da Cáritas lembrou de mim. Ele sabia que era meu sonho e que ia adorar participar. Ele me ligou e topei na hora. Pensei que poderia não dar certo por ter engordado, por ser mãe de cinco filhos. Mas recebi força da Dani que me disse que o padrão e a moda mudou. Isso levantou minha autoestima. Muita gente pode pensar que foi algo simples, mas não para mim. Me fez lembrar de tudo o que fiz tempos atrás. Eu gostei. E em minha comunidade estão todos felizes”, contou Prudence.
O drama vivido por Prudence e que tem afetado milhões em todo o mundo serviu de inspiração para Daniele e Gisele que desfilou durante a apresentação Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da Escola Técnica Estadual (ETEC) Carlos de Campos, a coleção Hybrid. Segundo relatório divulgado este ano pela ACNUR – Agência da ONU para Refugiados – em todo o mundo, o deslocamento forçado causado por guerras, violência e perseguições atingiu em 2016 o número mais alto já registrado, ao final do ano, o número era de cerca de 65,6 milhões de pessoas forçadas a deixar seus locais de origem por diferentes tipos de conflitos – 300 mil a mais em relação ao ano anterior.
“Quando começamos o semestre passado, os professores pediram que pensássemos no TCC. Os professores explicaram o tema principal. A ideia era que buscássemos uma tendência, que estivéssemos à frente, para sairmos preparados para o mercado de trabalho. E o que nos trouxeram foi a coexistência e três vertentes: a ética, sobre a existência de culturas diferentes, de raças diferentes, de pensamentos diferentes. O transcendente, baseado numa coisa mística, o espiritual, a coexistência entre o nosso mundo e outros mundos. E a coexistência relacionada ao eletrônico, com o eu robô, a questão dos tecidos tecnológicos. Decidimos trabalhar a temática dos refugiados que estava dentro da questão ética e questão híbrida. Nos importava saber como eles vem, como se sentem. Na moda existe a tendência de trazer a ancestralidade africana que é muito familiar para nós. Então decidimos mostrar isso de outra forma. E isso é empoderamento. Mas não a vestimenta africana, nem a européia. É uma moda dessa hibridação, que causa essa mistura. Como as maiores populações de refugiados em São Paulo são de angolanos e sírios, queríamos trazer algo que refletisse essa mistura”, explicou Daniele.

Editorial da coleção Hybrid – Foto: Jonatas Rocha – Modelos Prudence Kalambay, Carol Tarsitano, Joel Matondo, Heloisa Roberta
O resultado do trabalho das recém-formadas foi uma coleção composta por quatro looks. A dupla trabalhou estampas artesanais em tecidos de viscose e algodão. O objetivo, segundo Daniele e Gisele era trabalhar conforto em peças feitas para serem usadas no dia a dia. “O que a gente levou para a passarela foi uma bordado que era mais manual, reflexo do trabalho manual, feito pelo pequeno, muito do que nos foi falado durante o curso inteiro”, explicou Daniele que celebrou a conclusão do curso enfatizando a discussão de um tema tão necessário. “É o fechamento de um ciclo, pra gente foi bom desde o início, queríamos ter os refugiados em nosso desfile, falar sobre eles e trabalhar a questão.”
O fim de mais um semestre colocou em editoriais e na passarela as criações das turmas do 3º Módulo do curso Modelagem do Vestuário da Escola Técnica Estadual Carlos de Campos – 12 grupos da turma da manhã e 17 grupos da turma da noite, ambas de formandos do primeiro semestre de 2017 – aconteceu no final de junho no Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, no Centro da Capital. Os alunos também tiveram que fotografar editoriais de suas criações.
Entre as coleções, DISOrdeR que destacou a vulnerabilidade do amor bipolar. Desenvolvida por Felissa Freitas, 25, e Jeremias Senna, 22, a coleção teve como inspiração o amor entre pessoas com o transtorno que afeta a cerca de 4% da população brasileira. “Essa doença faz o estado de humor da pessoa se alterar entre profunda tristeza, agitação, euforia, agressividade e hostilidade. Assim, a coleção mostrou elementos que exprimem os diferentes estados emocionais do transtorno bipolar: formas que remetem à anatomia do coração e cérebro fazendo um paralelo entre razão e emoção; linhas oblíquas passando a sensação de instabilidade e confusão. E as cores que representam também essas diferentes fases: vermelho – agressividade; nude – euforia; azul – melancolia; – branco representando a elucidação e o preto representando a introspecção”, explicou Felissa.
“Havia um tema geral para os grupos que era a Coexistência, e a partir dela podiam ser escolhidas 3 raízes: homem-máquina, transcendência e ética. Escolhemos a Transcendência e ao fazer o brainstorm, chegamos à conclusão de que o amor transcende, porém queríamos trabalhar esse sentimento de um jeito que não fosse usual. O tema definitivo para inspirar a coleção, que é o amor de pessoas com transtorno bipolar, foi escolhido após relato de uma pessoa que teve um relacionamento com um parceiro bipolar e contou sobre os obstáculos e instabilidade dessa relação”, completou Senna.
Do segmento nightwear e voltada para o público feminino, a dupla se encarregou de mostrar peças sensuais e sofisticadas com recortes na modelagem de linhas angulosas e oblíquas retratando a sensação de confusão e agitação, remetendo ao sistema nervoso e contrastando com as formas curvas e vazadas inspiradas na anatomia do coração dando a ideia de instabilidade. Os vazados localizados próximos ao peito, faziam alusão à vulnerabilidade do amor bipolar. A maquete têxtil representou a agressividade e os entrelaçados o universo sadomasoquista.
Alexia Valente, 24, e Alice Oliveira, 20, foram as responsáveis pela coleção “Conexos”. Criada para ser um contraponto à indústria de confecção em massa, a dupla apostou no upcycling. Para isso, a proposta envolveu usar resíduos de tecidos normalmente descartados pelas grandes indústrias, dando nova função estética à esses materiais. “Nossa coleção partiu da proposta apresentada pelo professor Guilherme Diniz. A ideia era que os alunos trabalhassem com slow fashion. Foi daí que Alice e eu começamos a desenvolver uma coleção upcycling. E essa escolha surgiu da ideia de criarmos peças minimalistas, mas que valorizassem o trabalho manual e tivesse como base apenas o uso de sobra de tecidos da indústria”, disse Alexia que explicou que o plano era tentar trabalhar apenas com as sobras de tecidos planos que encontrassem disponíveis.

Editorial da coleção Conexos – Foto: Cadu Belarmino – Modelo: Bianca Damasceno – Cabelo e Make: @juliananavarrobeuaty
“Tivemos receio, mas percebemos que isso era algo muito positivo. Utilizamos sobras de tecidos do Banco de Tecido. E desenvolvemos peças sem estampas, em blocos de cores, sem textura e com bastante assimetria”, disse Alexia. “Decidimos fazer nossas peças na modelagem plana, reta, solta e com silhueta H e A, a modelagem plana seria a mais adequada. Antes de confeccionarmos no tecido final, fizemos o teste da peça piloto em algodão cru e ajustamos nos corpos das modelos. Então, desde a modelagem, corte e costura foram feitos por nós e colocamos em prática tudo o que nos foi ensinado no curso”, explicou Alice.

Editorial da coleção Conexos – Fotos: Cadu Belarmino – Modelos: Tatiane Meneghelli e Faby Vieira – Cabelo e Make: @juliananavarrobeuaty
O TCC serviu de estímulo para ambas as jovens que pela primeira vez fizeram de fato uso de resíduos da indústria têxtil, aprendizado que agora levam para a vida. “Meu contato com a moda sempre foi como consumidora, inclusive consumista até alguns anos atrás. Eu não sabia do valor que é ter uma peça de pouco impacto negativo ambiental e social. E que cada vez mais o consumo de peças e sua produção em escala industrial vem gerando resultado muito negativo no planeta e nas pessoas também. Eu não tinha noção do quanto a moda é ampla e que se encaixa em todos os aspectos de nossas vidas”, afirmou Alexia.
Izabela Fernanda, 20, trabalhou sozinha em sua coleção e o conceito da Sollums Lemmas surgiu após pesquisas sobre as terras perdidas: Atlântida, Avalon, Lemuria e Mu. “Como estas civilizações tão importantes nos deixaram diversas histórias de magias e conquistas, por meio das cores e da formas geométricas encontradas na imagens de pesquisa, escolhi por esta proposta em recortes encontrados nas imagens nas peças”, explicou.

Editorial da coleção Sollum Lemmas – Fotos: Victor Ugo – modelos Tati Vidal, Groselyn Chica e Jeremias Senna
Alunos brilharam também em evento promovido em Fortaleza no Ceará
Pouco antes de encarar o desafio do Trabalho de Conclusão de Curso, o temível TCC, quatro destes alunos do ensino técnico fizeram a primeira grande viagem de suas vidas, em maio passado, com destino a Fortaleza, no Ceará para o Dragão Fashion Brasil – DFHOUSE, um dos maiores e mais promissores eventos de moda do país na atualidade. Criado em 1999, a plataforma abre as portas para novos talentos: estilistas e marcas comprometidas com uma visão mais autoral.

Únicos estudantes do ensino técnico em uma evento de maioria universitária: Izabela Fernanda, Daniele Araujo, a professora Maíra Arcoverde, Jeremias Senna e Felissa Freitas.
Daniele Araujo, Felissa Freitas, Jeremias Senna e Izabela Fernanda embarcaram para o evento após o projeto enviado ficar entre os oito selecionados em uma peneira que envolvia um total de 24 propostas. O edital pedia que enviassem ao menos três componentes do grupo. “Mas como éramos quatro, decidimos que íamos todos, fizemos uma rifa na escola, vendemos pano de prato, fizemos bingo na casa de uma das integrantes do grupo e as pessoas foram nos ajudando a conseguir o valor. “Foi maravilhoso ver toda aquela infraestrutura. Eles nos forneceram tudo, maquiagem, modelos, fomos super bem recebidos”, contou Daniele.
A coleção trabalhada e batizada de “Haucas” teve como ponto de partida justamente o patrimônio de grande valor cultural, visual e histórico do Peru de mesmo nome. As Huacas eram centros religiosos das civilizações moches, waris, sicáns, e chimús. Depois de se tornarem centros urbanos, passaram a ser cemitérios da alta sociedade peruana e, logo, foram diversas vezes saqueadas por possuírem jóias e bens materiais de muito valor, os quais despertariam o interesse dos seus futuros colonizadores. Antes um espaço sagrado, hoje as Huacas são sítios arqueológicos preservados por programas governamentais de pesquisa e restauração para reaver tesouros perdidos, como tecidos e jóias. Resgatando uma cultura tão rica quanto a cultura do Peru pré-colombiano, a coleção propôs mostrar elementos mais marcantes para os dias de hoje, mesclando as narrativas andinas ao street style contemporâneo e incorporando técnicas tradicionais de manipulação têxtil ao design brasileiro. Todo o trabalho contou com a orientação da professora Maíra Arcoverde. “Ela foi um anjo”, ressaltou Daniele.

Dragão Fashion Brasil – Desfile da coleção HUACAS – Fotos: Roberta Braga, Cláudio Pedroso e Pedro Brag
“O DFHOUSE é o único evento de moda nacional que tem em seu line up concursos para estudantes de moda mostrarem o seus trabalhos. E ele é mais significativo pela quantidade de tempo que esse projeto é feito, são 18 anos de história. A gente que vai de fora se sente em casa, a equipe de produção é receptiva e o evento tem uma estrutura incrível. Além de que ele não é fechado ao público, fato que torna o evento mais como um evento cultural, acho que isso agrega valores éticos. Ter participado do DFHOUSE 2017, foi o mesmo que dar mais um voto de confiança aos meus sonhos, aconteceu de uma maneira tão natural que chega a ser estranho, pois nunca imaginei que um dia estaríamos desfilando uma coleção no evento e isso tem um peso enorme no currículo. Se fosse pra definir em uma palavra eu diria que foi mágico”, disse Senna.
“Foi tão enriquecedor profissionalmente falando, saber como funciona um backstage de verdade, trabalhar com modelos e maquiadores profissionais, ter contato com as pessoas da produção tão afetuosas que nos tratavam como profissionais mesmo, e isso achei o máximo, porque dá pra ver que a organização do evento acredita realmente no potencial dos grupos que estão ali disputando sabe, ter embaixo do seu nome escrito pela primeira vez ‘estilista’ foi indescritível a sensação. O Dragão tem lugar especial no meu coração, e com certeza abrirá muitas portas para nós e para todos que participam dele”, comentou Felissa.
E Isabela ressalta: “Participar do DFHOUSE é a melhor experiência acadêmica que alguém pode ter na vida pois aprendi diferentes técnicas que aprendemos no curso mais que não colocamos em prática. Foi aprendizado tanto em o que aprendemos no curso como também o trabalho em equipe. Foi uma loucura à parte confeccionar, correr atrás de tecido, as estampas, tudo deu muito trabalho. No fim nossos esforços foi recompensado com elogios maravilhosos, não ganhamos o concurso, mas ganhamos união porque essa equipe que envolveu suas famílias nesse projeto foi de uma união incrível. A parte de arrecadar dinheiro pra viajar também, olha muitas coisas que dá pra escrever um livro. Só sei dizer que foi incrível, foi o desfile que sempre idealizei”, completou.
Em São Paulo, o grupo Paula Souza oferece gratuitamente o curso de Modelagem do Vestuário. Os interessados devem prestar o Vestibulinho que ocorre duas vezes por ano. Informações sobre os processos de seleção, cursos e unidades de ensino, acesse “Vestibulinho ETEC“.
Este conteúdo contou com a colaboração da modelista Daniele Araujo
Com informações do Centro de Referência para Refugiados – Cáritas Arquidiocesana de São Paulo
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