20 • fevereiro • 2017

Você é quem você veste ou você veste quem você é?


ENTREVISTA – Vivemos o tempo mais democrático da história das roupas no mundo. Mas, mesmo em uma época em que absolutamente tudo pode, estamos ainda fadados as tendências que incluem não só a moda e o consumo, mas a imposição de padrões e esteriótipos. Às vezes nem mesmo parece que estamos no século 21. Para entender um pouco sobre os códigos e processos do vestir, o Moda Sem Crise bateu um papo com a psicóloga carioca Maria Cristina Ramos Britto. Especialista em terapia cognitivo-comportamental, a profissional trabalha com casos de obesidade e transtornos alimentares, com foco na recuperação da autoestima e da autoaceitação visando a saúde e a qualidade de vida tão prejudicada pelos padrões estéticos estabelecidos pela sociedade. Em entrevista ao MSC, Maria Cristina falou sobre questões históricas, o que a moda tem causado em nós, como a indústria se apropria e estabelece padrões inatingíveis e sobre a importância do resgate da autoestima para reverter tal processo.

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Foto: Pixabay

Moda Sem Crise – O que vestimos é uma extensão de nós, o que significa que somos o que vestimos, isso independente de modismos?

Maria Cristina Ramos Britto – A roupa que se veste representa nossa identidade, mas, ao mesmo tempo identifica uma cultura e um momento histórico. À medida que os costumes mudam, a moda se modifica e se torna a marca de um movimento. A relação é estreita, sendo ou não percebida no momento que ocorre, como as mudanças no vestiário feminino depois da primeira guerra mundial. Exemplos disso foram a libertação da tortura do espartilho e o estilo criado por Coco Chanel, voltado para uma simplicidade elegante, mais de acordo com as dificuldades econômicas da época. Num outro exemplo, temos a túnica de Mao, vestimenta usada por Mao Tsé-tung, ao proclamar a república popular da China, que se transformou no símbolo da revolução e foi relido pelo Ocidente. Ao longo da história, a moda representa tanto uma identidade pessoal quanto uma marca de seu tempo.

MSC – Então, psicologicamente falando, o que a roupa, o vestir representa em nós?

MCRB – Em nossa época, dominada pela imagem, pela informação rápida, pela fugacidade, por conceitos fluidos e a ênfase nos valores materiais, a escolha da roupa está relacionada ao desejo de pertencer a um grupo, de se reconhecer participante de algo que tire o indivíduo de seu anonimato. Ou seja, somos nós, mas inseridos em alguns códigos, como, por exemplo, nas tribos: roqueiros, punks, funkeiros. Com isso, a moda está relacionada a um estilo de vida e a um modelo ideal a ser seguido, representando, às vezes, mais o que se deseja ser do que o que realmente se é. Ser reconhecido como pertencendo a um grupo, graças a determinados símbolos facilmente identificáveis, dá ao sujeito sensação de segurança e acolhimento. A comunicação e os relacionamentos ficam mais fáceis quando as pessoas se reconhecem, seja pela roupa, por gostos musicais ou posições políticas.

MSC – Levando em consideração o vestir como status, sabemos que a roupa é capaz de transformar qualquer pessoa. Se vestimos algo caro, algo que tenha conceito, nos sentimos poderosos. Por que isso acontece? Por que socialmente falando é preciso ser caro que tenha valor?

MCRB – A roupa é, sem dúvida, símbolo de status. Isso pode ser comprovado na rua: se não se tem condições financeiras de consumir a bolsa ou óculos de estilista, os camelôs podem atender essa demanda com os produtos piratas. Se não se pode ter o original, a imitação, cada vez mais sofisticada, produz o prazer de possuir o objeto, mesmo sendo um simulacro, uma cópia. A sociedade que privilegia a aparência é a mesma que alimenta a busca pelo produto, sendo a necessidade por ele vivida sem questionamento de seu real valor. O indivíduo acaba medindo sua importância pelo que tem e não pelo que é, ou seja, seus valores pessoais estão ligados a bens de consumo e não tanto por suas qualidades como ser humano. A roupa pode transformar uma pessoa se for acompanhada por outras mudanças, como vemos no mito de Pigmaleão. Um exterior elegante deve ser acompanhado de cultura, conhecimento, educação, do contrário parecerá com o produto do camelô: tudo, menos original.

MSC – O que é mais correto dizer, somos nós que vestimos a moda ou a moda nos veste?

MCRB – Vestimos a moda e somos vestidos por ela, pois, a partir do momento que escolhe um grupo, a pessoa está sendo levada a ele por uma identificação com os seus ideais. Questão de escolha pessoal, de gosto adquirido, de busca por conforto ou praticidade, opção por um estilo individual ou mesmo excêntrico (que pode ser apropriado e relido nas coleções dos grandes estilistas), seja qual for a escolha do guarda-roupa, ela terá relação com o que acontece no mundo, da esquina a fronteiras mais longínquas, esse é um dos efeitos da globalização. A moda expressa o indivíduo que reage aos estímulos externos e, ao mesmo tempo, interfere na realidade. A relação é dinâmica e enriquecedora. Mas quando é usada como modismo sem reflexão, a pessoa não a usufrui, tornando-se algo semelhante ao modelo da passarela.

MSC – O que mais pode dizer sobre o código vestir? Por que a moda inclui e exclui, normalmente em maior escala?

MCRB – A moda está inserida na economia, de uma forma mais ampla do que se pensa, como produto a ser vendido, estimuladora do consumo e da economia. O marco dessa nova visão está no período que se segue ao fim da segunda guerra mundial, com o surgimento do prêt-a-porter, ou seja, pronto para vestir. Interessante notar que um período de guerra, crise e penúria é seguido por um movimento de busca daquilo de que a população foi privada. Com o prêt-a-porter, a alta costura, feita sob medida e com exclusividade, foi substituída por um conceito de moda, digamos, mais democrático, que visa um grupo de consumidores em potencial, com roupas práticas, de estilos variados e preços mais acessíveis (por serem produzidas em série, o que diminui custos). Nesse sentido, a moda foi inclusiva, pois saiu das grandes casas de alta costura para as ruas. Mas, como tudo tem mais de um lado, essa moda exclui na medida em que desconsidera as diferenças corporais. Os tamanhos que vão de P a GGG precisam ser adaptados aos corpos que vão vesti-los, ou por uma costureira, ou por outro meio, seja mudança por dieta ou por intervenção estética. Isso é comprovado nas falas de pacientes obesos que, além da dificuldade de encontrar roupas bonitas que lhes caibam, são tratados com descaso nas lojas.

MSC – Como lidar com a moda para tê-la como aliada e não como ameaça, espanto, terror?

MCRB – A melhor estratégia para lidar não só com a moda, mas com tudo na vida é desenvolvendo autoestima. A pessoa que desenvolve amor-próprio e autoconfiança tem mais facilidade para afirmar sua individualidade, necessidades e desejos e, por que não?, um estilo próprio de se vestir e se comportar, mais coerente com sua personalidade, e com isso vai passar uma imagem mais positiva de si mesma. Quem gosta de si mesmo e se acredita merecedor de amor e respeito tem mais facilidade para afirmar seus direitos e recusar imposições, seja do grupo ou dos padrões impostos pela mídia. O autoconhecimento também é fundamental para se posicionar em relação às demandas externas. Como alguém que não se conhece pode saber do que gosta? Esse indivíduo sempre vai esperar que escolham por ele, que pensem por ele, tornando-se refém não só da moda, mas de todos os agentes externos que determinam a política, o mercado, sendo coadjuvante e não protagonista de sua vida.

MSC – Para finalizar, pode comentar o quanto padrões estéticos interferem na moda?

MCRB – Quero comentar sobre a moda além da roupa, incluindo o corpo.  Estou me referindo aos padrões estéticos vigentes, o corpo que é vendido como desejável e objeto de consumo: o cabelo que precisa ser domado, o bumbum que deve ser arrebitado, a barriga chapada, bíceps desenvolvidos, muito músculo, zero gordura e por aí vai. Tudo isso faz parte de uma indústria da moda, da estética, da cosmética, onde o corpo precisa se despersonalizar para adquirir uma forma considerada bela. O aspecto mais perverso dessa ideologia da beleza é encontrado nos consultórios, nas pessoas que experimentam profundo sofrimento por não aceitarem o que vêem no espelho. Essa é a manifestação do transtorno dismórfico corporal, ou dismorfofobia, quando o indivíduo demonstra preocupação excessiva por um defeito físico mínimo ou inexistente, e, para consertá-lo, busca intervenções cirúrgicas ou dermatológicas, cujo resultado não o satisfaz, porque o problema é interno e não será resolvido dessa forma. Qual a relação disso com a moda? A resposta para essa pergunta está nas passarelas, com seus modelos magérrimos, nas capas de revista, no cinema e na televisão, com seus rostos sem rugas ou qualquer imperfeição, graças à maquiagem e ao milagre supremo: o photoshop. Magicamente, o que era realidade se transforma num sonho inalcançável.

*Texto publicado originalmente aqui no Moda Sem Crise dia 14 de outubro de 2016.

+ Maria Cristina Ramos Britto, psicóloga com especialização em terapia cognitivo-comportamental e é autora do blog Saúde Mente e Corpo.

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Uma resposta para "Você é quem você veste ou você veste quem você é?"

Respeito à diversidade: Porque representatividade importa sim! — Moda Sem Crise - 10, dezembro 2016 às (11:55)

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