O projeto Descobertas no Capão, idealizado pela jornalista Nádia de Mello e realizado em parceria com a designer de moda Bruna Castro, no próximo dia 6 de maio, ocupa a sede da Unibes Cultural, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, para a realização de um desfile que tem como objetivo revelar talentos escondidos em uma das mais populosas comunidades da capital Paulista. É no Capão Redondo que Ana Carolina Santos Barcelos, de 22 anos, e Karen Marques, de 21, levam suas vidas. E é de lá que trabalham na criação e produção das peças de suas respectivas coleções: Visual Kei e Sensualize. Tanto Ana, quanto Karen tem o desejo de empoderar mulheres e utilizam a moda para isso. O trabalho de ambas se apropria do Upcycling – técnica que descaracteriza e reaproveita peças fora de uso. E é assim que as jovens estilistas dão vida aos looks que serão apresentados.

A design de moda Bruna Castro e a jornalista Nádia de Mello, idealizadora do projeto que está revelando as estilistas Karen e Ana Carolina no Capão Redondo – Foto: Divulgação
Aos 13 anos de idade, Ana Carolina embora já fosse apaixonada pela máquina de costura, sequer podia imaginar ver um dia suas criações desfilando em uma passarela. A carioca que saiu de Queimados, Baixada Fluminense do Rio de Janeiro descobriu o interesse pela arte da costura porque não encontrava roupas de seu interesse para comprar. “Desde muito nova já gostava de moda japonesa e coreana. E aos 13 anos comecei a me personalizar de Lolita. Uma moda bastante seguida por mulheres adultas e crianças, que traz uma visão inocente das mulheres. Elas se vestem como bonecas de porcelana. E tem uma série de regras. Era muito difícil encontrar costureiras que fizessem as peças com perfeição. Por isso, decidi costurar”, relembra.
A relação de Karen com a ferramenta se deu basicamente da mesma maneira. “Eu não sou uma garota que segue tendências ou que é antenada em moda. Mas sou aquela garota que tem um estilo alternativo. E existe uma carência. Acredito que a demanda seja pequena. É muito difícil gente do meu estilo achar roupas que goste. Como não as encontrava, tinha que personalizar, foi assim que surgiu meu interesse. Foi a carência num estilo dentro da moda que fez com que acabasse em envolvendo”, conta.
A transformação das costureiras em estilistas aconteceu com o desenvolver do projeto. No entanto, um dos desafios do Descobertas foi mostrar à elas que precisavam assumir essa nova condição valorizando suas criações e inspirações. “Quando essas pessoas vão trabalhar com a moda é tudo muito voltado para a costura. E isso começou surgiu um incômodo muito grande. Por que todo mundo da comunidade só pode ser a costureira?”, questiona Nádia. “Não desvalorizando a profissão. Mas, por que na periferia ela não pode ser a estilista?”, enfatiza Bruna. A jornalista explica que foi a partir desse questionamento que surgiu o Descobertas. Além disso, o projeto tem como premissa fazer com que as peças produzidas por essas mulheres sejam valorizadas financeiramente e vendidas a preços alinhados com os conceitos aplicados em sua construção, como é o caso do Upcycling.
A ideia de promover o projeto no Capão Redondo aconteceu durante uma conversa na Base Colaborativa. “Eu frequentava a Base Colaborativa que é uma lugar de projetos sociais e voluntariado e lá recomendaram que procurássemos a ONG Libertários do Capão”, relembra Nádia.
A Libertários por sua vez convidou alunas dos cursos de corte e costura realizados pela própria entidade. E pouco tempo depois, Nádia e Bruna deram início ao projeto de capacitação e oficina de moda. “Falamos de moda, cultura de moda, do processo de criação, da parte histórica, que de algum modo é um tanto distante do imaginário delas, mas que ao mesmo tempo não se mostra tão distante assim. E as incentivamos para que se desenvolvessem como criadoras de moda”, explica Nádia.
O projeto teve início em setembro de 2017. Envolvidas pelo desejo de impactar a vida das mulheres interessadas da comunidade, Nádia e Bruna iniciaram as atividades contando com nove alunas. O principal desafio, já que o projeto não conta com aporte financeiro, foi manter a turma completa.
“Algumas pessoas tiveram que desistir porque arrumaram emprego. E a pessoa precisa. Por mais que ela queira continuar, tem contas para pagar”, conta Bruna que explica também que em alguns casos questões de saúde falaram mais alto e a classe sofreu novas baixas. “No final ficaram apenas duas alunas”, diz.

Da esquerda para a direita: Sarah, filha de Ana Carolina, Karen e Ana Carolina descobertas no Capão Redondo – Foto: Divulgação
O objetivo de Nádia e Bruna agora é ver, por meio de Ana e Karen o projeto seguir adiante. “Nossa ideia é que o projeto não pare na gente. Mas que elas possam replicar tudo o que estamos mostrando para capacitar outras pessoas lá mesmo dentro da comunidade. Mas o que a gente mais quer é mudar vidas. E se duas pessoas se enxergarem como estilistas e passarem a acreditar nelas, elas servirão de inspiração para outras. Queremos mostrar que elas podem e que são capazes, dando a elas a possibilidade de trabalhar com o que realmente gostam e gerando renda. Se isso acontecer, sei que estou no caminho certo”, completa Nádia.
Sobre as coleções e a técnica
As coleções Visual Kei, de Ana Carolina Santos Barcelos, e Sensualize, de Karen Marques, que serão apresentadas no próximo dia 6 de maio, às 19h, em um desfile aberto ao público e para convidados, tem no DNA uma das mais preciosas tendências da nova era da moda: o Upcycling. Nesta técnica – sem qualquer intervenção química – se propõe a criação de peças novas e originais a partir do reuso de roupas e resíduos da indústria têxtil descartados. Técnica essa que é também essência do projeto Descobertas.
“O Upcycling é uma coisa nova. Você tem a ideia e com as peças que tem precisa quebrar a cabeça para chegar ao que quer. Elas [Ana Carolina e Karen] escolheram tudo sobre o que queriam fazer e a partir disso demos o suporte”, diz Nádia de Mello. Ela explica também que muito mais do que questionar as jovens estilistas, o projeto serviu para que entendessem suas escolhas e o caminho a percorrer.
Em ambas as coleções Ana Carolina e Karen trabalham a favor a quebra de padrões é assunto recorrente. “Uma trabalha a influência da moda japonesa e a ideia é falar que o normal pode não ser o seu normal. E a Karen fala da questão da sensualidade de forma mais alternativa. Esse é um lado dela que ela quer explorar. E que o único padrão é não seguir padrão”, afirma Bruna Castro.
Mãe de Sarah, de 4 anos, e do recém-nascido Touya, a carioca Ana Carolina conta que antes mesmo de se apropriar da técnica de Upcycling já se aproveitava das suas roupas para produzir peças novas para sua filha. “A costura é minha vida. No momento que mais precisei ela estava lá. E me deu renda”, explica ela que ao se separar do pai de sua primeira filha, precisou arregaçar as mangas para garantir o sustento da família.
Para o desfile, Ana Carolina que cresceu influenciada pelas tradições japonesas, encontrou nelas a inspiração. “Sou brasileira com coração japonês. Referência que está na coleção. Meu desfile terá saias e blusas com paletas escuras no azul marinho, vinho, vermelho, preto e roxo. São saias com design despontados e com cortes e geometria diferentes. É visão que tenho. É como gostaria de me vestir. Talvez algo chamativo para algumas pessoas, mas para mim é algo muito simples. Além disso, eu crio, desenho, faço modelagem, mas me vejo como costureira”, diz. Um tanto ansiosa, Ana Carolina afirma nunca ter ido a um desfile antes. “Sempre costurei para mim. Mas para apresentar para um público, nunca pensei nisso”, afirma.
Já Karen, que conta ainda que participar do projeto a fez descobrir um potencial que ela mesma desconhecia, diz acreditar que o crescimento na jornada profissional a partir daqui vai depender muito de seu desempenho e busca e das oportunidades que encontrar pelo caminho. “Nunca imaginei na minha vida que seria capaz de produzir peças essas mesmas peças teriam a oportunidade de serem expostas em um desfile. É surreal a ideia de que isso está acontecendo. Não caiu a ficha ainda. Estou muito empolgada com isso. Para mim o desfile é o reconhecimento de uma conquista por aquilo que tanto me esforcei.”
A coleção de Karen batizada Sensualize consiste em expor a sensualidade da mulher de forma a empoderá-la. “Eu pretendo mostrar que a mulher pode ser sensual e não precisa se vulgarizar para isso. Minha relação com o tema proposto é um tanto quanto pessoal. E minha inspiração consiste na percepção que tenho de que a cada dez mulheres, nove tem baixa autoestima e apenas uma é confiante. As mulheres acreditam que se colocam uma roupa mais curta, justa, decotada que seja, estará bonita e seja desejada. A ideia é mostrar que não precisa desses artifícios para ser linda, bonita, desejada, sensual. Enfim, a ideia é mostrar que cada mulher é bonita a sua maneira”, completa.
O desfile contará com modelos do Periferia Inventando Moda – projeto social criado em 2014 em Paraísopolis, zona sul, pelo estilista Alex Santos. O PIM desde então fortalece a identidade da moda e beleza da periferia por meio de cursos dedicados à quem sonha desfilar, produzir, maquiar ou fotografar. A beleza será assinada pela maquiadora Amanda Tedesco. E a trilha sonora estará nas mãos do cantor e compositor Samuca, da big band Samuca e a Selva.
Pouco antes do desfile acontece uma Oficina de Upcycling com Ana Carolina e Karen. Serão abertas dez vagas. Os interessados em participar devem fazer inscrição e no dia do evento comparecer com uma peça para transformação.
Serviço:
Local: Unibes Cultural – Rua Oscar Freire, 2.500 – Pinheiros
Dia: 6 de maio de 2018
Horário: Oficina de Upcycling 14h (inscrições neste link) e Desfile às 18h
Entrada gratuita em ambas as atividades