A escolha de escrever e publicar conteúdos jornalísticos normalmente me afasta da publicação de textos mais pessoais. Para ser bem sincera, prefiro assim. Até mesmo esse espaço chamado “Carta da Editora” que eu pensava repercutir todo dia 1º do mês e onde posso me expor, deixo sempre para depois. Resultado do meu modo mais discreto de levar a vida. Mas, para fazer o que me proponho, sei que preciso também mostrar mais a cara. E esse tem sido um exercício entre os vários que venho experimentando ao empreender.
Eu nem cogitava escrever neste 1º de agosto a tão temida #cartadaeditora. No entanto, uma conversa pelo whatsapp com minha amiga Aline Aparecida me conduziu para uma história do passado. Não sei se esse tipo de texto interessa ao leitor do Moda. E até acho que deveria usá-lo para falar do que está por vir. Mas, sempre me apoio na nostalgia, no saudosismo. Então, me desculpe mas é isso que compartilho neste instante contigo.
Em três anos de projeto #ModaSemCrise, ao ser questionada sobre meu envolvimento com a moda, sempre comentei do distanciamento que havia. E relacionava ao fato de ser filha de costureira e ter crescido entre tecidos, tesouras e carretéis de linha, meu interesse pelo assunto. Já profissionalmente falando, sempre afirmei que essa relação nunca passou de um leve flerte, mas agora admito que estive enganada.
Eis que vasculhando a internet bastante determinada reencontro o Silhueta Moderna. Um blog que criei em 2009. Ao conversar com a Aline cheguei arriscar ter sido em 2013. Mas não. O projeto era mesmo mais antigo do que imaginava.
Achei divertido ver como conduzia os textos, as chamadas e como parecia de fato “antenada” com o assunto. E me deparei com o primeiro dos poucos posts que publiquei no “Silhueta Moderna – Moda Blog da Cabeça aos Pés” – apenas 11, entre abril e outubro daquele ano.
O primeiro post dizia (sic):
Desde pequena sonhava trabalhar em revistas. As que mais chamavam a atenção eram as que falavam sobre comportamento feminino. Por incrível que pareça o destino quis que eu trabalhasse com algo um pouco diferente. Me tornei repórter das editorias de Cidades e Polícia de uma jornal diário bastante conceituado de São Paulo. Ainda me lembro da primeira vez que fiquei frente a frente com um delegado e, claro, o acusado. Sim, pra dizer a verdade, eu gostei. Jornalismo sempre foi minha paixão… Mas sempre houve algo que me traria tanta felicidade quanto… a moda. Foi pensando nisso que decidi colocar em prática o “Silhueta Moderna – Moda Blog da Cabeça aos Pés”… Ele na realidade já existia. Mas resolvi trocar para essa ferramenta que parecer ter mais a oferecer do que a anterior… Este é só um post de estreia… Daqui pra frente tudo o que ver ou ler relacionado ao universo fashion será comentado aqui… Bem. Por hora é só pessoal. Você é bem-vindo(a) aqui… portanto… volte sempre!!!
Nunca que poderia imaginar que quase dez anos depois estaria aqui relendo isso e concordando com a parte que diz o quanto a moda, mais precisamente o Moda me faz feliz apesar dos inúmeros desafios diários.
Corri para ver o único comentário deste post. E não me surpreendeu ver uma das leitoras mais assíduas do Moda Sem Crise sendo a primeira a comentar um post do Silhueta Moderna. Fabi Souza – sempre tão presente na história do #Moda – e que na época se apresentava como “Fabi Tricolor”.
Mas as lembranças não pararam por aí. A imagem que ilustra o primeiro post foi uma colagem que fiz. Lembro-me de ter recortado foto por foto e ter colado também uma a uma. Depois foi só escanear e colocar a maçã – que confesso que não faço ideia da razão de tê-la usado (risos) e incluir as palavras que definiam o blog.
Em 2009, o envolvimento do público com os blogs acontecia de maneira extremamente orgânica. E quem deu início a um projeto naquela época ou pouco antes e investiu nas redes sociais – sem essa coisa de #algoritimo e o financiamento para ter conteúdos escalonados – conseguiu o apoio necessário para fazer crescer e acontecer, digamos, n’outra pegada.
Foi nessa época que conheci o trabalho de uma blogueira francesa bastante badalada. Na lista ao lado direito dos blogs favoritos está o dela: Le Blog de Betty. Uma parisiense moderna, cheia de estilo e atitude, assim mesmo, nessa linguagem beeeem blogueirinha. Acompanhava as publicações de #BettyAutier – e ela é o assunto do 5º posto do SM – sem também imaginar que uma dia estaria frente a frente com aquele ícone fashion. Encontro que aconteceu em abril de 2013.
Se não me engano, acontecia a São Paulo Fashion Week. A essa altura os conteúdos da Betty eram publicados em seu blog em francês, inglês, e, e, e, em português. Sim, ela já manifestava sua paixão pelas terras tupiniquins. Betty viajou para o Brasil. Me lembro de vê-la mencionar no IG a paixão pelo #GuaranáAntártica.
A surpresa aconteceu após cerca de nove horas de um voo São Paulo-Paris da #AirFrance (aliás, Air France me patrocina, nunca te pedi nada). Me sentei numa poltrona do corredor, na segunda fileira da econômica, do lado direito da aeronave, atrás de um casal bastante animado que bebeu vinho e champagne durante praticamente todo a viagem. Ao lado do casal havia um cara bonitão e uma das comissárias não queria parar de servi-lo. Mas quem mais se beneficiou disso foi o casal do qual falei que até derramar a bebida derramou. Cabe até um 🙈 aqui.
Bom… sem conseguir dormir muita coisa durante o vôo, já próximo do amanhecer vi passar por mim uma moça. Ela seguiu em direção ao banheiro. De imediato me pareceu familiar. Mas foi na sua volta para o acento que constatei: Betty e eu estávamos dentro do mesmo avião.
Minha experiência no jornalismo diante de famosos sempre fez de mim uma pessoa bastante pé no chão. Uma famoso não faz – ao menos fisiologicamente – nada diferente do que faço, portanto, somos seres humanos iguais. E nunca houve razão para tanto entusiasmo. Admiro sim. Porém à distância e até calada. Mas, o destino às vezes é implacável.
Após 11 horas de viagem com direito a um pouso tranquilo tudo o que queria era pegar minha bagagem e seguir. No entanto, porém, todavia, para pegar minha mochila era preciso sair da área onde estava, pegar uma espécie de “monotrilho” – aquele modal que atende um pequeno trecho na zona leste de São Paulo – para acessar o outro lado do Aeroporto Charles Gaulle. Betty e eu fomos as duas últimas pessoas a passar pela porta do último vagão do pequeno “trem”. E, claro, nos apoiamos em uma barra de ferro no mesmo metro quadrado.
Eu sabia quem ela era. Nos dois minutos, talvez até menos tempo que estivemos juntas, não a abordei. Apenas observei. Seu #aerolook incluía moletom, jaqueta e um cabelo que mesmo bagunçado parecia impecável. Em uma das mãos o celular – um #iPhone coberto por uma capinha acho que cinza brilhante onde se lia em rosa e letra cursiva “Le Blog de Betty”. A perdi de vista – para sempre – minutos depois no controle de passaporte.

Betty Autier em visita ao Brasil: Instagram da blogueira soma mais de 885 mil seguidores, precisei xeretar pra colocar nesta legenda* – Foto: Reprodução Pinterest
Vejo que perdi a chance de dizer que a acompanhava e o quanto gostava. Ainda a segui no Instagram por algum tempo. E não foram várias as vezes que ao postar uma foto na minha conta pessoal brinquei com a hashtag #TeDedicoBetty (mas isso só Juliana Pimenta vai entender, #pardonnemoi).
Faz tempo que não vejo suas publicações*. Não sei qual sua relação atual com a moda. Se ainda se pauta pelo glamour ou se reconhece a importância de influenciar de forma consciente. Sei lá. Mas creio que deveria sim ter dito algo. Não vou negar o quanto me alegra receber o carinho que recebo de quem acompanha o Moda. Fabi – que desde aquela época – super apoia esse trabalho que o diga.
Vira e mexe percebo quantas memórias deixo para trás. E a mente que deveria preservar coisas como essa que nos faz enxergar a caminhada, teima em enfatizar aquilo que tira a paz, aquilo que faz o peito doer e a resiliência parecer um fardo. Muito mais do que reler e relembrar essas pérolas… Me causou uma sensação boa reencontrar a Marcela Fonseca de 2009. Rever essas histórias. E, principalmente, reconhecer que o desejo que manifesto hoje e tento tornar realidade sempre esteve aqui. Bem aqui, chèry.