25 • novembro • 2016

“Compre o mundo em que você quer viver”


COMPORTAMENTO – Em meio a tantos anúncios da Black Friday, evento anual que ocorre em 25 de novembro no Brasil e em outros países em todo o mundo, com o objetivo de queimar estoques a preços promocionais para depois repor estoques e vender ainda mais, existem pessoas e movimentos que marcham na contramão. “Compre o mundo em que você quer viver”, essa é uma das dicas da campanha Green Friday da marca de sapatos veganos Insecta Shoes. Diferente de tudo o que se viu nos últimos dias e, principalmente, nas últimas 24 horas em comerciais na TV, rádios, revistas, sites, blogs, jornais e nos canais de comunicação utilizados pelo comércio em geral, a marca gaúcha substituiu as investidas para levar novos e antigos clientes às compras por sugestões de pequenas atitudes, com a intenção de promover uma revolução: a das microrrevoluções.

Em vez de 24 horas de promoções, estímulos e todo tipo de impulso para promover o consumo desenfreado, a marca preparou uma lista com 24 (microrrevolucionárias) ações que vem compartilhando a cada uma hora desde a primeira hora do dia. “Plante algo“, “Faça seu próprio pão“, “Troque o hipermercado pela vendinha da sua rua“, estão entre elas. Mas em post publicado ontem no blog da empresa “24 microrrevoluções que você pode começar agora mesmo” é possível conhecer a lista completa. E começar uma revolução agora!

“Estamos em um momento crucial, onde a economia, o meio ambiente e a sociedade pedem por ações melhores por parte das organizações políticas e privadas. Não é mais possível administrar novas empresas com base em velhas ideias. Nós falamos que o primeiro passo para ser consciente na hora de comprar – e na hora de produzir produtos – é a curiosidade por informação. Nem sempre nós temos noção total do impacto das nossas ações ou o que o nosso dinheiro está financiando através da compra. Para tornar mais clara a necessidade de falarmos cada vez mais sobre os impactos do consumo não só para fazermos escolhas de compras melhores, mas também para cobrar das empresas e do governo melhores práticas, nós trouxemos alguns dados da indústria da moda quando o assunto é meio ambiente”, disse a empresa sem atribuir a fonte em uma mensagem enviada pelo Facebook.

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Vestindo uma bandeira azul nesta sexta-feira em que descontos ocorrem em todos os tipos de negócios, abrangendo mais do que o consumo de roupas, calçados e acessórios de moda, a empresa norte-americana United by Blue varejista do ramo de sportwear decidiu propôr aos clientes que acordassem cedo e, em vez de enfrentar filas de compras, que dedicassem parte de seu tempo para uma limpeza geral no bairro onde residem para só depois partirem para as compras. A empresa disponibilizou até mesmo um kit de limpeza com um par de luvas, um saco para o lixo orgânico e outro para recicláveis, além de um guia de como fazer uma limpeza rápida.

Já a empresa californiana de roupas para a prática de esportes ao ar livre, a Patagonia entrou na campanha que promove descontos nas vendas, no entanto, a marca afirma que 100% dos lucros da sua arrecadação com as vendas da Black Friday serão doados para organizações de proteção ambiental.

Mas, afinal, qual o impacto da Black Friday em nossas vidas?

Para Mariana Lombardo da equipe Fashion Revolution Brasil, movimento que nasceu na Inglaterra e hoje está inserido em mais de 60 países, com o intuito de conscientizar sobre  o verdadeiro custo da moda e seu impacto em todas as fases do processo de produção e consumo, propondo soluções e mostrando que a mudança é possível, a Black Friday é mais uma data que promove o consumo esvaziado de significado ou mesmo falta de senso crítico da sociedade. “A gente vê as pessoas comprando coisas sem nem mesmo questionarem a necessidade dessas coisas em suas vidas, pois visam somente a oportunidade do desconto”, diz Mariana que enfatiza questões inclusive bastante conhecidas na versão brasileira em que se cria a falsa ilusão de megas ofertas, aumentando preços e depois os reduzindo para o momento. “Comprar algo que não estamos precisando, só porque aquilo está pela metade do preço não é um bom negócio. O que é vendido como uma oportunidade acaba tendo um preço alto não só para quem faz a compra, mas também para o planeta em que vivemos, cujas áreas destinadas aos aterros e ao armazenamento do lixo estão em situação de calamidade”, comenta.

O movimento Fashion Revolution Brasil acredita que a partir do momento em que as pessoas se conectam com os processos de produção daquilo que elas consomem, elas passam a fazer melhores escolhas, pois entendem que ao comprar algo investem o seu dinheiro no tipo de realidade que querem criar. No caso da moda, comprar algo de maior durabilidade, produzido de maneira ética e com matérias-primas cujos processos são mais limpos acaba fazendo um bem para o todo. “A Black Friday, afinal é boa pra quem? Se beneficia o consumidor final e gera um lucro tremendo à quem está vendendo em detrimento da vida de quem produz e do meio ambiente não faz bem algum, isso é uma outra ilusão”, diz.

De acordo com dados do Fashion Revolution, neste ano, está previsto que nos EUA a população gaste em torno de U$3 bilhões nesta data que está se tornando o principal evento do calendário comercial daquele país. “Em uma nação onde a média de descarte de roupas por cidadão gira em torno de 37kg por ano, é realmente necessário uma data que promova descontos especiais para que se compre mais?”, questiona.

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Oportunidade para refletir

Em entrevista dada ao site Casa Tear Magazine para matéria “Black Friday: Comprar algo que não precisamos é muito caro“, publicada ontem, Helio Mattar, presidente do Instituto Akatu – ONG que atua há 15 anos pelo Consumo Consciente -, afirma que a data é uma oportunidade para promover uma reflexão sobre a nossa relação com o consumo. E tão importante quanto consumir é questionar sobre a real necessidade de compra e o real desconto no valor do produto. “Comprar o que não precisamos, mesmo que pela metade do preço, sai muito caro para o consumidor e para o planeta. O essencial mesmo é ter certeza de que o que estamos comprando é realmente necessário. Como a pressão da Black Friday é muito grande, é preciso pensar muito antes de comprar.”

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Foto: THINKSTOCK

Para promover o consumo consciente na Black Friday e nas festas de fim de ano, o Instituto Akatu lançou a nova fase da Campanha #ClimaMuitoLoko, dedicada ao uso consciente do dinheiro e crédito e sua relação com as Mudanças Climáticas. Ao longo do ano, as várias etapas da campanha vêm promovendo a reflexão de que o excesso de consumo afeta nossas vidas, o meio ambiente e está diretamente relacionado às mudanças no clima. O Akatu elaborou seis perguntas básicas que servem para reflexão e que o consumidor deve se questionar antes de sair às compras:

Seis Perguntas do Consumo Consciente

1. Por que comprar?
Pergunte-se, antes da compra, se você realmente precisa do produto ou se está sendo estimulado por propagandas ou impulso do momento, que podem levá-lo a comprar mais do que necessita ou pode comprar. É importante lembrar os limites dos recursos naturais do planeta e o que realmente é importante na vida de cada um. Isso muitas vezes vai significar “ter” algo não material no lugar do material, como dedicar mais tempo a atividades com a família e os amigos.

2. O que comprar?
É neste momento que definimos qual produto queremos comprar, ao analisar o que as opções disponíveis oferecem e escolhendo as características que realmente atendem às nossas necessidades. Atributos demais que nunca serão usados são puro desperdício. Busca-se definir também a qualidade e durabilidade do produto, suas características de segurança no uso, eficiência energética e outros critérios que permitam selecionar sua escolha.

3. Como comprar?
Devo comprar à vista ou a prazo? Conseguirei manter as prestações pagas em dia? Vou comprar perto ou longe de casa? Como vou buscar e levar minhas compras? De carro, ônibus, bicicleta, a pé? Fazer compras de bicicletas no final de semana com a família pode ser divertido e uma ótima experiência para todos. E prefira sempre sacolas duráveis, ou mesmo caixas de papelão, a opções descartáveis.

4. De quem comprar?
Ao escolher a empresa fabricante do produto a ser comprado, é importante considerar as características de produção, o cuidado no uso dos recursos naturais, o tratamento e a valorização dos funcionários, o cuidado com a comunidade e a contribuição para a economia local. Assim, o consumidor pode reconhecer e valorizar com suas escolhas as empresas que melhor cuidam da sociedade e do planeta, além de atender às características definidas na etapa “o que comprar?”.

5. Como usar?
É essencial encontrarmos formas de usar de maneira consciente os produtos e serviços adquiridos de modo a evitar a troca sucessiva de itens sempre que algo novo surge no mercado ou entra na moda. Alguns exemplos: ser cuidadoso no uso, usar os produtos até o final da sua vida útil, consertá-los se quebrarem antes de pensar em comprar um novo, desligar aparelhos eletrônicos quando não estão em uso e consumir somente o necessário de recursos como a água nas diversas atividades domésticas.

6. Como descartar?
É o momento de se perguntar se o que se quer descartar não tem mais nenhuma utilidade, seja para você ou para outras pessoas. Caixas e embalagens podem se transformar em brinquedos para as crianças, e roupas antigas com nova costura, móveis reformados e eletrodomésticos consertados podem ser doados ou trocados. Quando realmente não houver novos usos para o produto, deve-se descartar os resíduos de maneira correta, buscando enviar o que for possível para a reciclagem. E sempre lembrar que não existe “jogar fora”, o “fora” é o nosso planeta, onde todos vivemos.

*Essa matéria contou com a colaboração de Bida Thomazini da Casa Tear Magazine e da fotógrafa e escritora Maria Helena Sponchiado. 

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