28 • agosto • 2018

Como foi empreender e porque a moda sustentável caminha em passos lentos


O texto desse mês para o Moda Sem Crise é sobre o que a Rabble significou pra mim, seu término e o porquê de seu término. Confesso que inicio esse texto, já com vontade de terminá-lo, apesar de eu mesma ter sugerido que minha pauta desse mês fosse sobre o fim da marca.

É um assunto que eu já gostaria de ter dado por encerrado, e não ter mais que retomá-lo, simplesmente porque, se é pra tocar adiante, viro a página e vou pro próximo. Mas acho importante falar a respeito, afinal, vemos tantos textos na internet de empreendedores de sucesso, que conquistam isso isso e quilo porque se dedicaram muito. E por terem se dedicado muito estão ganhando milhões hoje em dia. E daí, nasce nas pessoas a vontade de largar suas carreiras e empreender, como se tudo fosse um mar de rosas. Como se trabalhar para si mesmo fosse fácil e puramente prazeroso.

Monique Brasil posando com sandália artesanal Rabble – Foto: Marcela Fonseca

Mas a realidade também tem outro lado. E estou aqui pra falar dele. Falar pra você aquilo que precisa ouvir. E não somente o que te importa saber pra dar o ponta pé inicial. Quero deixar aqui opiniões que são embasadas numa experiência real de quem empreendeu e descobriu que não é da noite pro dia que as coisas acontecem. Que as pessoas não vão te apoiar somente porque são suas amigas. Que ter muitos seguidores e fazer sucesso nas redes sociais, não significa necessariamente vender muito. E que você vai quebrar a cara sim. E  vai descobrir que pra ser sua chefe, precisa trabalhar o triplo do que trabalha no seu emprego atual. E não vai ter o mesmo suporte financeiro e técnico que tem no seu emprego e que te permite executar suas funções pra receber seu salário no final do mês.

Recentemente teve uma matéria que fez sucesso na internet, pela ironia do tema, era sobre uma menina que fez sucesso do NADA, porque investiu R$ 300 MIL, que GANHOU da sua família, em seu negócio de sucesso. Bom, vamos a realidade dos fatos: Quantas de vocês que leem esse texto já tiveram a oportunidade de investir R$ 300 mil ou até menos, R$ 100 mil ou 50 mil no seu próprio negócio?

Segundo o Sebrae foram criadas no Brasil nos últimos anos, mais de 11 milhões de empresas que surgiram por necessidade, geralmente de pessoas que, assim como eu em 2017, foram demitidas de seus empregos, e viram no empreendedorismo uma oportunidade de se reeguer.

Portanto, se uma empresa é gerada por uma necessidade, logo, dificilmente as pessoas terão muito dinheiro para investir em seu negócio, e optarão por negócios que tenham investimento inicial pequeno, como foi meu caso.

A realidade é que a maioria das pessoas que tentam empreender têm um valor X inicial. E precisa que esse valor de investimento retorne rápido, pois seu capital de giro também é pequeno, quando ele existe. E a outra ponta da realidade é que esse retorno do investimento costuma acontecer em média, após dois anos de trabalho árduo. E no meu caso, só pude esperar um ano por esse retorno que não obtive.

Então, se você está pensando em empreender, minha primeira sugestão é: Analise muiiiiiito bem o mercado e o segmento que pretende atuar, e faça um bom Plano de Negócios antes, que englobe esse planejamento mínimo de dois anos.

Por favor, não subestime o Plano de Negócios, se você não o fizer, a chance do seu negócio ir por água abaixo é de 90%.

Quando decidi empreender, resolvi que seria no mercado calçadista, e no segmento de sustentabilidade. Então fui pra um nicho de mercado que representava 3% do share de mercado ( participação de mercado). Tenho certeza que se eu tivesse ido por um outro caminho, como o fast fashion, por exemplo, ou até mesmo mantido o segmento de sustentabilidade, mas trabalhando com um certo “greenwashing”, eu teria me dado super bem, (mas é claro que não era o que eu queria), pois a realidade é que pouquíssimas pessoas se importam, e até mesmo as que dizem que se importam, se contentam com alguns termos sustentáveis ou campanhas específicas que as marcas fazem, e as consomem não pela sustentabilidade, e sim, pelo sentimento de pertencimento.

Pra exemplificar o que estou tentando dizer, é só você pensar numa marca X, que você ama e se identifica com as roupas e sapatos. E com a identidade visual da marca. Se você estiver buscando consumir de forma mais consciente, e essa marca anuncia uma coleção voltada para o Upcycling, ou feita com plásticos recolhidos dos oceanos, ou com trabalho de cooperativas de costureiras certificadas, ou com um material cuja extração também possui certificação legal, qualquer que seja a iniciativa dessa empresa, será o suficiente pra você consumir dela, pois o que todo mundo diz no final é: “Ah, mas temos que incentivar as iniciativas boas das empresas, só assim elas vão entender que precisam mudar.”

E é ai, nesse momento de decisão, que você deixou de comprar de uma marca pequena, onde você poderia realmente impactar na vida de alguém que está tentando garantir seu sustento por meio de uma produção realmente genuína. E é nesse momento que fica cada vez mais difícil das pessoas entenderem que pra essas empresas grandes de FATO, se preocuparem com questões ambientais e perceberem que é bom atuar efetivamente nesse segmento, as pessoas precisam estar consumindo umas das outras, em formato de rede, fazendo o dinheiro girar na base, e não, comprando dessas coleções esporádicas com temas sustentáveis.

E é claro também que essas ações de grandes empresas são importantes, apesar delas continuarem matando o pequeno e microempreendedor, muitas pessoas só têm contato com um viés mais sustentável na moda, a partir de uma camiseta de algodão orgânico que comprou na C&A, por exemplo. E a partir daí vão buscar conhecer novas iniciativas, e em algum momento se deparam com uma marca artesanal feita por um pequeno artesão.

A questão é, tudo bem consumir dessas marcas também, mas olhe para o pequeno produtor de fato! Compre um tênis pro inverno da marca que desejar, mas tente experimentar conhecer a marca artesanal da menina que faz os sapatos em casa e produz com sobras de materiais, você pode se surpreender!

Entenda que o sentimento de pertencimento que você tem que ter, é apenas de pertencer a um mundo melhor que você idealizar no seu interior. E não é de pertencer a uma classe X ou Y e pessoas cool e antenadas que estão usando coisas de Upcycling de marcas famosas, e nem estou falando só de grandes marcas agora, estou também falando daquelas genuinamente do segmento sustentável, que as pessoas adotam como as únicas opções existentes, por que não abrem os olhos para o que tem do lado.

O sentimento de pertencimento não está só em quem quer consumir o tênis com plástico retirado do oceano da Adidas, mas é o mesmo sentimento de pertencimento de quem só vê a Insecta como opção de calçado sustentável, porque dentro do segmento, é a Insecta a marca mais “cool”, e as pessoas vão ouvindo seus egos, sem dar oportunidades a outras marcas que vão surgindo, até mesmo porque querem se manter, sustentáveis de raiz. (Tem essas também!)

Então, se as pessoas não abrirem os olhos para as coisas novas que surgem, da mesma forma que diversas marcas aparecem, elas vão desaparecer também, por falta de apoio, incentivo, e de vendas.

Voltando a falar sobre a Rabble, foi um ano incrível. E mesmo agora que decidi voltar a investir na minha carreira corporativa, tenho esse ano como sendo primordial pro meu desenvolvimento como profissional, pois enfrentei dificuldades que não tive oportunidade de enfrentar em outras empresas. Então sem dúvida, não foi um ano em vão. Não foi em vão, pois foi um ano de arriscar fazer algo novo, de aprender coisas novas e conhecer pessoas novas. Fiz amizades que ficarão para a vida. Aprendi questões de planejamento e gestão diferentes do que já sabia até então. E agora é hora de olhar para a frente, para o novo de novo.

Se tem algo nessa vida do qual não tenho medo, são de mudanças, elas sempre trazem frescor e novos aprendizados. E estou pronta para o que vier. E se você está pensando em mudar também, vá sem medo, nada é perdido e tudo aprendizado. Não existe escolha certa ou errada, apenas escolhas. Toma uma decisão e tenha uma atitude. Siga em frente, e se não for como você esperava (e provavelmente não será ) terá sido útil pro seu crescimento profissional e pessoal, e você terá evoluído.

O mais importante é manter sempre o fluxo, se movimente tomando atitudes, porque a vida precisa estar em constante movimento, ela é como o rio, ele nunca é igual e nós também não podemos ser.

Ouvi alguém falar na internet outro dia que existem três tipos de pessoas: as de vidro, que são frágeis e se quebram com facilidade diante de toda dificuldade; as de metal, que são fortes e aguentam os baques, porém não mudam, são muito rígidas; e as de diamante, que quanto mais apanham da vida, se lapidam e vão mudando e se tornando cada vez mais pedras preciosas, então, que seja como o diamante. Arrisque, e se a vida te der um tapa na cara, aprenda a lição necessária e siga em frente lapidada, sempre agradecendo por tudo.


Monique Brasil

Monique Brasil

>>> Monique Brasil é graduada em Design Digital pela Universidade Metodista e tem formação pedagógica em Artes pela Faculdade Paulista São José. Sua experiência profissional inclui criação e gestão de marcas. Especialista em branding, por quatro anos transitou entre as áreas de Trade Marketing, em multimarcas de bens de consumo. Mas foi com a moda e, principalmente, com os calçados, que se encontrou profissionalmente. Formada também em Desing de Calçados pelo SENAI, a artesã é proprietária da Rabble, marca de calçados com foco no uso de resíduos. O projeto valoriza o comércio justo e a sustentabilidade. E é seu objetivo conscientizar pessoas sobre produção e consumo. Aqui no Moda Sem Crise, Monique assina a coluna Sapateirar de publicação mensal. Espaço onde compartilha sua jornada como consumidora e empreendedora no mercado brasileiro de moda. Fale com a Monique | E-mail: rabbleshoes@gmail.com



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